Trabalhador

homem trabalhando com enxada

Quando subiu na velha moto para voltar à casa, desejou um desastre absoluto que o levasse desta para melhor.

Ainda não acreditava por completo nas palavras do patrão, que lhe tinha dito, de uma forma um tanto quanto escusa, que a colheita do café, ainda não tendo acabado, atingira um ponto em que não se necessitava do trabalho de tantos homens — sabe como é, Jorge, tem uns quantos quinze ou vinte rapazes aqui, você já tem trabalhado há mais de mês pra mim, as coisas estão se resolvendo, mas por ora não vou precisar mais do seu serviço, tá bom, mas com certeza, sim, vamos nos falando, homem, sabe que pode contar comigo, você tem meu telefone, trabalha bem e gosta, caboclo assim não fica sem serviço.

No momento, assentira com a cabeça, simpático e simplório como sempre, mas não entendera uma única palavra da horrenda explicação. Montara a velha moto já maldizendo a sua cabeça fraca, a sua falta de pulso e a subserviência diante do patrão.

Desceu, pilotando com cautela, os morros intermináveis que se margeavam pela plantação a perder de vista. Admirava-se até então com a extensão daquela propriedade. Dizia-se por aí que toda a serra pertencia ao patrão — e, quanto mais avançava a moto e quanto mais o verde infinito salpicado de vermelho corria pelo canto de seus olhos, mais alimentava a amarga revolta contra aquele homem infinitamente rico, que, já nesse momento, parecia tê-lo dispensado sem nenhuma razão.

Chegou à rua suando em bicas, e pilotou por ainda mais dez minutos até chegar à própria casa. Livrou-se da camisa como se ela o estrangulasse, atirou-a sobre a moto que estacionara da pior maneira e não se atreveu nem mesmo a passar pela porta. Encontraria a irmã, e ela lhe perguntaria sobre o acontecido, Por que tão cedo em casa, meu bem?, e, da maneira como se encontrava, derreter-se-ia por inteiro e choraria como um menino na frente da mulher. Desesperado com a possibilidade das lágrimas, das suas lágrimas diante da irmã, checou os bolsos e encontrou neles a nota de vinte reais. Segurou-a com a firmeza com que apanhava o café, atravessou a rua e entrou no botequim do Antônio.

Bebia em especial às sextas-feiras, à noitinha, quando Bastião se munia do surrado acordeão e tocava as baladas de que já ninguém se recordava. Por vezes, calhava de Jorge enroscar-se num forró embriagado com as poucas mulheres que estivessem no ambiente — fossem belas ou feias, gordas ou magras — e de raro em raro acontecia de mostrar-lhes mais tarde a sua casa e a sua cama.

Naquela tarde, entrou no bar desfeito do desejo de dançar e de viver. Sentou-se em frente ao balcão carcomido e pediu uma cachaça ao Antônio. Antônio entregou-lhe a cachaça e a pergunta:

— Com essa cara, pegou doença de mulher ruim.

— Trabalhar a dia é pior que qualquer doença.

Emborcou a primeira dose com o esgar do bebedor desacostumado.

— É nova? — perguntou ao outro.

— É de Minas — disse o Antônio —, boa que faz gosto.

Jorge sorriu e deu a razão ao dono do bar, e convencido de que bebia como um rei pediu a segunda e a terceira e a quarta. Quando deu por si revelara ao Antônio não somente a sua demissão mas também o desejo que nutria de matar o patrão, de tomar-lhe as terras, de vê-lo catando café como o faziam os empregados, sob o sol que os castigava como se trabalhassem no próprio inferno, e em como desejava possuir também a mulher do patrão, uma loura de pernas imensas que sempre lhe dava café coado e pães com salame fitando-o com uns olhos tão verdes que quase o feriam, e como fantasiava tê-la no meio das plantações, em frente ao patrão, para ensiná-lo a tornar-se homem e a não mentir quando quisesse dispensar um trabalhador digno.

A tal ponto, já não podia ouvir o que o Antônio lhe dizia, e percebeu, pelo acender das luzes, que a tarde já se fora há tempo e que o bar se achava então muito mais cheio do que quando entrara.

Deixou o assento para ir ao banheiro, que ficava à parte do próprio botequim, num cubículo ao lado de fora. Não conseguiu entrar. Batalhou contra a taramela da porta, mas, vendo nela uma adversária capaz, desabotoou as calças e urinou na porta, sentindo-se esvaziar como uma garrafa, sem dar conta de que o observavam e riam da sua figura.

Quando olhou em torno, constatou enfim que era alvo de uma curiosidade inédita, mas não se agitou por isso. Voltou ao bar trôpego, esbarrando sem perceber que esbarrava e por isso não pedindo desculpas, e, antes de voltar ao seu assento diante do balcão, estacou subitamente — porque viu a irmã, a irmã Fátima, diante da qual teria chorado como um criança se se arriscasse a entrar em casa horas atrás, sentada à mesa com o Bastião, cujo acordeão aguardava recostado à parede.

E como conversavam, os dois! E como o Bastião, o safado, o miserável, devia estar lhe dizendo a coisa mais engraçada do mundo — porque a Fátima ria como se de um palhaço! E logo não seria o Bastião quem levaria a sua irmã para casa, para o seu quarto degenerado de sanfoneiro de botequim, para o mesmo destino a que levava as quengas que ludibriava no bar?

Jorge cambaleou para trás, embebido na sua indignação, e saiu do bar com os olhos no chão, em busca de uma arma possível.

Na ladeira em que morava, quase tombou para trás ao equilibrar-se enquanto procurava. Um carro, que buzinou longamente para que ele lhe desse licença, chegou muito perto de arrancar-lhe uma perna. E ele, Jorge, exibiu o dedo médio ao motorista, ignorando que o outro só não desceu do veículo para partir-lhe a cara porque viu de longe a sua embriaguez.

Decidido, outra vez entrou no bar, pé ante pé. E, gritando sem dar conta de que gritava, ergueu o pedaço de pau que recolhera entre os paralelepípedos da rua e avançou em direção ao Bastião — e sentiu, mesmo antes de atingi-lo e embora a sua mente nublada pelo álcool não pudesse chegar à compreensão do que sentia, que golpear o Bastião, que matar o Bastião, aleijar o Bastião, equivalia a vingar-se do patrão; que a violência, qualquer que fosse, o redimiria; e que, por conversar com a sua irmã, o Bastião merecia por lei ser o alvo dessa justa violência.

Qual não foi a sua surpresa quando constatou que uma outra mão, muito mais vigorosa que a sua mão de ébrio, segurava o pedaço de pau acima da sua cabeça, e que no bar gritava-se, Bastião, cuidado!, e que depois de lhe tomarem a única arma uma garrafa se partiu contra a sua cabeça e o fez rolar pelo chão do botequim.

Caído, ainda ouvia a gritaria dos outros. As imagens à sua frente rodopiavam numa loucura de cores e texturas — e a ira contra o Bastião, contra o patrão e até mesmo uma ira nova, contra a própria irmã que dava trela àquele sanfoneirozinho, confundiam-se e giravam em torno uma da outra.

É louco, ouvia-os dizer, estava bebendo desde cedo, foi pra cima do Bastião com esse pau aqui, ó, pra matar, o Bastião estava de conversa com a irmã do homem, também, dizia um, Mas sem maldade, dizia o Bastião, Tem que levar para o hospital. Jorge os ouvia a todos, mas não conseguia atinar nem para o contexto nem para o significado do que diziam.

Foi erguido com esforço, robusto que era, e sentiu-se de repente carregado por dois outros homens, um dentre os quais parecia ser o próprio Bastião — o finório, o abominável Bastião da sanfona. E o Bastião, salvo engano, o advertia sobre o perigo de beber tanto e por tanto tempo, ria de sua impulsividade, e afinal lhe falava como se aconselhasse um filho, o infeliz…

E o ferido, que nada podia fazer senão agitar as pernas e abanar a cabeça, odiava mais profundamente o seu condutor pelo zelo com que era carregado e pela compassividade das palavras do outro.

Muito mais tarde, no leito de hospital em que repousou depois de aplicados os pontos na sua cabeça, recebeu a visita da irmã. Tentou sem sucesso mover a mão com que pretendia apontar para ela enquanto lhe dizia para não andar às voltas com um sanfoneiro; para sequer, a propósito, dar as caras num botequim tão imundo e mal frequentado. Mas também não pôde dizer uma única palavra, porque a boca não lhe obedecia.

— O que houve com você, Jorginho? — ela disse com suavidade, tocando-lhe a mão. — Vai pra cima do seu Sebastião com um pau, bebe a tarde inteira… E o seu trabalho, meu amor?

Então olhou para a Fátima, que o fitava com os mesmos olhos de piedade da mãe, e derramou finalmente, como um menino, as lágrimas que quisera evitar por toda a tarde.

Imagem por Rodolfo Clix via Pixabay

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