Aluno modelo

estudantes reunidos

Ligou porque estava desesperado. Atendi porque não podia fazer outra coisa.

— Ô, meu brother, você me empresta os deveres de Biologia?

Nada de boa noite, nem de como vai. Direto ao ponto. Sem o menor respeito, ou senso. Falo:

— Boa noite pra você também, cara.

Já sei que está enrascado por ponto. Fica o bimestre inteiro tocando punheta e flertando com mulher e no fim do ano está louco, chorando, bebendo — estudando nunca está, como é de prever.

— Cara, estou apertado pra cacete.

— Fala pra mim.

— Lembra da última prova? Então, bicho, eu devia…

Devia, sempre devia, Igor. Devia ter dedicado mais tempo, pobrezinho, ao estudo. Infelizmente há um monstro, um gigantesco monstro que o arranca da frente dos livros sempre que tenta. Pobrezinho…

O professor de Biologia dá sempre um ponto pra quem lhe mostra todas as tarefas de casa prontas no final do bimestre. O que o Igor quer é que eu lhe empreste o caderno hoje. Que leve para a escola e entregue a ele antes da primeira aula. Quer começar a copiar logo porque não tem nem mesmo uma tarefa no próprio caderno. Porque de madrugada ele não ia fazer, não faz nada de madrugada. Só dorme. Seu sono é sagrado, um sono anabólico, essencial pra quem faz exercício físico, e o Igor faz, passa duas horas por dia em academia. Dever de casa que é bom não faz.

Digo:

— Mas aí não anoto o que a professora de Português vai passar.

— Você já passou em Português?

— Já.

— Então, meu amigo. Vai ficar anotando pra quê?

Quis dizer que não, ou então: vá pra puta que pariu, seu vagabundinho, não é porque você é um preguiçoso dos infernos que vou ser igual. Estou emprestando caderno, deixando de anotar uma matéria importantíssima, uma matéria, Igor, capaz de definir meu futuro acadêmico, matéria sem a qual meu ENEM seria um desperdício de tempo, e você quer que eu me arregace no ENEM só pra te tirar da forca?

Por Deus que quis dizer tudo isso. Mas disse:

— Ok. Passa aqui pra pegar.

Quando chego à aula passo primeiro pela fileira do Igor. Entrego o caderno e ele me joga um beijinho. Filho da puta. Um sujeito ajuda o outro e ainda tem que aguentar gracinha.

Dali vou à minha carteira.

Pela metade da aula olho pro outro lado da sala, onde o Igor está. Copia as tarefas como um maluco. Amanhã suas mãos vão doer como o inferno, mas não vai se importar. Está cagando para o inferno. Passando de ano, deve pensar, o inferno nem existe.

Um tempo depois, surge nas cadeiras à minha frente uma disputa. É entre um grupinho de garotas. Sobre o que conversavam?, eu quis saber. Era sobre letra. A Carol tem a letra mais bonita de nós. Claro que não, a da Jéssica é ainda mais arredondada, olha essas maiúsculas! Estavam todas erradas, a letra mais bonita desta sala é a minha. E nesse mesmo instante em que penso no óbvio, a Carol se vira pra mim, peremptória:

— Coração, a sua é mais bonita do que a de todo mundo aqui.

Rio acanhado, as demais garotas também riem. Concordam. Todos concordamos. Não só é a mais bonita da sala, a minha letra, como também de todo o colégio, não duvido disso. Tenho que mostrar a elas, vou mostrar. É só abrir o caderno. Mas que caderno? Onde? Está com o Igor.

Olho de novo na direção da sua cadeira. Ainda copia freneticamente. Como deve ser a letra do Igor? Horrível, lastimável. Mas não a minha, minha letra é um portento, eu sou um prodígio da caligrafia, a minha mãe diz.

Fico rindo sem jeito pras meninas, não sei onde enfiar a cara, sem meu caderno para abrir e mostrá-lo dizendo: vejam aqui a prova! Vocês, suas patricinhas de merda, não sabem o que é escrever com elegância!

— Esqueci o caderno — digo.

Rindo amarelo. Como um derrotado. Como um homem sem honra. Sem o caderno não ganho elogio nenhum. Sou um fracasso.

No dia seguinte, um sábado, ligo pro Igor. Deve ser cedo demais, porque não atende. Quero logo meu caderno. Ontem à noite tive uma dificuldade horrenda para dormir. Não conseguia parar de pensar na letra que não pude mostrar, pela qual eu não pude ser festejado ou invejado.

Liguei novamente uma hora mais tarde. Às 11 da manhã tem que estar acordado, que sacanagem é essa?

Estava.

— Oi. — A voz grogue.

— Ei, rapaz. Você já terminou de copiar os deveres?

— O quê? — Estava dormindo ainda. Eu o acordei.

— Os deveres de Biologia, você terminou de copiar?

— Ah, aquilo. Terminei, terminei ontem.

Penso: amém. Toda essa rapidez assim vinda do Igor é coisa de Deus.

— Pode me devolver hoje ainda?

Sinto que vacila no telefone. Leva em consideração a meteorologia, o alinhamento dos planetas. Salafrário.

— Dá sim. — Uma pausa. — Dá sim, cara. Passo aí.

Espero até meio-dia. Almoço, me deito pra sesta. Não quero ter que acordar da minha sesta, minha sesta sagrada, pra receber caderno da mão de marmanjo. Mas não vem. Não vem pela hora do almoço nem durante a sesta, nem mesmo durante a tarde. Espero. O Igor não foi específico, disse “passo aí”. Eu é que devia ter lhe dito: “pois passa de tarde logo que não tenho o dia todo”, mas o que eu disse? De fato nem me lembro. Deve ter sido alguma besteira.

Não vem à noite, ou pela madrugada. Atravesso a noite sem um pingo de sono, pensando: e a minha letra? E a minha letra, que agora ninguém mais pode comprovar que é de fato um espetáculo? Penso no rosto das meninas, na carinha de pesar e de decepção, porque quando a Carol disse “coração, a letra mais bonita da sala é sua” suas amigas logo creram: era verdade. Só queriam apreciar. A letra. A maravilha que faço com uma caneta na mão. E não viram nada, não puderam. Ligo para o Igor.

Tem que atender. Isso é inadmissível. Atende no quarto toque. São três e vinte da manhã.

— ALÔ! — Está gritando.

— Igor! Tá numa festa?

Vozes pastosas, gritos, música alta, tudo chega até mim pelo telefone.

— TÔ! O QUE FOI, BROTHER?

Está com o caderno? O que fez com meu caderno? Por que não trouxe, Igor?, me responde!

— É o Festival de Inverno?

— É! VEM PRA CÁ, PORRA!

Como vou, Igor? Como saio de casa às três e vinte da manhã para ir a uma festa em outra cidade? Está maluco. Não diz coisa com coisa. Veja, nem é uma festa boa. Por que eu iria? Gente bêbada, promiscuidade e cenas vergonhosas, é o que eu vou ver. É o que toda festa tem, logo não vou a nenhuma. Pra que festa? Pão e circo. Pra que serve, você sabe? Manipulação. Assim se cria um povo alienado. Festa, festa, festa. Minha mãe não me deixa ir. Faz muito bem, penso. Faz bem demais com a proibição. Não quero, não gosto, pra que iria a uma festa?

Ela proíbe, Igor, me proíbe mesmo que eu tenha dezoito anos, mas proíbe. E faz muito bem. Muito bem, porque afinal o que de bom posso encontrar lá? A diversão é isso, uma imbecilidade.

Desligo o telefone. Amanhã o miserável nem se lembra que liguei.

É o álcool, a festa. A gente esquece das coisas. Esquece dos cadernos.

No domingo ligo para o Igor desde que acordo. Não me atende. Ouço cair na caixa postal uma vez após a outra. Na décima, deixo que venha o bipe e falo o que quero que ele ouça.

— Você é um sem-vergonha, seu filho da puta. Primeiro me priva do meu caderno, me priva de uma aula importantíssima, depois me priva da minha letra, Igor, tudo pra ir em festa. Acha justo? Quando eu estiver ganhando trinta mil por semana, vai dizer que eu fui privilegiado? Filho da puta! Um festeiro, um baladeirozinho de merda, sem-vergonha. Um irresponsável! Irresponsável!

Desligo. Queria que fosse como nos filmes, que as pessoas ouvissem as mensagens. Igor não vai ouvir, não faz nada.

Choro na cama. Podia, agora, fazer uma revisão intensa das matérias do bimestre. Uma recapitulação para o próximo. Só esquece conteúdo quem não revisa. Preciso revisar, Igor, mas cadê meu caderno? E daí que não há próximo bimestre, que depois desse o que vem são as férias? Dezembro, janeiro, e suas praias e festas, com trio elétrico, gente suada, bêbada. E mononucleose. É isso que quero? Não, Igor, eu só quero uma revisão! Só uma, agora, só o que eu quero!

Continuo a ligar. O dia inteiro não atende.

À tardinha, no horário em que eu devia ter tirado a sesta que não tirei, minha mãe entra no meu quarto. Deixei o carro em frente ao portão de casa.

— Meu filho.

— O que foi?

— Está sabendo o que houve com o Igor?

— Igor? Não estou, o que houve?

Me olha bem nos olhos. Está aflita, não pisca.

— Achei que estivesse sabendo, hoje em dia celular espalha a coisa tão rápido…

— Não tenho aplicativo idiota, mãe. Sou um cara compromissado.

Faz uma pausa. Olha mais uma vez, mas o que vejo no azul dos olhos da minha mãe não pode ser aflição. É orgulho, não é? Por ter um filho compromissado. É orgulho sim, esse brilho aquoso e desesperado. Até rígido. Isso é um olhar de orgulho, um orgulho puro e grande. Eu mereço, é verdade.

— O Igor, meu bem, foi pro hospital agora de tarde. Encontraram ele desacordado no portão do prédio, cheio de hematoma, um braço todo quebrado inclusive, e traumatismo craniano, também. Parece que rolou na escada, eram dois lances de escada, e ele caiu aquilo tudo. Que coisa mais esquisita, dois lances, e rolar isso tudo! Tadinho. Tá horrível. A mãe não sabe o que houve, ele nunca caiu assim.

— Que merda — digo, uma carinha triste.

Pobre Igor. Pobre rapaz.

— Você saiu de carro, chuchu? Vi que deixou na frente do portão, antes estava na garagem.

— Saí, fui cortar o cabelo.

Passa a mão pela minha cabeça.

— Ficou uma gracinha.

E devo estar mesmo, uma gracinha. Está bem cortado, esse barbeiro é muito bom. Corta com tanta economia que nem se vê diferença no volume de cabelo. Um mau observador, um observador idiota, diria que não cortei coisa nenhuma. Mas cortei. Está uma gracinha.

Ah, Igor. Pobre Igor, pobre rapaz. É uma pena.

É uma infelicidade, mas não posso ficar pensando nisso. É hora do trabalho, é chegada a hora de revisar os conteúdos. Pego o caderno sobre a cama.

Estudar é maravilhoso. Vale todo o esforço.

Imagem por Startup Stock Photos

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