O convite já surgira em momento inapropriado. Quando o Alberto ligava pela primeira vez chamando-o para ir ao bar, o Fabrício descobrira, há coisa de duas horas, a traição da noiva. Atendera ao telefonema muito depois da primeira onda de ódio. Agora chorava o desperdício do seu tempo e da sua confiança.
Ao ouvir a primeira negativa, o Alberto reconhecia o choro do outro.
— O que é que houve, Fafá?
— Nada…
— Alguma coisa tem.
Fabrício descobrira sozinho o adultério. Conseguira que a noiva acessasse a rede social no seu computador e aproveitara para gravar-lhe as senhas. Honesto que era, não o teria feito se já não suspeitasse da mulher; suspeitava há três meses. E, na tarde seguinte, isto é, duas horas antes de ouvir o primeiro chamado de Alberto, sabia-se corno. Lera as mensagens que a moça enviava ao outro e as que dele recebia.
Quando apanhou o telefone para atender ao Alberto, as mãos sangravam. Socara repetidamente as paredes do quarto, na primeira explosão do seu ódio.
— Coisa minha, com Giovana… — E tentava conter o arquejo para que outro homem não o ouvisse chorar. — Péssimo, péssimo…
— Brigaram? Terminaram?
Fez um longo silêncio. Engolia em seco, as mãos na têmpora.
— Me traiu.
E Alberto desatara a lhe perguntar sobre como e quando descobrira, se conhecia o outro, se não se enganara talvez, podia estar se precipitando… O Fabrício lhe explicava com a paciência anestesiada de quem acaba de atravessar uma tragédia. E tentava fugir ao convite do bar, mas, com insistência, cedia à ideia de beber para livrar-se da memória. Olhando para as mãos, ainda chorando, cedeu.
Pouco depois já iam ao boteco. Aí, sentaram-se não à mesa, mas ao balcão, porque o balcão era o lugar apropriado para chorar a dor dos novos cornos.
Conversavam já há um longo tempo quando o garçom, que lhes servia a noite inteira, destampou a enésima cerveja, desculpou-se e revelou:
— Minha noiva também me traiu.
O Fabrício e o Alberto, a princípio, arregalaram os olhos. Mas no minuto seguinte já se debruçavam, curiosíssimos, na direção daquele outro traído. Também não o julgaram por bisbilhotar o que diziam, como se pode pensar. Antes, compadeceram-se dele e lhe perguntaram tudo o que podiam:
— Mas como pegou?
— Quem contou?
— Fazia tempo?
O garçom, que só ao fim da noite descobriram se chamar Valdir, sorria suave, como se agora se gabasse do flagra:
— Peguei na cama, os dois — e então ria, curado. — Coisa de novela!
— Puta que o pariu! — gritava o Alberto.
— Aí é demais! — dizia o Fabrício.
Também o Fabrício ria, com o consentimento silencioso do seu parceiro de chifres. Levava a cerveja à boca e ria. Intimamente, agradecia aos céus por ter lido mensagens somente. Não podia imaginar-se reagindo diante da visão da mulher nua em cima de um outro homem nu. E o pior é que, muito provavelmente, não mataria, não bateria. Quando criança, indo ao quarto do pai e da mãe, flagrara-os também nus, sem um lençol sequer para lhes cobrir a nudez. E exatamente essa nudez tão insuspeita, a descoberta de que a mãe e o pai pudessem reunir-se sem roupa para alguma atividade, não o fez correr nem gritar: em vez disso, chorou. Ficou de pé, à porta do quarto, e só ao primeiro soluço os pais o ouviram, interromperam o amor e encheram-lhe a cabeça de desculpas e explicações extravagantes. E se, diante do sexo da mulher com outro, repetisse o choro de há vinte anos? Seria o seu ódio suficiente para socar um rosto, um rosto desconhecido? E se desabasse, como um frouxo?
Saiu do bar trôpego, Alberto ao seu lado. A essa altura, contavam e recontavam histórias da adolescência como se as tivessem vivido ontem. E riam, riam, como duas crianças. Evitavam o assunto do adultério não porque já não ferisse, mas porque por santos minutos puderam esquecê-lo. O Alberto disparava:
— Quer um cachorro-quente?
E, lembrando-se da infinidade de cachorros-quentes, bons e terríveis, que comera depois de um pileque, na companhia de Alberto e de outros, Fabrício disse-lhe que sim, mas que “tem que ser de quiosque.”
Rodaram com o carro até depararem com o bendito. Compraram, como quis o Fabrício, de um senhor que dispunha as bandejas de ingredientes numa carrocinha improvisada. Esse senhor era um japonês de rosto suado, os dentes da frente muito proeminentes, e que sorria com parcimônia para escondê-los. Falava, também, como se conhecesse o Português há não mais que uns poucos meses.
— Bom apetite — disse o japonês.
— Arigatô — dizia o Alberto, rindo pastosamente na sua embriaguez.
Comeram rindo de gracejos antigos e entraram no carro empanturrados e ainda tontos. O Fabrício advertia:
— Não dirige agora, não. Se eu balançar um dedo, eu vomito.
— Também, também. Haja bucho!
E então, parados, encararam um ao outro.
O Alberto, ao volante, punha-se sério de repente. Com os olhos fitos no amigo, perguntou:
— Tudo bem?
O Fabrício massageava a têmpora.
— Tudo bem, meu rei. Tudo ótimo. Esse cachorro-quente foi o melhor que já comi.
— Tudo resolvido?
— Preciso mandar mensagem para ela. Terminar, mesmo, ainda não terminei.
— Em casa você faz isso.
— Faço.
Contemplaram o para-brisa por algum tempo ainda. Sonolento — a cerveja o carregava —, o Fabrício disse:
— Vamos?
— Vamos.
Foram.
O Alberto dirigia devagar porque, adolescente, batera o carro do pai. E o velho lhe exigira o pagamento porque não batera pela sua inabilidade de iniciante, mas porque estava bêbado. Alberto pagara ao próprio pai por meses, o que o fez afastar-se do volante sempre que estivesse bêbado, e, se pilotar fosse inevitável, ao menos dirigia tão devagar quanto podia.
— Lembra quando tu meteu o Corolla do teu pai na cerca, voltando do Matias’s?
— Como não lembra? Agora mesmo estou quase parando, por causa disso.
O Fabrício, de súbito, quis velocidade. Pediu ao outro como um menino que, puxando o braço da mãe, para diante da vitrine:
— Acelera, Beto.
— Ficou louco?
— Acelera, só hoje.
— Não adianta, não faço.
— Pela nossa amizade. Descobri o primeiro chifre hoje e foi contigo que afoguei a mágoa.
O Alberto considerava. O cachorro-quente dava-lhe ainda voltas no estômago. Mas o diabo da amizade, a amizade! Pressionou o acelerador.
— Corre, porra! — gritava o Fabrício, e ria como um menino.
— Meu pai do Céu…
— Corre, corre!
E o Alberto fincava os pé no acelerador, como o mesmo rapaz que metera os cornos do Toyota na cerca, há dez anos. Quando já haviam percorrido mais de dez metros acima dos oitenta, gritava como o Fabrício, em frenesi.
Então atropelou alguma coisa. Atropelei, pensou, de imediato. Sentiu e soube, mesmo bêbado, que atropelara. Quando gritava, quando se inclinava em direção ao volante como na noite da cerca, amaldiçoou-se assim que o carro chacoalhou. Sentira-se passar, com o pneu do carona, por cima de um animal. E era mesmo animal, porque o impacto não fora duro, nem fizera lá muito barulho.
Estacionou no exato meio da rua, pois estava deserta. Desceu. Também o Fabrício descia, e já lhe tomava a frente:
— É um gambá! Um gambá, Beto! — dizia o traído.
E era. O pelo, mesmo tingido de sangue, revelava ainda as listras brancas, pretas. À noite, não era raro que um ou outro atravessasse as ruas correndo — e alguns imaginavam que fossem não gambás, mas gatos. Era sempre um esquecido gambá, que não fazia mal a ninguém e, embora fedesse, só fedia porque não sabia deixar de fazê-lo.
O Fabrício tocou a cabeça do bicho. Evitava olhar o seu estômago, rompido de modo a mostrar o seu interior de gambá. E, do auge da sua embriaguez, o cachorro-quente do chinês ameaçando voltar-lhe à garganta, o Fabrício chorava. Alberto estendeu a mão para o outro, que não a viu. Ia dizer, mas calou. Voltou-se para ver o carro, e olhou para ele como se visse ainda o Corolla do pai. E o Fabrício tinha olhos apenas para o gambá, a sua cabeça estranhamente livre de sangue, os seus olhinhos vítreos com o último e eterno susto. Aquela morte tão mínima, que lhe poderia parecer insignificante num outro dia, foi o que lhe ficou na memória.
Ele, corno, podia levantar-se no dia seguinte para comer, andar, rezar, trabalhar. E o gambá? Antes o tivesse traído que matado. E a Giovana não o matara. Era, portanto, melhor que ela, e estava, portanto, melhor que o gambá.
Lembrou-se então daquele dia não como o dia em que descobriu os primeiros chifres, mas como o dia em que matara um animal. A morte tirou-lhe a traição da cabeça e implantou-lhe uma memória que não odiaria nunca: naquela noite, amara o Alberto, amara o bar, e amara até mesmo o japonês e o seu cachorro-quente. Mas amara por último, e para sempre, a figura miserável do gambá atropelado.
Imagem por Tembela Bohle via Pexels



