Como sempre, ela começou a circular, carteira por carteira, corrigindo com atenção e critério a tarefa de casa de cada um dos pequenos. Quando deparava com um erro, por mínimo que fosse, ela o indicava ao aluno e, gentilmente, lhe explicava por que havia errado; depois, fazia-o reescrever a palavra ou refazer a conta, agora do jeito certo. Sabia — e as convicções de uma professora iniciante são sempre muito fortes, como as de qualquer iniciante — que essa fase inicial da educação era, de todas, a mais importante. Por isso atentava para cada detalhe: para oferecer às crianças o máximo que podia, e era essa dedicação estoica que a fazia alvo das mesquinharias e fofocas das outras professoras, então mais velhas e despreparadas do que ela.
Assim, Fabiana, a “educadora” (como gostava de se referir a si mesma), chegou à mesa do Eduardo, que raramente fazia as lições. Quando as fazia, cometia erros grosseiros e inacreditáveis. Aproximou-se do menino com o coração cheio de pena, porque já não esperava muita coisa dele. De qualquer forma, não se zangaria.
— Ei, Dudu! E o dever de casa, você fez?
O Eduardo negou com a cabeça para, segundos depois, lembrar-se que respondera uma ou outra questão ao acaso. Indicou para Fabiana alguns pontos na folha do caderno:
— Só aqui e aqui, ó.
Fabiana tomou o caderno e leu, ainda mais atentamente, as respostas do Eduardo. Não podia esperar coisa pior. Não bastasse a letra, quase incompreensível, como se ele escrevesse com raiva, o teor das respostas era tão desconexo e — doía para ela admitir — atrasado que a entristecia.
— Poxa, Dudu… — ela deixou escapar, enquanto ia revisitando, questão por questão e falando bem devagar, o que tanto havia explicado em aulas anteriores. Mas, quanto mais falava e corrigia, mais o Eduardo parecia assustado e confuso, como se ela lhe confessasse um crime do qual ele não queria saber.
Quando se deu conta de que ele já não conseguia absorver uma palavra do que ela dizia, Fabiana calou-se e se limitou a olhar para dentro dos olhos muito escuros do Eduardo, esperando ler neles a explicação para tudo aquilo. Depois de algum tempo, ele abriu a boca e só a fechou quando não se lembrava de mais nada que pudesse dizer:
— Tia, eu até tento fazer umazinha ou outra de vez em quando, mas é tão difícil que a cabeça embaralha toda, aí o pai também manda a gente pra lavoura a tarde inteira, eu e o Wesley meu irmão, e a gente fica lá ajudando ele no sol quente até acabar tudo que tem pra fazer. A senhora devia ver, a gente chega em casa todo moído, cansado igual à peste, depois eu ainda tenho que pegar caderno pra fazer dever de casa, e aí é aquilo… Eu não entendo muito bem essas últimas coisas que a senhora passou, e lá em casa também ninguém ajuda, eu pego e vou respondendo o que eu acho que é certo, mas quem garante? Se o pai não botasse a gente na roça tanto tempo quem sabe eu tinha um tempinho pra pensar melhor e botar esses negócios na cabeça… Teve até aquele dia que a senhora passou um mundaréu de dever, aí quando tava ficando tarde eu falei pro pai que tinha muito dever pra fazer e ele falou assim: ‘Faz depois que voltar pra casa e tomar banho’, mas aí quem aguenta?
Quando o menino terminou, Fabiana percebeu-se de olhos arregalados e massageando as sobrancelhas, uma com o polegar e a outra com o dedo médio da mesma mão — um gesto todo seu para aplacar o nervosismo. Afastou-se da carteira do Eduardo dizendo a ele algum consolo bobo e genérico, e prometeu a si mesma que ajudaria a melhorar a situação do garoto.
Horas mais tarde, terminada a aula, Fabiana esperou que a mãe do Eduardo viesse buscá-lo, como fazia todos os dias, para levá-lo no Fusca até a fazenda em que moravam. Quando a mulher chegou, uma loura corpulenta com a pele amorenada pelo sol, Fabiana transmitiu a ela tudo o que o Eduardo lhe contara, tomando o cuidado (típico de “educadora” iniciante) de não se referir ao pai do menino como um homem ruim. Sendo cautelosa o suficiente para “sugerir” um pouco mais de participação na vida escolar do Eduardo, para “recomendar, sem querer me envolver, longe disso” que não o pressionassem tanto para trabalhar no campo.
A loura, com uma expressão grave, assentia para cada frase da professora como se recebesse uma lição importantíssima. A cada frase, apertava mais firme a mão do filho, sem que Fabiana visse. Por fim, disse que em casa todos conversariam com calma sobre o assunto.
No dia seguinte, chegando à sala, foi para a mesa do Eduardo que a cabeça de Fabiana se desviou mecanicamente. Ela o viu de cabeça abaixada em direção ao caderno, fingindo concentração em algo que nem devia estar ali, e erguendo vez ou outra as mangas do casaco (“pra que casaco em pleno verão?”) para se coçar. De relance, Fabiana viu as manchas escurecidas no pescoço quando ele, distraído, levantou a cabeça, e as viu também nos antebraços do menino, quando ele se coçou com mais força.
E a educadora, ao vê-lo fechado em si mesmo, escondido num canto da sala e sozinho com as manchas escuras, lembrou-se com uma angústia terrível do que a sua avó, uma mulher vergonhosamente conformada, dizia: “muito ajuda quem não atrapalha”.
Desde então, perdoou o Eduardo por toda a tarefa incorreta e não feita, e guardou aquela indignação para si — sabendo que o seu silêncio seria tão precioso para ela quanto para ele.



