Jose (diminutivo de Joseane, nome que ela desprezava) voltava do trabalho a passos largos. Passos curtos seriam difíceis para suas pernas compridas. Ela caminhava confiante, com a graça natural de sempre, enquanto pensava na pergunta que a Fernanda lhe fizera no horário de almoço: “e aí, como é que vai a vida?”.
Jose sorriu para si mesma enquanto caminhava, imaginando que ninguém se pegaria pensando, muito mais tarde, numa pergunta assim tão banal.
Na opinião dela, a vida ia muito bem. Até que, olhando para trás, viu que um carro de vidros escuros a seguia.
Andou por mais trinta metros, até atravessar o cruzamento à sua frente. Então tornou a olhar para trás e viu o carro ainda lá.
Assim, soube que não era paranoia sua; estava sendo realmente seguida, e, ciente disso, os vidros escuros do carro a encheram de pavor.
Jose acelerou o passo e, pouco depois, acelerou mais um bocado. Olhou para trás mais uma vez e lá estava: o carro acelerara também.
“Ah meu santo Deus do céu”, disse em voz baixa.
Foi aí que ouviu o primeiro grito: “Ei!”, num tom mais de mandamento do que de cumprimento, e começou a correr sem pensar duas vezes.
“Ei!”, disse a voz mais uma vez. Mas Jose, agora, já ia longe. Tão longe e tãodepressa que o motorista, incapaz de avançar o trânsito, disse ao carona: “Eu te disse, rapaz, desse jeito a coisa não dá certo.”
O carona, ainda vendo a Jose que corria como um atleta, disse desiludido: “É foda”.
Leonardo, o carona, pediu ao motorista que parasse ao lado da lixeira mais próxima. Chegando lá, esticou o braço pela janela e atirou no lixo o buquê (eram as flores preferidas da Jose) que trazia no colo. Depois repetiu para o motorista, seu amigo paciente e de longa data: “É foda”.
Na sua opinião, a vida não ia nada bem, e mais uma rejeição da Jose só o deixara pior. Grande porcaria, como era difícil ser romântico à moda antiga no século XXI!
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