O marido e a prima

casal em desavença

Júlia gostou da ideia de abrigar a prima. Não se viam há muito, muito tempo, e nesse reencontro (que não duraria uma só conversinha, mas cinco dias inteiros), teriam a oportunidade de se atualizar uma em relação à outra. Em que a Vanessa estava trabalhando, que tipo de cara estava paquerando… Ainda se usava dizer paquerando? Júlia não sabia. Estava casada há anos, e, quando o namoro começara, “paquera” ainda era um termo em alta.

Mas a prima de Júlia chegou, e Júlia a abraçou no portão de casa já sem tanto entusiasmo. Vanessa estava magra, com uma razoável musculatura visível abaixo da pele bem-cuidada. Enquanto Júlia a abraçava, pensava no perfume da prima: um perfume sofisticado, equilibrado, muito longe da coisa grosseiramente doce que ela mesma usava. E as roupas, também… Jesus, a mulher saíra de um desfile. Ainda assim, até então a sensação de ter ficado aquém da outra estava em níveis administráveis. Mas quando o marido abraçou a Vanessa (e aqueles braços pareceram ficar nas costas dela por tanto tempo!), piorou — demais.

O modo como ele conversava com a Vanessa, também (“Nossa, você está malhando?”, “Estou sim”, “Então precisa me passar esse treino”), cheio de piadinhas sutis e idiotas, ia lhe dar nos nervos até que ela fosse embora. Júlia antecipou as discussões que ela e o marido teriam na cama, antes de dormir virados de costas um para o outro como dois adversários, sobre aquele tipo de conversa “despretensiosa”. Os esporros que ela teria que dar no homem por uma ou outra espiadinha casual, involuntária, “mas sem maldade, meu bem”. E quando ela tivesse que sair de casa e deixar os dois ali? Impossível. Agora teria que carregar o marido como quem carrega um cantil secretamente cheio no deserto.

Quando o marido soltou a Vanessa, Júlia percebeu que não estava em condições de se reencontrar com algumas pessoas. Com as que estivessem na mesma situação que ela (talvez até um pouquinho pior), ela poderia lidar. Mas com gente como a Vanessa, que some e melhora e depois retorna para exibir (!) o quanto melhorou, ah, não valia a pena.

A Vanessa olhou para ela e perguntou:

— Tudo bem, prima?

E Júlia, despertando daqueles pensamentos e tentando desfazer a careta que surgira no rosto, disse:

— Claro. Vamos entrando. Não precisa tirar o sapato.

Imagem por Vera Arsic via Pexels

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