Matador

homem segurando duas pistolas em bosque

Faz tempo que eu mato gente.

Entrei no negócio novinho, substituindo meu tio. Foi o seguinte: meu tio foi contratado pra empacotar um bacana. Chegando lá, não me pergunte como nem por que, o bacana sabia. Esperou pelo meu tio com uma Beretta na cintura. Quando ele chegou, o bacana meteu-lhe dois tiros no peito, levou-o pra praia, furou o cadáver umas vezes mais e jogou-o no mar.

Sabe como eu sei?

Matei o cara que matou meu tio. Obriguei-o a confessar antes de estourar sua cabeça com uma carabina. O filho da puta teve de me contar detalhe por detalhe. No final, valeu a pena, mas isso já faz pra lá de vinte anos.

Estou ficando velho, meu peso está subindo e, há algum tempo, as cãibras me pegaram de jeito.

No ano passado, tive que matar um surdo. Matei-o dentro de casa, num final de semana, primeiro me certifiquei de que não havia ninguém lá. A missão me pareceu tão estupidamente fácil que esqueci o diabo do silenciador. Isto é, improvisei: cravei-lhe a faca nas tripas e fiquei esperando o maldito sangrar.

Sinceramente, abomino a tal da faca. É preciso ter força e estômago, sentir-se afundando uma lâmina no outro, invadindo-o. É sujo, antiprofissional e você precisa ter um puta ódio do cara pra fazer isso com ele. Pistolas poupam a gente desse constrangimento, consegue me entender? Você dispara, um cérebro voa — ou um peito afunda —, mas não foi você quem teve de enfiar a bala lá com a própria mão.

Enfim.

No dia em que afundei a lâmina na barriga do surdo, o danado gemeu, gemeu como uma puta ruim. Dei a volta no cara e tapei sua boca por trás, enquanto o apunhalava mais, mais.

Servicinho cansativo, barulhento e tremendamente impreciso. Não que ele tenha sobrevivido, já disse que morreu. O fato é que não foi um dos trabalhos de que possa me orgulhar, porque quase fui pego.

Um vizinho ouviu os gemidos/urros do surdo, embora eu tenha fechado todas as janelas (e cortinas). Eu corri, corri feito medalhista olímpico, mas fui acometido por uma cãibra, o vizinho na minha cola. Continuei a carreira mancando mesmo, o saci dos matadores de aluguel, me enfiei nos becos que eu conhecia. No fim das contas ninguém conseguiria me pegar, de qualquer forma.

Mas foi arriscado.

E antiprofissional.

No dia seguinte, consultei uma nutricionista.

“O senhor sofre com carência de potássio”, ela disse depois que lhe entreguei os exames.

Eu perguntei: “Vou ter que tomar algum remédio?”

A mulher falou que não, que preferiria que eu repusesse com comida, alimentos de verdade, não essas merdas de cápsulas. Gostei dela porque disse assim mesmo: essas merdas de cápsulas. Eu não conseguiria matar uma mulher que xinga.

“E o que a doutora me recomenda?”

“Abacate.”

A título de curiosidade, não há nada que um assassino de aluguel queria mais que doses regulares de potássio: estabilização da pressão arterial, prevenção de doenças cardiovasculares e dores musculares. Ainda a título de curiosidade, um abacate médio contém mais do que o dobro de potássio do que você acharia numa banana.

Então comprei todo abacate que dava e comecei a comer.

Abacate não dura muito, você pisca e ele está preto. Ou você come inteiro de uma vez, ou não pode demorar a comer as partes.

Talvez pela necessidade de consumo rápido, acabei ficando viciado no negócio.

Como abacates todos os dias.

Antes de matar também.

Minhas pernas estão mais jovens do que nunca, eu pareço um molequinho. Comprei uma esteira com o dinheiro do meu negócio, esse negócio se dá uma coisa é dinheiro. Fica no meu quarto. Todo dia corro por vinte minutos. Depois como um abacate.

Um dia o Pereira me procurou porque queria matar a sogra.

Eu falei: porra, Pereira, achei que sua sogra fosse gente boa.

Pereira disse que eu devia ter é sonhado com ele falando isso, porque, se dependesse dele, até Satanás era menos pior que a velha.

Aliás, você conhece o Pereira? Não? Então tá perdendo, o cara é gente fina pra burro.

Como eu devia uma a ele, disse: deixe isso aí comigo, por essa não vou te cobrar nada.

Não gosto de sogras. Uma vez tive uma e ela convenceu minha namorada a me largar pra ficar com um mauricinho. Depois matei o mauricinho, mas deixei a sogra respirando por aí.

Você vai pensar: deu mole.

E eu vou dizer: pra cacete.


Como sempre uma fatia de abacate antes de passar os alvos. Carrego na minha necessaire, sou um cara moderno, afinal. Levo num pote pequeno umas tiras cobertas de açúcar. Junto com o pote, eu levo a Glock.

Há quem use amuletos, preces, artifícios diversos. Eu prefiro tirar uma fatiazinha modesta de um abacate e saborear antes de mandar os alvos pro inferno.

No dia em que ia matar a sogra do Pereira, acordei mais cedo e fui à feira.

“Vou querer 3 abacates”, disse.

O cara do balcão: “não vou ter não, o abacate acabou.”

“Como assim acabou?”

“Acabou, acabando, uai.”

Eu perguntei em que outro lugar podia encontrar.

“Em lugar nenhum”, falou. “Tá saindo de época.”

Fiquei furioso, gritei: “Como saindo de época? Abacate dá o ano inteiro!”

“O senhor que pensa.”

Rodei todas as feiras da cidade, nenhuma tinha abacate. Se eu conhecesse pelo menos alguém que tivesse alguma propriedade, uma roça grande, com plantações a perder de vista, talvez eu conseguisse alguns até de graça, mas sabe como é, vida de matador é um negócio solitário, melancólico. Exceto quando eu pago alguma prostituta, mas você não vai querer ouvir essas histórias.

Quando cheguei em casa pensei: estou fodido. Fodidinho da silva, sem abacate estou no sal.

E estava mesmo.


Fui atrás da sogra do Pereira assim mesmo. Ele me disse que a coroa era rica e sozinha; o filho da puta quando é rico e sozinho é filho da puta em dobro. A velha mora numa chácara, o Pereira disse, pra você ter uma ideia.

Tive sorte, encontrei um carro entrando na propriedade, o portão se abria bem na hora. Corri, colei junto da janela e esperei o motorista baixar o vidro. Vai saber, em carro insufilmado não dá pra atirar sem saber se é o alvo que tá dentro.

Uma mulher baixou o vidro. Não era a sogra do Pereira, era uma coroa da pele lisa, devia se entupir de Avon pra ter aquela cara de gostosa. Dei uma espiada rápida nas pernas. Sempre uso óculos escuros, ela não podia ver meus olhos.

A coroa abriu um sorriso pra mim.

“Boa tarde, quem é você?”

“Boa tarde, sou o Gérson, amigo do Pereira e da mulher dele. Vim visitar a d. Vera, a senhora sabe se ela está?”

Ela disse com aquele sorrisão: “Por favor, senhora não. E d. Vera sou eu, bobo.”

Meu queixo caiu no sentido literal. “Por favor entre”, ela disse, “levo você até lá dentro.”

Entrei.

Senti aquele cheiro forte de perfume importado, doce mas não muito, perfume de velha rica, sofisticado. Eu podia cheirar aquele troço o dia inteiro, cheirar a sogra do Pereira.

Pensei: mas que cacete, eu não posso matar essa mulher.

Se fosse feia, decrépita, rabugenta, eu matava. Mas ela não é uma velha, é uma coroa.

Conversamos durante muito tempo naquela tarde. Eu pensava na minha necessaire — as tiras açucaradas de abacate, a Glock reluzindo —, mas não conseguia parar de conversar futilidades com a mulher. Não sei nem como começamos a conversar, quem leva um desconhecido pra casa e começa a bater papo?

Talvez ela só fosse simpática.

Então eu me lembrei de que ela era rica e sozinha, o marido tinha morrido, morava na porra de uma chácara. Aquele monte de terra, quarto, coisa, pra uma pessoa só. Devia rezar pra aparecer um sujeito por lá.

E eu às vezes me esqueço disso: sou bonito. Ascendência caucasiana, meu maxilar é forte, olho azul. Faço a barba todos os dias, me cuido. Tô na casa dos cinquenta, meio grisalho, muita prostituta já me disse que eu podia virar modelo de terceira idade.

Voltei pra casa e liguei pro Pereira:

“Ô Pereira, você não me disse que sua sogra era uma baita duma gostosa.”

O Pereira riu e falou: “Que seja a gostosa que for, continua sendo o capeta.” Depois, meio sombrio: “Você me prometeu, meu velho.”

Eu disse que era verdade e que ia fazer o negócio. No fundo eu não queria.

Dia seguinte, fui à casa de d. Vera de novo. Ela me dera o número do telefone, então avisei antes de aparecer.

“Venha sim, Gérson, estou te esperando.”

Por precaução, levei a Glock.

Conversamos a tarde inteira mais uma vez. Ela me olhava de um jeito meio sacana. Fui pra casa e toquei uma pensando na coroa antes de dormir.

E voltei lá no dia seguinte.

Tomamos café, jogamos conversa fora. Em algum momento o assunto descambou pra sacanagem. Ela estava carente, eu também não dou sorte com mulher. Depois ela veio pra cima de mim, aquele corpão de coroa que malha, e eu podia fazer o quê? Deixei. Nós trepamos ali mesmo, na mesa da copa, uma copa imensa, do tamanho do meu cafofo.

Voltei pra casa.

Não consegui dormir direito.

Uma de minhas regras sempre foi: não se envolva com os alvos. Sequer troque olhares com eles. Eu não mato gente de que gosto e nem gosto da gente que mato. Então fiquei pensando em como podia matar a velha se estava trepando com ela.

Fui lá no dia seguinte determinado. Silenciador previamente acoplado, pistola polida, tudo nos trinques. Mas a coroa começou a rebolar na minha frente, juro que não me aguentei.

Foram duas semanas assim, à base de mato-não-mato e trepada de gente velha. Até que eu me rendi, falei com o Pereira que ia engatar um negócio com a sogra dele, um namoro ou coisa que o valha.

O Pereira ficou putíssimo, mas com algum tempo a fúria dele amainou. Como tinha alguém pra trepar todo dia, d. Vera parou de atazanar o Pereira e a filha. Era nossa promessa de felizes-pra-sempre.

Um dia ela me disse: Gérson (ela ainda me chamava de Gérson), vamos dar um passeio.

Percorremos uma trilha pela chácara, fomos parar na clareira no centro do pomar. O lugar era rodeado de macieira, jabuticabeira, mamoeiro, goiabeira. E abacateiro a perder de vista, como eu sonhava. No centro da clareira tinha uma mesa de concreto, toalha em cima, banquinhos também de concreto ao redor. D. Vera me confidenciou que sua fantasia era fazer safadeza ali.

Trepamos em cima da mesinha, depois nos deitamos ali e ficamos encarando as árvores do entorno.

Era abacate até dizer chega.

Ela viu que eu fiquei deslumbrado com aquilo, falou: “Você gosta de abacate?”

Eu disse: “Se gosto?, eu amo. Salvou minha vida.”

“Mas que pena”, disse d. Vera, “estou prestes a mandar cortar tudo. Cortei do meu cardápio porque abacate engorda, tem gordura demais. Não vendo pra feira nem dou pra ninguém porque — vê se você concorda —, se eu não quero engordar, não quero que os outros engordem também.”

Olhei pra ela. D. Vera continuou.

“Você ligaria de não comer abacate? Estou querendo que você vá malhar comigo, ficaria ainda mais gostoso com um peitoral maior, sabia?”

Ela disse isso e brincou com os pelos do meu peito. Eu dei uma risada xoxa.

Quando voltamos pra casa, fui direto à copa, ela logo atrás de mim.

Tirei a Glock da necessaire, o silenciador acoplado, eu ainda levava a arma pra lá todo santo dia e ela nunca, nunca mexia na bolsa.

Dei um tiro no meio da testa da coroa e saí daquele lugar.

Antes passei na plantação e catei um saco inteiro de abacates.

Onde já se viu, uma infinidade de abacate daquelas e mandar cortar. Eu não conseguiria viver com uma mulher assim.

No dia seguinte o Pereira me mandou uma mensagem. Abri pra ler.

Dizia: “Gostei de ver. Muito obrigado.”

Mulher nenhuma vai me privar do meu potássio.

Imagem por Pixabay via Pexels

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