Açougueiro

homem irado

Trabalhar no açougue do super era só pra quem tinha nervo de aço. Imagina todo dia a mesma ladainha, olha, moço, eu pedi pra cortar os bifes bem fininhos, não esse cepo que o moço botou aí, ou então: mas eu pedi dois quilos, rapaz, você está me dando quase dois e meio, ou então: olha aqui, eu pedi acém e você tá pegando chã de dentro, cara. Eu juro por Deus que o filho da puta tinha pedido chã de dentro.

Por vezes quis mandar aquele povo todo à merda. O dono do lugar à merda, até as carnes à merda eu queria mandar. Antes de dormir ficava pensando: se eu fosse no frigorífico, então podia mandar os caras de lá à merda também, depois ia ao abatedouro, bradar: vai todo mundo nesse abatedouro à merda. Iria às fazendas, aos agropecuaristas com o rabo estufado de tanto dinheiro, mandar os putos pra casa do chapéu, pra não dizer outra coisa.

Saía daquele servicinho bufando, os punhos tesos, cara vermelha. Pior que, também, pra quem que foram dar o trabalho, né. Eu saía de lá pisando as calçadas rachadas com aquelas botinas pretas, nutrindo por elas um ódio puro e irracional, e pensava: se um quengo vier me estressar vou sentar-lhe a mão na cara, vai ser uma só. Emputecido como estava eu era capaz de pôr abaixo um muro com um tapa. Mas ninguém nunca me desaforava, parecia que de casa pro açougue e do açougue pra casa o mundo era bom, feliz, tranquilo, não tinha uma alma reclamando do teu corte de carne.

Eu chegava em casa leve, gritava: cheguei, minha bunduda. Chamo minha mulher de minha bunduda, é que ela tem umas ancas largas, de grandes bandas redondas, que coisa admirável. Também, o que é que me dá pra ficar contando da minha mulher pra você. Eu chegava, gritava, e se ela não aparecia, ia logo ao banheiro dar uma mijada.

No dia pus o pau pra fora e vi que tinha encolhido, virado um dedo. Pensei: mas que porcaria é essa? O primeiro jato pegou na lixeira. Desviei o dedinho pro centro da privada pra conseguir acertar, dureza. Isso aí acabou com a minha tranquilidade. Chutei a lixeira, voou papel sujo pra tudo que é lado. Minha bunduda devia ter soltado um barro dos grandes há pouco, aquela bunda toda não é só pra fazer carinho.

Catei um por um os papéis cheios de bosta, respirei fundo e lavei as mãos.

Ela devia estar estendendo roupa. Gritou:

“Chegou, amor?”

Eu ouvia a voz dela e ficava em paz. Daí em diante, oscilava o resto do dia entre amar minha mulher e me irritar por qualquer joça. Torcia pra chegar a noite logo, eu me deitava e ela já vinha querendo coisa. A bicha tem um fogo que, por Deus. Só então eu relaxava por inteiro, sabendo que nada nunca dava errado entre um homem e uma mulher quando faziam o que a natureza os mandava fazer.

Respondi:

“Cheguei, e aí, o que vamos arranjar?”

Entramos na cozinha ao mesmo tempo, eu pelo corredor, ela pela porta da área de serviço. Veio até mim, meteu-me um beijo quente, úmido, dei-lhe um tapa nas cadeiras. Quando ela ia entrar no corredor, a caminho do quarto, disse:

“Hoje é o casamento.”

Meu Pai da glória, pensei, é hoje que meu sossego acaba.

Não compro roupa de sair. Não gosto de sair, pra que vou ter roupa de sair? Paciência. Se a mulher disse que a gente ia pro casamento, a gente ia. Cacei umas velharias no fundo do armário e acabei encontrando, uma camisa social surrada, uns sapatos sociais duros, apertados feito virgens. Em 10 minutos estava pronto. Minha mulher arranjou um vestidinho chique. O tal vestido se atochava nela, ressaltava-lhe aquela bunda descomunal pela qual eu mataria ou morreria, eu disse: isso está uma pouca vergonha, cadê o respeito?

Ela retrucou: eu é que te pergunto, senhor açougueiro, cadê o respeito? Este estilo de vestido é o último da moda.

Eu assenti, o que podia fazer? Em casa vivo assentindo, dizendo: sim senhora, dizendo: mas é claro, eu estava errado. Mas faço isso com gosto. Mataria e morreria pela dona que tenho em casa, já disse. Saímos.

A festa não era coisa grande, em termos de festa de casamento era uma meia-bomba. Coisa de pobre que quer parecer rico. Garçom pra lá, garçom pra cá, refrigerante em jarras, cerveja em jarras, água em jarras, jarras que parecem passar por todas as mesas, nunca pela sua. Patês de salsicha, frios. Mas uma decoração austera, nada espalhafatoso, eu já falei que era coisa de pobre querendo parecer rico.

Depois de meia hora eu já tinha comido de tudo, todo o patê, já tinha dado fim nos biscoitinhos, você sabe de que biscoitinhos eu tô falando, me impacientei porque minha garganta estava seca como o cão, e as jarras orbitando o pequeno planeta que era a nossa mesa, mas nunca entrando nele. Fiz sinal pro garçom da mesa em frente, o puto não viu, dentro em pouco o puto ali era eu. Ergui a mão de novo, bradei:

“Por favor, amigo!”

Um branquinho me escutou, com cara de garoto. Chegou-se à mesa, bracinho esquerdo dobrado, posudo. Ele encheu a taça. Tomei.

Quente.

Minha mulher estendeu a dela logo em seguida. Não deixei ele encher. Disse:

“Tá quente isso aí.”

A patroa me olhou, sorriu sem graça, como se: eu aceito, não me faz passar vergonha.

O rapaz fez menção de encher a taça dela novamente, eu pus a mão na frente. Não, obrigado, não queremos cerveja quente.

Ele disse: perdão, e saiu de mansinho, ridicularizado. Eu ri.

“Essa gente não tem noção”, falei.

Minha bunduda, pra mim:

“Quem não tem noção é você. Precisava disso?”

“Precisava. Não bebo cerveja quente. Já fiz demais em vir aqui.”

“Já fez demais, é?”

Firmei: É.

Ela chupou a bochecha esquerda e olhou pro lado. Quando está prestes a me desaforar, é o que ela faz, mas faz pra se conter. Quase nunca perde a calma. Arrematou:

“Se comporta, tá bem?”

Eu bufei e disse: ok, vou tentar.

Bebi a cerveja quente mesmo, forcei-me a bebê-la pra ver se eu me resignava. A taça inteira. Veio outro garçom, encheu de novo, dessa vez estava ainda pior. Olhei torto pra ele depois do primeiro gole, calei a besteira que já me saía da cabeça antes que chegasse à boca. Olhei pra minha mulher. Ela estava mexendo no celular, viciada, ignorante.

“Você não para de futucar nesse negócio?”

“Vai arranjar encrenca comigo, agora?”

Eu ia, precisava de um arranca-rabo. Queria bater boca, nem que fosse com ela. Mas vai que me prejudica, logo à noitinha não rola o que eu gosto, então me tranquei e resmunguei:

“Vou mijar.”

Ela me encarou, como se: pelo menos aqui não fale desse jeito. Ignorei, se vou mijar é mijar mesmo que digo. Fui.

Eu tinha bebido mais cerveja do que tinha percebido, mijei por horas. Foi o que me pareceu.

Saindo do banheiro procurei reparar no que me rodeava, tinha que me distrair, entende? Vi foi gente feia, metida a besta, vestidos longos, ternos baratos. Tudo pessoa igual à gente, nem queriam estar todos ali mas estão, fazendo pose e charme. Ninguém quer ser o convidado que não comparece, querem tirar foto, postar foto, contar curtida e depois vangloriar-se. É foda. Se eu continuasse prestando atenção era capaz de achar um desaforado que comprava no açougue, e se eu lembrasse um tiquinho que fosse do açougue, ah! mas eu ia tocar um puteiro.

Voltei pra mesa. Tinha um cara lá, conversando com a minha mulher. Um tipo simpático, ficou meio sem graça de me ver. Levantou-se, disse o nome, apertou minha mão e deu o fora. Eu devia estar olhando torto pro sujeito sem perceber.

“Quem é esse?”, perguntei pra minha bunduda.

Ela disse: é o Éverton, já te falei dele.

Pensei por um minuto. Ela já me falou de um Éverton, lembro, mas não quero que seja o que estou pensando.

“E queria o que aqui?”

“Ai, amor, queria saber como eu estava, falar da mulher dele, como a gente estava indo, coisa boba.”

“Saber como você estava?”

“Pelo amor de Deus, você já quer arranjar problema de novo?”

“Não sei por que ex-namorado seu tem que vir aqui te perguntar como você está e você ficar dando conversa, é estranho, né não? O cara chega justo quando eu saio. Te parece normal?”

Ela bufou e revirou os olhos.

Essa eu não suportei. Você pode bater na minha cara, comer meu rabo, roubar o que eu tenho, só não revira os olhos pra mim. Saí da mesa, tinha que dar uma em alguém.

Fui até o tal Éverton, reconheci-o pela careca que começava a aparecer no cocuruto.

Toquei seu ombro. Ele olhou pra trás.

“Você é o Éverton, não é?”

Ele congelou um tempo antes de responder, a boca entreaberta. Correu os olhos pela mesa. Sua esposa estava ali. Mais um sujeito. Mais outra mulher. Disse:

“Aham.”

Soava distante, a voz do Éverton. Devia ter ido embora junto com os culhões.

“Gosta de conversar com mulher casada quando o marido sai da mesa?”

Os outros três colaram os olhos na cena. De mim pra ele e vice-versa. Éverton gaguejou, começou a gesticular muito abertamente, sem conseguir completar uma palavra. Não o deixei fazer isso. Encaixei-lhe um soco no maxilar, as mulheres afastaram suas cadeiras da mesa na mesma hora, gritando: oh!, e: ai meu Deus!, o outro sujeito levantou-se e ficou paradão, encarando, impotente, castrado.

Muita gente olhou.

Começou uma gritaria dos infernos.

Empurrei o outro sujeito, o aparvalhado, que deixou-se ser empurrado como se fosse correto que eu o empurrasse. Continuou foi paradão, embasbacado, observando. Corno, paradão assim só pode ser corno. Fui pra cima do Éverton, meti-lhe os murros que consegui, alguém próximo me jogou alguma coisa nas costas, sei lá o que foi, dane-se. No ímpeto do arranca-rabo continuei a esmurrar o Éverton. Levantei uma cadeira de plástico e quebrei nas costas do pilantra. A gritaria recrudesceu, virou tudo uma tremenda zona. Veio gente pra cima de mim, mas fui me livrando. Minha mulher então surgiu entre as caras que eu via, avançou pra mim. Tentou conter meus braços. Logo atrás dela vieram dois sujeitos grandes como Deus, trajados de preto, decerto seguranças. Os bichos me dominaram e foram me empurrando pra fora.

Minha mulher logo atrás gritava: Gilmar! Gilmar! olha o inferno que você fez! Gilmar, você só pode ser retardado!

E eu me contorcia feito lacraia, mas uma lacraia guerreira. Ouvi uma outra voz perguntar, quando já estávamos nos portões:

“A senhora tá com esse homem?”

E a minha bunduda dizendo: ele é meu marido!

Então os brutamontes gentilmente convidaram minha esposa a se retirar, por obséquio, minha senhora, mas precisamos fazer isso. Ela saiu bufando, batendo os dentes, me xingando de tudo que é nome.

Eu me sentia satisfeito.

Quando me vi livre das garras dos gigantes, bati no peito e nos braços da camisa, assentando-os no corpo. Saí andando firme, minha esposa atrás praguejando como louca, aquela boca suja. Gosto quando ela me xinga.

Dormi serena e maravilhosamente naquela noite. Tava precisando de uma dessas, alguma loucura, chutar o pau da barraca e bater com ele no dono. Minha alma ficou quieta, libertada daquela troço primitivo de dar com a mão em alguém, de fazer merda, de revidar não sei o quê.

Era madrugada quando acordei e minha bunduda estava chorando baixo.

Consolei-a, ficamos conversando, ela ainda cheia de dedos. Eu disse coisas tão belas, não me lembro de nenhuma. Depois de um tempo ela cedeu, queria carinho, dei carinho, acabamos é fazendo outra coisa.

Ela tem um fogo que só Deus.

Imagem por Pixabay via Pexels

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