O menino bege

Meninos pobres

O pai de Vinícius levanta-se de súbito enquanto a mãe e o próprio Vinícius continuam sentados à mesa. Erguido, o homem lhes parece imenso, capaz talvez de tocar o teto com o cocuruto. Embora a voz não acompanhe a robustez da sua estatura, Antônio é terminativo:

— Você não vai ter acesso ao nosso carro pelo resto do mês, Vinícius! Ponto!

O rapaz, inconformado, fita a mãe, que, embora repudie as erupções do marido, não lhe tira a razão. À meia voz, diz ao filho:

— Ele está certo.

O Vinícius, as mãos na mesa, empurra-se para longe dela ainda sentado:

— Que saco!

E o pai, em direção a ele, ergue o dedo:

— Olha o respeito! Tenha modos!

O rapaz se levanta num ímpeto e deixa a copa. O pai e a mãe gritam seu nome, e em volume cada vez mais alto na proporção em que o veem se afastar. Quando o percebem em plena rua, no entanto, calam. O Vinícius vai a passos firmes e enfezados. “Ele volta”, diz o pai, e a mãe, o rosto contorcido entre a certeza da justiça e a pena maternal, sente-se triste.

Não só a proibição o tirava de casa. Também a fala afetada do pai, que mais lhe parece saída de uma novela, e a condescendência quase vegetal da mãe. “Ele está certo, ele está certo…” Mas que inferno!

O quanto lhes custa confiar o carro a ele? Nada! E o impediam de dirigir por causa de notas! As notas, outra vez a ninharia das notas! “Se a faculdade não estiver bem, não sai” — uma imposição estúpida, terrível, ditatorial. E o que as notas tinham que ver com o seu desempenho como motorista? Por acaso o 5,8 em Filosofia do Direito o fazia errar as marchas? A aprovação estreita em Teoria Geral do Estado o fazia propenso a encher a cara e dirigir? Evidentemente, os mandamentos do pai eram uma bobagem.

Pior: estava, com a proibição, impedido de ver a Estela. Sua namorada, Estela. E o que diria à moça: que os pais o impediam de pegar o carro porque não ia bem das pernas num semestre específico? O pai e a mãe certamente não tinham consciência da seriedade do seu compromisso com Estela. E um compromisso que se abala por notas é, por força, fracassado e ridículo.

O João, colega de classe e, podia-se dizer, grande amigo, recebera do pai, com a aprovação no vestibular, um carro. Quão feliz a namorada do João não ficava? O pai do João logicamente, o compreendia e estimulava. E por acaso havia pensado em lhe tomar o carro quando o filho bombara no primeiro semestre? Não e não! E por que não ter um pai como o do João? Um pai que compreende e uma mãe que é além de uma mosca morta?

Lembrava-se perfeitamente da conversa:

— E aí, deu problema lá, com as notas? — perguntara ao amigo.

— Que nada! O meu pai, Vini, não liga. Me disse: uma materiazinha não mata, não arranca pedaço!

O Vinícius ficara fascinado, e, agora, comparando o pai do João ao seu, e a família, e a casa, e a vida do João à sua, lembra-se daquele fascínio e amarra ainda mais a cara ao andar. Ainda que não dê conta disso, está andando mais rápido do que qualquer pedestre em qualquer estado emocional. A irritação lhe dá uma agilidade sem limites.

Em frente à padaria a que costuma ir com a Estela, porém, é obrigado a desacelerar: um menino, que parece surgir do invisível, o aborda.

— Moço!

— Que foi? — diz sem olhar para o outro.

Quando olha, conclui: o menino é bege. A frase se forma imediatamente no seu painel mental. E bege porque está apagado, roto, um tanto sujo, e as canelas têm mesmo o bege da poeira. O cabelo, castanho, mas igualmente empoeirado e sujo: bege. Bege, bege, bege. Quantos anos terão o menino e a sua cor? Doze, treze?

— O senhor quer um chaveiro? Eu tô vendendo chaveiro pra poder ajudar em casa, o senhor pode pagar o que quiser, não tem preço, é o que o senhor achar que vale… — E mostra-lhe os objetos pequeninos e, para surpresa, limpos.

O menino não olha para o Vinícius. Olha para algo ou alguém ao seu lado, mas não o encara. Está visivelmente envergonhado. A sua vergonha o ilumina e desmascara, entretanto: não tem doze nem treze anos, mas sete ou oito. Terá menos? Se tem, há quanto tempo o bege se incrustou na sua pele e na sua alma?

O Vinícius interrompe, então, a maldição contra o pai. A inveja do João (o que era senão inveja?) também foge ao seu pensamento. Os olhos e a cabeça só se ocupam do menino e dos seus chaveiros.

— Toma aqui. — Estende-lhe os dez reais que encontra, por sorte, no bolso. — Pode ficar com os chaveiros, não precisa.

— Deus lhe abençoe — disse o menino, outra vez olhando não para o Vinícius, mas para um ponto indistinto à sua direita. Deu meia volta às pressas e tornou a rodar, aéreo como aparecera, à procura de outra boa alma.

Uns dez passos à frente, o Vinícius estaca. E se o alimentasse? Afora os dez reais (um acaso feliz), trazia o cartão de crédito (uma eterna precaução). Entraria na padaria com o garotinho, daria a ele que comer, um refrigerante e um doce… E quão bem o menininho bege não se sentiria!

Mas sumira. O Vinícius, olhando em torno, já não o encontra. Volta em direção à padaria, espia pelos becos que a cercam, e não o vê. Voltou, talvez, para o mesmo invisível de que saiu.

O Vinícius segue cabisbaixo para casa, andando com a lentidão de quem subitamente compreende. Uma casa, quartos, camas, a mãe e o pai, e o carro, e o cão… Quando cruzou a porta da frente, cujo batente ele tanto riscara com as chaves quando criança, tinha os olhos vermelhos, esfregados. E sorria timidamente na sua vergonha.

Imagem por Roman Odintsov via Pexels

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