Divorciado não namora

homem e mulher em atrito sentados em banco

Sou um divorciado festeiro. Há divorciados (a grande maioria) que se tornam caras amargos, ruins de conversar, você tenta alegrá-los e eles repetindo ela me largou/chifrou/não deu valor e pipipi e popopó. Você os chama pra sair e eles não querem. Chama esses caras pra beber e eles dizem que já não há sentido no álcool. Depois ficam se perguntando por que são tão solitários.

Tenho um chegado, o Clóvis, que é como eu: divorciado festeiro. Fazíamos uma bela dupla. Dois quarentões. Íamos a festas e mais festas e não havia quem nos parasse. Conversávamos por horas com mulheres das mais variadas etnias, religiões, níveis culturais e faixas etárias (respeitando, claro, os limites legais). Malhávamos. Deixávamos o cabelo meio grisalho e meio preto, fazíamos isso em salão, era pra parecer com o William Bonner. Vaidosos, sim. Galantes.

Um dia o Clóvis começou a namorar. Compare a idade dela à nossa e você cai da cadeira de rir. Vinte e alguns. Uma moça bonitona, rígida. Quando você passa dos quarenta já não há muita rigidez no corpo. Por mais que você lute pra conservá-la. A gente vai caindo aos poucos. Pode malhar, não resolve. Uma mulher de vinte e poucos tem a rigidez da juventude, uma rigidez bonita e efêmera, como tudo na juventude.

Amigas e amigos do Clóvis avisavam: Clovinho, essa menina não demora muito te bota chifre.

O Clóvis dizia deixa disso, passarinho que come pedra sabe o cu que tem. Mais de quarenta anos nas costas, você acha que não sei lidar com mulher? Sei quando vejo uma direita e quando vejo uma errada.

Não sei por quê, o Clóvis vivia me falando sobre a namorada dele. Quando mudava de cabelo. Quando perdia uns quilos. Como ela era na cama. Acho que pra causar inveja. Eu não podia ter inveja de um amigo meu. Não tinha. Pois eu também estava bem de mulher. Porém nada fixo, nenhum compromisso sério. Sabe por quanto tempo fui casado? Dezessete anos. Um casamento de dezessete anos acaba e você já não quer mais saber de nada. Está desacreditado de coisas como Relação Monogâmica Duradoura. Ou você cai nas graças de alguma sacanagem ou cai em depressão.

Eu tive que arranjar outro parceiro de copo e de festa. A garota do Clóvis gostava de sair, mas ele e ela, só. Não podia mais ninguém senão ela não aproveitava. Isso de querer monopolizar atenção que destruiu eu e a Verônica. Então comecei a sair com um primo do Clóvis, um rapaz mais novo, mais bonito, mais rígido do que eu. Que bebia demais, infelizmente.

Numa dessas festas ele tomou tantas que não tardou a pôr os bofes pra fora. Até ali nem eu nem ele tínhamos conseguido conversar com garota.

Somos cavalheiros. A gente se aproxima da mulher sem tocar, desenvolve uma conversa sadia. Conversamos sobre qualquer coisa. De espantar que não tivéssemos dado um beijinho sequer. Divorciado quer é isso: um beijinho na boca aqui e ali, uma trepadinha casual.

O Robertinho (esse o nome do primo do Clóvis) começou a vomitar e eu pensava: puta merda, Robertinho, veja bem a furada em que você me põe. Agora fico aqui aparando cabeça pra bêbado vomitar. Afinal tenho que dar apoio. Estou acabado, esta festa pra mim já era, como compenso dezessete anos fracassados se não posso bater nem um papinho com uma desconhecida? Foram dezessete anos, Robertinho, e você está vomitando não só nesse chão, mas na minha possibilidade de ser feliz e esquecer uma tragédia amorosa, sabia?

Penso mas não digo nada. Gosto de guardar pra mim.

Estava de touca. Comecei a usar touca porque vi um rapaz numa novela usando e pensei: e se eu usasse touca? Comprei uma touca, um negócio chique, está em alta. Só porque o sujeito é divorciado não quer dizer que não pode se dar o luxo de seguir modismo. Eu ficava bem de touca.

De repente não estava mais de touca. Me tiraram a touca. Senti a cabeça ficando abruptamente exposta. Desprotegida. Descoberta. O primeiro pensamento de quem perde um boné ou chapéu ou touca é o cabelo. Pensei: meu Deus, meu cabelo deve estar todo esculhambado.

Me virei e vi que uma mulher tinha me afanado a touca. Dei uma risada amarela. Ela disse:

“É minha agora.”

Eu disse: “Por quê?”

“Gostei da touca.”

“Gostou?”

“É. É especial.”

“Especial? Como?”

“Não sei. Especial. Me dá?”

“A touca?”

“A touca.”

“Eu não. Por que daria?”

“Porque eu estou pedindo, ué.”

“E o que eu ganho com isso?”

Ela disse: “Um abraço”, e abriu os braços.

Já disse que sou macaco velho. Sabia de tudo antes que começasse. Andei na direção dela e encurralei-a contra a parede. Recuou com calma, sorrindo, sabia de tudo também. Touca especial uma ova.

Comecei a beijá-la sofregamente, estava louco, embriagado, não a via direito, só queria beijá-la. E ficamos ali nos amassando. Em algum momento ela começou a me empurrar até que minhas costas dessem na parede oposta. E continuamos. Beijamos e beijamos até as bocas ficarem dormentes. Eu já não via nada, havia me tornado uma única coisa: uma boca, grande, ávida e divorciada. Mais nada. Não tinha perna, braço, tronco. Só boca.

Nos apartamos e logo desapareceu. Não sei como mulheres fazem isso. Estão aqui e um segundo depois não estão. Somem como fumaça, uma fumaça cheirosa. Não voltei a vê-la. Fumei uns cigarros, bebi alguma coisa, não me lembro o quê, vodca provavelmente, e depois fui embora. Estava de carro, o Robertinho foi comigo. O pobre coitado só fez vomitar a noite inteira. Não aproveitou foi nada.

No dia seguinte o Clóvis me ligou. Ia dizendo:

“Pegaram a Camila. Ficando com outro cara. Numa festa.”

Está furioso e triste. Todo corno é furioso e triste. Quando não está furioso, então é corno manso.

“Festa?”

“Sim. Ontem.”

Pergunto em qual festa. Ele diz em qual festa.

“Ela estava lá ontem?”, pergunto depois.

“Estava sim. Me mandaram foto dela no bar. Ela disse que estava em casa, a filha da puta. Que ia dormir. Deve ter desligado o celular e saído.”

Eu digo: “Provavelmente”.

Essa é uma boa observação? “Provavelmente”? Sou um bom observador? Porque ela estava lá, onde eu e Robertinho estávamos. Não me lembro de como era a garota que roubou minha touca. Sinceramente não faço ideia. Creio que fosse morena, agora já me vejo beijando uma ruiva.

“Ela continua ruiva, Clóvis?”

“Se ela continua ruiva?”

“É.”

“Não, agora está loira. Por quê?”

Loira. A garota que beijei. Morena, ruiva, loira, o que era?

“Por nada”, digo. “Besteira.”

Conversamos mais um pouco. Me despeço do Clóvis dizendo que sinto muito. Mas lembro-o de quanta gente o tinha avisado. Eu mesmo avisara. Não fui duro ao falar isso, fui gentil. Ele compreendeu. Nossa amizade chegou ao patamar em que nada que eu diga pode ofendê-lo e vice-versa. Mas creio que deveria ter sido duro. Incômodo, mesmo. Às vezes é preciso defender a verdade com veemência, jogá-la nas pessoas como se fosse pedra, em algumas ocasiões só assim as pessoas despertam. Esse pensamento eu também guardei pra mim.

Por que o Clóvis tinha que namorar, no fim das contas? Só é traído quem entra em relacionamento. Ninguém via a garota do cara com bons olhos. Nem mesmo eu. Com que olhos eu a tinha visto, então?

Eu avisei a ele. Sabia que daria errado. Divorciado não namora.

Como se vê uma mulher que rouba touca em festas?

Não sei dizer porque não era ela, não a namorada dele. Se era loira, não era ela. Eu estava bêbado. Não me lembro. Veja bem, ainda estou com os efeitos da ressaca, inclusive.

Não era. Posso jurar que não era.

Foram os cigarros, a vodca. Passo por isso, por pequenas amnésias, quando exagero.

Mas não era ela, com certeza não. Duvido disso. Duvido muito de tudo isso.

Já falei: divorciado não namora. Ponto.

Imagem por Vera Arsic via Pexels

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