Até que se tenha feito, não se sabe exatamente por que se fez. Toda justificativa é uma mentira útil ou, se muito, uma verdade confortável que o sujeito usa para se livrar das consequências de alguma burrice. É nisso que ele está pensando quando…
— Foi exatamente o que você fez! — ela diz.
— Não foi, e você sabe disso — diz o homem. — Você está sendo injusta.
— Injusta?
— Injusta!
— Mário, isso foi traição!
— Nós não tínhamos nada sério… Não temos. Traição é uma palavra pesada.
— “Pesada”? Sabe o que você é? Um idiota!
Ela o empurra com as duas mãos e se afasta. Há alguma forma de consertar esta situação?, ele pensa. Com certeza há, mas em que solução a cabeça de um homem estressado é capaz de pensar? É tudo ruído. Se estivesse em casa, certamente poderia pensar em algo, mas está no meio da rua e acaba de ser empurrado. Olha para o lado, para os três amigos que o acompanharam até aquela festa. Estão rindo dele e do ridículo de sua situação — aliás, ridículo uma ova! Não se pode chamar nada do que aconteceu ali de ridículo, exceto, talvez, o seu próprio comportamento.
— Me desculpa! — ele grita para a figura dela, que se afasta progressivamente.
Ela ergue o braço, sem se virar, e gesticula como se dissesse: “vá se foder”.
Então a compreensão de que o que ele fez está feito, de que nada pode fazê-lo voltar, desaba sobre o homem como um corpo que despenca de um prédio. Ele ergue o copo por instinto e o leva à boca, mas não sente gosto algum. Se fosse gasolina, não faria diferença. E, aliás, o que a bebida pode fazer por ele? A mulher, agora a metros de distância, parece, no momento, estar em um outro continente. Ele sente que, agora em definitivo, não pode mais alcançá-la. E está certo.
Leva o copo à boca outra vez. As pernas dela… bonitas, não eram? E como iam longe…
Ele acende um cigarro e o traga profundamente, como se a fumaça, assim como a bebida, duas coisas que lhe tiram mais do que lhe acrescentam, pudessem impedir a sua queda, uma queda interna, infinita e implacável.
As pernas dela, como iam longe…
Imagem por rebcenter moscow via Pexels



