Festa de formatura

noite em boate

Na sua festa de formatura, o Igor, sentado ao lado de seus melhores amigos, olhava envergonhado para a Roberta e tornava a olhar para a sua caneca de cerveja. Ele a ouvia conversar com as amigas e os seus próprios amigos, e não tinha vontade alguma de participar dessa conversa. Reconhecia a beleza da garota, o seu porte distinto, mas isso não o fazia deixar de pensar nela como sendo esnobe, fútil. A Roberta não entendia a maioria dos trocadilhos que surgiam durante a conversa, e manifestava a sua confusão com uma interjeição tão abobalhada (“Hã?”, repetida uma vez após a outra) que fazia o Igor bufar, indignado, para si mesmo. Não tem porcaria nenhuma na cabeça, ele pensava, a cada “hã?” que a Roberta dizia. E quando os outros zombavam dela pela desatenção, ela lhes respondia com comentários maldosos disfarçados por um sarcasmo cheio de arrogância — o que, apesar de tudo, fazia com que todos rissem ainda mais, transformando-a no centro das atenções.

Em algum momento, o Igor se envolveu numa conversa da qual mais tarde nem se lembraria. Tentava dar atenção ao seu interlocutor, um dos seus melhores amigos, mas não podia evitar olhar para a Roberta e constatar, meio encabulado e meio orgulhoso, que ela o olhava fixamente de volta.

Ah, meu Deus, pensava. Sentia-se desconcertado porque era exatamente a garota com quem mais antipatizava entre as da sua turma, e ainda mais porque era a mais bonita delas.

Mais tarde, esse seu melhor amigo, que passara algum tempo conversando com a Roberta, lhe disse:

“Tá de olho em você.”

O Igor corou imediatamente. Sabia que, se ela tinha dito isso ao seu amigo, é porque sabia que ele lhe contaria depois. E, se sabia disso, ficaria esperando alguma atitude do Igor. Se ele não tomasse nenhuma, portanto, seria ridicularizado para sempre.

Quando o DJ começou a tocar, tirou-a para dançar. Trocaram algumas poucas palavras e, sem nenhuma resistência dela, beijou-a.

Mais tarde, nem acreditaria em quão simples havia sido. Antes de beijá-la, ele travou um contato visual longo e firme, tentando imaginar o que se passava na cabeça dela. Estava tenso, pensando que ela talvez fosse rejeitá-lo por alguma razão que ele não era capaz de perceber. O Igor sempre se valorizara menos do que os outros o valorizavam, o que o fazia ver-se menos habilidoso, bonito e capaz do que realmente era. Sabia disso, que o Igor que acreditava ser estava muito aquém do Igor real, e era essa consciência da sua falta de amor-próprio que o fazia antipatizar com garotas como a Roberta. Ele não as odiava, mas temia, porque o medo de agir como elas queriam que ele agisse é que as afastava. A raiva era contra si mesmo, contra aquela falta de fé que o mantinha naquele mesmo velho patamar — um rapaz com a vida ganha e cheio de dons que se comportava como um miserável.

Que se dane essa merda, pensou, enquanto dançava com ela. Então, determinado, quando uma das músicas chegou ao refrão, foi aproximando o seu rosto do da Roberta, e ela fez o mesmo em direção a ele. Quando finalmente estavam se beijando, ele não conseguia parar de pensar em quanto tempo passara preso na armadilha da sua própria cabeça.

Em seguida, tirou-a da pista de dança para conversarem melhor, e isso mudou para sempre a sua opinião sobre ela: descobriu a sua idade, o que fazia além de ir à faculdade, e, além disso, que o sarcasmo dela não era calculado e maldoso, mas ingênuo como o de uma criança. A sua desatenção também não era sinal de superficialidade ou burrice, mas apenas de que não queria mesmo estar atenta àquela conversa da mesa. A prova disso era que, agora, conversando com ele, ouvia-o com todo cuidado e simpatia.

Ocupou quase uma hora, que mal viu passar, conversando com ela a respeito dos assuntos mais diversos. Ela lhe perguntou o que ele pretendia fazer para ganhar a vida, o que os levou a um longo papo sobre objetivos e valores — coisa que, de tão inesperada, lhe parecia até ridícula.

Ao fim da noite, depois que encerrara a conversa e passara mais meia hora beijando a Roberta sem parar, começou a pensar em quantas pessoas não deixara de apreciar por conceitos que criara sem nenhum motivo. Estava tão preocupado em encaixar todas elas num estereótipo (“aquele é o bombado idiota”, “essa é a gostosa burra”, “esse outro é o nerd tímido”) que se esquecera que era exatamente uma simplificação como essa a coisa mais idiota a se fazer. Se podia mudar de opinião tão depressa sobre uma garota de quem não gostava, quanta coisa não teria perdido a vida toda pela sua cabeça dura…

Trocaram telefones e, quando estava prestes a sair, beijou-a mais uma vez. Disse:

“A gente tem que marcar de sair mais vezes.”

“Com certeza”, ela respondeu, puxando-o para mais um beijo.

E o Igor sorriu enquanto a beijava, certo de ter aprendido mais com ela, com a Roberta, do que com qualquer imbecil metido a inteligente.

Imagem por Maurício Mascaro via Pexels

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