Domínio

faca sobre tomates

Você é um merda porque não tem controle. Não tem controle sobre o horário em que acorda, sobre o horário em que dorme, porque não se exercita, não transa, não lê, não estuda. É isso. Se você queria mesmo ouvir, era isso que eu queria falar, ela disse. Eu não vou ficar com um cara que cava todo dia um pouquinho mais e se mete num buraco de poço. Você podia ser igual ao Givoani. Presta atenção em como ele leva a vida… Ei, não é uma comparação. É só ver como ele se trata, como ele trata da saúde dele, do trabalho, como ele se mexe.

Ele poderia acabar com ela ali mesmo, mas 90% de sua mente concordavam com as palavras da esposa, e os outros 10 se perguntavam por que ele ainda tentava achar falhas nos argumentos dela. Flávia era perfeita e irrefutável. Podia ser o próprio Deus, se você considerasse o que ela pensava de si mesma. E agora o Giovani se tornara o todo poderoso gostosão. O gostosão que ele, marido e marionete emocional, não era.

O pior em acabar com ela ali mesmo é que essa hipótese não passava de uma vingança absurda que ele jamais concretizaria. Como planos de criança de matar o irmão caçula. Como o plano de maus alunos de mijar dentro do carro do professor que os reprovou. Eles não faziam nada daquilo.

Ele não faria nada daquilo.

Porque era (isso ainda doía, então você precisava ir com calma) um frouxo.

Mesmo assim, não esperava tanta sinceridade da esposa. Ele começara a dar aulas sem prepará-las antes, deixara surgir uma saliência vergonhosa no abdômen e sentia-se impotente — não só moralmente, para completar a apoteose de todas as vergonhas. Ele não fazia mais nada direito, muito obrigado.

Você não trabalha direito, pensou.

Não malha mais.

Não trepa mais.

Se começasse a enumerar, chegaria à conclusão de que, se fosse a própria esposa, teria se trocado por outro há talvez muito mais tempo do que Flávia o aguentava.

E, ah, o Giovani. O vizinho-gostosão-tudo-de-bom-que-fazia-coisas-que-ele-não-fazia. Flávia era fiel, mas não era hipócrita. Ele estava perdendo de lavada para o Senhor Modelo de Masculinidade.

O único jeito de sair de um poço tão profundo de merda era exterminar cada mau hábito e começar a substituí-los pelos bons. Ele sabia; assistira a uma porrada de vídeos no YouTube sobre mudança de vida e desenvolvimento pessoal.

Ele não procurou nada com Flávia naquela noite, ainda remoendo as palavras inclementes da mulher. Fez o que fazia de melhor: virou-se para o outro lado, puxou o cobertor para si e rezou para dormir antes que ela bufasse pela primeira vez.

Preguiçoso.

Broxa.

Descartável.

Poxa, descartável era barra pesada. Ele brigou com o próprio cérebro por se referir a ele daquela maneira. Algum tempo depois, conseguiu dormir.

Acordou às 6h. Pulando da cama.

Trocou-se e comeu um café da manhã pequeno. Foi à academia. Treinou até sentir-se próximo do desmaio. Ele podia mesmo desmaiar se a pressão baixasse demais, mas pressão baixa no treino era coisa de homem frouxo.

Improdutivo.

Desleixado.

Agora ele mostraria o que era controle. Domínio, isso aí. Homem com H maiúsculo, se ele se rendesse ao clichê. Quem era o rei naquela porra de castelo?

Isso, ele mesmo. Pode repetir, pessoal?

Ele mesmo.

Voltou para casa aos frangalhos, mas feliz. Preparou o tipo de refeição que aqueles grandalhões viciados em hipertrofia preparam. Comeu como um dos grandalhões viciados em hipertrofia comeriam.

Lavou o carro.

Levou o lixo para fora.

Preparou a aula da segunda.

Quando Flávia abriu os olhos e viu-o ao lado dela na cama, ele já fizera tudo isso. Ele decidira descansar um pouquinho assistindo a algo na TV. Foi a TV quem despertou Flávia.

Oh, sim, ele trepou com ela naquela manhã do mesmo jeito que procrastinava: com toda a tenacidade e dedicação inconsciente possível.

Ela não o reconheceu.

Almoçaram com sorrisos no rosto. Ele contou à esposa o que fizera até aquela hora — e ela estava estupefata, meio sem crer que aquele homem era o mesmo que há três dias não quisera fazer o plano de aula porque, de repente, o Programa do Faustão ficara interessante demais.

Ele leu Crime e Castigo antes da sesta.

Ele trepou com ela antes da sesta. De novo.

Aquilo sim era domínio. Ele controlava a própria vida. Quem era o rei naquele castelo, hã? Diz pra mim.

Você, ela respondeu, sob o peso do corpo dele. Ele adorou aquilo.

Mas ainda faltava uma coisa.

Bem, talvez nesse ponto ele tivesse exagerado.

Talvez esperar até que Giovani voltasse do trabalho, à noite, e invadir sua casa pela porta dos fundos (que ele estupidamente deixara aberta) tivesse passado um pouco dos limites.

Ou talvez apropriar-se de uma faca Tramontina do tamanho de um caderno escolar que o Giovani esquecera sobre a pia da cozinha tivesse sido um bocado de exagero.

Ou esperar que o Giovani abrisse a porta do banheiro após a ducha noturna, despreocupado e musculoso, e rasgar a carótida dele bem ali, fazendo-o esguichar feito um porco… bem, talvez ali ele tivesse passado do ponto.

Caramba, ele se sujara todo.

Mas talvez preocupar-se com o sangue nas roupas, com o sangue sobre sua pele, fosse uma daquelas preocupações de homem inútil. Frouxo.

Palerma.

Broxa.

Era por isso que ele tinha de penetrar a faca nos olhos de Giovani e deliciar-se com a mistura de fluido vítreo e sangue escorrendo por aquela face tão bonitinha, tão elogiadinha.

Porque aquilo era controle.

Porque ele vencera a primeira batalha, e agora havia um novo castelo. Agora, pensou, ele reinava por dois.

Jesus Cristo, ele disse, rindo infantilmente e saindo de cima da massa vermelha que era o corpo de Giovani. A Flávia ia adorar ver isso!

E por Deus, como ele riu daquilo.

Imagem por: Quintin Gellar via Pexels

Leia também

Junte-se à gente.

Receba trechos de grandes livros e áudios semanais sobre leitura e literatura no seu telefone, via Telegram.
Carteiro

Uma newsletter literária.

Um e-mail por mês para deixar você a par de tudo.
Este site é protegido pelo Google reCAPTCHA; aplicam-se a Política de privacidade e os Termos de serviço do Google. Ao prosseguir, você também concorda com os Termos de uso e Política de privacidade do site.