Marcos Paulo pensou, vendo a esposa vestir o longo e elegante vestido azul-marinho, que ela estava exagerando. Não havia necessidade: era uma ida à churrascaria. Uma churrascaria de qualidade, bem situada, com preços sob medida para uma classe pouco acima da deles, sim, mas nada que pedisse tanta pompa. Ele tentou alertá-la com seu tom brincalhão e elogioso, o que, obviamente, não funcionou como esperado.
— Uau — ele disse. — Precisa mesmo disso tudo?
Ela o encarou de volta, agora ainda mais segura de si. Havia, nos olhos da mulher, uma dureza que Marcos Paulo desconhecia. Como se ela não só reconhecesse o exagero, mas o cometesse por uma força de vontade teimosa e vingativa.
— Gostou? — ela perguntou. — Sua esposa fica um espetáculo assim, não fica?
Ele fez que sim enquanto ia até ela, segurava-a pelos ombros e a avaliava de cima a baixo, um gesto que pretendia ser engraçado. Depois, disse:
— E não é que fica mesmo?
Riu abertamente, mas ela não o acompanhou: sorriu com discrição (quase uma careta de compadecimento) e foi em direção ao banheiro, o estojo de maquiagem na mão.
Sentaram-se na mesa que o próprio Marcos Paulo reservara mais cedo, naquele mesmo dia. O marido avançara entre as cadeiras em parte convencido e em parte encabulado pela aparência da esposa, como um aluno que não sabe se exibe ou esconde a nota azul quando todas as demais foram um fiasco. Quando chegaram à mesa, seus convidados já estavam lá: Josiane, uma das amigas da esposa (Marcos Paulo, por alguma razão, perguntava-se por que tinha de ser ela), e o namorado, um rapaz elegante e aparentemente lento e bobo — suspeita que não tardariam a confirmar.
— Boa noite — os dois disseram em uníssono.
Marcos Paulo viu a esposa sentar-se sorrindo (um sorriso falso e contorcido), sem responder ao cumprimento. Ele se sentou logo depois, desconcertado com a estranheza da mulher, e disse um “boa noite” acanhado. Quando estava prestes a encerrar o pedido (com os chopes de sempre, de 500 ml, nas grandes e vistosas canecas que ele certamente fotografaria), a esposa o tocou no braço e disse:
— Chope, não. Vinho. — E tomou-lhe o cardápio das mãos, para riso do outro casal, indicando o Cabernet Sauvignon.
Marcos deu a ela o seu sorriso “não-podemos”, ao que ela indicou com mais veemência o que escolhera. Ele transmitiu o pedido ao garçom, desorientado e agora um tanto nervoso. Pediu desculpas ao casal amigo (amigo coisa nenhuma!), justificando como podia:
— Hoje ela acordou com o pé esquerdo, sabe como é…
— Pois hoje eu acordei muito bem, pelo contrário — ela o interrompeu, fazendo-o corar.
Mesmo constrangidos, o Idiota e Josiane riam daquele desentendimento inexplicável. Ela disse:
— Relaxa, amiga… Eu também fico meia atacada às vezes.
— Meio — o Idiota corrigiu. Josiane assentiu, mostrando a língua a ele.
— Perdão — disse a esposa. — Fica o quê?
— Meio atacada, igual a você hoje.
Marcos Paulo vira Josiane cair na armadilha da mulher (repetir o “atacada” não fora prudente) e, naquele momento, soube que a represália viria depressa. O inconveniente é que o garçom, rápido como um raio, já voltara com o Cabernet, e agora o servia com a afetação típica de garçons de bares caros. A esposa ergueu a taça cheia e a manteve na frente do rosto, como um escudo. Enquanto isso, o namorado de Josiane observava Marcos Paulo como perguntando o que devia fazer, e este olhava aturdido para Josiane, que o fitava de volta, parecendo mascarar alguma grande farsa. Por fim a esposa perguntou:
— Como assim atacada? Pode descrever pra mim?
Ah, não, o marido pensou. Aqui, agora, não. O deboche estava nítido na pergunta. A… raiva. Ele suspirou e olhou para o lado direito, como se procurasse alguém para substituí-lo.
— Atacada tipo surtada, ué — Josiane disse. — Parece que você vai voar em alguém.
E voou.
Marcos Paulo e o Idiota assistiram à cena igualmente paralisados e descrentes.
A esposa tomara um longo gole do vinho, retivera-o na boca e, quando Josiane dizia “alguém”, cuspira nela com toda a força. Num primeiro momento, a amiga não teve reação. Algum tempo depois, começou a gritar:
— Que é isso? Você tá louca? Que é isso?
A esposa não a ouvia. Levantou-se e começou a estapeá-la por sobre a mesa, enquanto a chamava de nomes horríveis. Marcos Paulo horrorizou-se com a vulgaridade da mulher; com as palavras, tão sujas e baixas, por Deus…
E então, finalmente voltando a si, levantou-se e segurou-a. Os seguranças já se aproximavam. Agarrada pelo marido, ela passara a gritar: “Tira a mão de mim, seu porco!” mais furiosa do que nunca. E Marcos Paulo horrorizou-se porque agora ela usava as palavras horríveis contra ele.
Mas os seguranças a contiveram e conduziram para fora, enquanto ele atirava na mesa o dinheiro que tinha no bolso (rezando para que bastasse) e depois seguia para a saída, humilhado e perplexo.
Pôs as mãos no volante ainda tremendo. A boca balbuciava, à procura de uma forma pacífica de perguntar o que fora aquilo. A esposa, no carona, os braços cruzados sobre o peito e incubando outra explosão, encarava a rua à frente e não parecia ver coisa nenhuma. Ele tentou tocá-la.
— Sai! — ela berrou.
— Amor…
— Amor é o caralho!
Meu santo Deus, ele pensou, as palavras…
— Você acha que eu não sei, Marcos Paulo?
— Sabe de quê? — ele perguntou, à beira do choro.
Ela se virou para encará-lo. Olhou-o por algum tempo, ensandecida, e finalmente lhe deu um tapa.
Ele levou a mão à face golpeada, vencido, as lágrimas brilhando antes da queda.
— Foi só…
Outro, na mesma face, mais rápido e mais forte. Ela viu as lágrimas do homem rolarem, e era a primeira e última vez que o fazia.
— Chega! — ela gritou. — Chega disso. Me leva pra casa.
Lentamente, ele agarrou outra vez o volante com as mãos que tremiam, as mesmas mãos que já haviam agarrado o que — ou quem — não deviam há algum tempo, e levou-a para a casa, que ela abandonaria na manhã do dia seguinte.
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