Sempre tive extrema dificuldade para me expressar, ainda que a expressão fosse necessária. Posso elencar dezenas de ocasiões em que tive de me valer da palavra, em que tive de dizer ei tira a mão daí ou não foi isso o que eu pedi ou eu gostaria de trocar este produto. Sempre fui esculhambado porque jamais dizia ou fazia o que precisava quando precisava.
O que acontece é que as palavras ficam entupidas num lugar entre o cérebro e a garganta, e ora como não descem! Ficam lá paradas, secando. Ao final de alguns minutos a vontade de dizê-las se foi, o momento certo se foi e então eu começo a remoer o negócio como um pobre coitado.
Me lembro de uma festa em que fui, eu devia ter lá meus quinze ou dezesseis ou dezessete, e pessoas de quinze ou dezesseis ou dezessete bebem como se tivessem trinta porque há outras pessoas como elas que esperam que elas bebam. E se não o fazem serão a chacota do grupo. E serão até que bebam e vomitem e contem essa história de glória nauseante pra Deus e o mundo.
Eu não bebia, tomava só refrigerante, e então uma loira, uma loiraça! sentou-se num banco a uns dois metros de mim e ficou me encarando. Um cego me cutucaria pra dizer veja lá meu bom rapaz como aquela loiraça te encara. Eu lhe diria: não estou vendo nada disso meu senhor. O senhor deve estar se confundindo.
Veja, essa loira me encarou por minutos sem fim, os olhinhos cinzentos pedindo vamos fale comigo. E eu não era capaz de me levantar e ir até ela. Ao menos perguntar qual era seu nome ou acenar ou qualquer coisa. Só fiz ficar paradão, encarava-a de volta, mas quando ela me pegava no ato eu desviava a cara pro chão.
Logo outro cara sentou-se ao lado dela e desviou-a de mim. Ela virou-se pra esse outro rapaz, que não vestia camisa e queria exibir músculo. Que músculo? Era um pançudinho metido a rato de academia, mas acreditei, naquele momento, que era certamente mais qualificado que eu para conversar com a loira. Acreditei que ela sairia mais satisfeita negociando com ele do que comigo, veja que ideia, eu!, que não saberia o que fazer se ela me dissesse o nome, se me convidasse pra dançar, se me perguntasse quem eu era.
E logo estava a loiraça aos beijos com o brucutu e eu continuava no meu canto. Não sabia o que fazer quanto àquilo. Então não fiz nada.
Foi num arroubo de proatividade que, vinte anos depois, conversei com uma mulher lindíssima, que veio a se casar comigo futuramente. Foi ela quem teve de me pedir em casamento e planejar a festa e tudo o mais. Enfim. Um dia perguntou-me se eu ainda a amava. Perguntei: por quê? e ela disse que porque eu não a comia. Assim mesmo: você não me come. E eu não sabia lhe dizer porque não fazia isso. Então ela supôs que eu não a amava mesmo, que estava tendo outra, e foi-se embora.
Aí chorei, chorei e chorei. Mas não tinha por que ir atrás dela.
Estou relembrando estes episódios num momento um tanto quanto conturbado da minha vida. As lembranças iniciaram quando um rapaz não muito simpático abordou-me, há coisa de um minuto ou pouco mais (veja como me lembro depressa do que passei!), e gritou passa o celular e o dinheiro ou leva chumbo!
Ora, achei que ele estivesse antecipando muito a coisa toda.
Se eu escavar um pouco mais fundo esta cabeça oca, consigo chegar ao dia em que um brutamonte do colégio me olhou e veio me pedir biscoito. É que eu levava biscoito recheado pra escola todo dia. Eram uma delícia, verdade, por isso daria razão ao garoto. Mas no dia me sentia deliciosamente rebelde. Ele encostou em mim e disse me dá um biscoito. Logo pensei, não vou dar é nada! Fodam-se você e seu autoritarismo imbecil! Quem pensa que é pra sobrepujar as crianças mais fracas e tolas com essa exibição de força animal, de domínio primitivo? É um homem das cavernas, um selvagem! Então pode ir ralando peito!
Obviamente que não pensei com esse monte de palavra bonita, era uma criança. Palavras grandes e difíceis só me ocorrem quando terminei meu discurso — aí fico pensando eu poderia ter dito esmurrar em vez de bater! Tresloucado em vez de doido! Mas eu nunca falo nada disso, já disse.
Em vez de falar, fiquei embasbacado fitando o grandalhão. Ele me meteu um safanão e levou o pacote inteiro de biscoitos. E estava em seu direito! Quem eu era, quem sou hoje hoje pra revidar, pra dizer não leve os meus biscoitos?
Olhe, por exemplo, o rapaz mal encarado à minha frente agora. Está dizendo:
Tá de sacanagem, parceiro? Passa o celular!
E meu celular simplesmente não está comigo. Espero que ele note a ausência do volume no bolso direito da minha bermuda. Notará? Muito improvável! As pessoas hoje em dia não reparam em nada, absolutamente nada!
Então penso nas melhores palavras para lhe dizer que não estou com celular. Cavalheiro, não há telefone algum em minha posse neste instante! penso em falar. Soaria perfeito! Esplêndido! Todos ao nosso redor nesta rua, onde está acontecendo este infeliz imprevisto, me ouvirão e dirão esse homem é um prodígio da linguagem! Olha só como se comunica bem!
Mas nunca digo nada, nunca faço nada. Começo a tremer e gaguejar. Só quero dizer: não tenho celular, gesticular pra que ele mantenha a calma. Mas é como lhe contei, repare o quanto perdi por conta da minha inércia. A vida que perdi. E sei que se me safar desta infelicidade, quanta coisa miserável ainda terei que aguentar de mim mesmo.
Então junto a coragem que tenho e que não tenho e minhas pregas vocais se contraem com perfeição.
Foda-se!, grito.
E espero o som.
Com prazer, orgulho. Porque agi, finalmente.
Imagem por Gerd Altmann via Pexels


