A arma que Marcela leva na mochila pertence ao seu pai. Sempre soube onde poderia encontrá-la porque o velho nunca escondera da família a existência do revólver, e confiava, há tempos, que a filha não tinha razões para usá-lo e nem viria a ter. Quanto a isso, estava enganado.
Marcela caminha em direção à escola, nessa manhã de sol forte e céu lavado, com a certeza de que, hoje, porá a própria vida — e a de quem a cerca — de pernas para o ar.
Há um mês sua então melhor amiga tratara de alertá-la sobre seu então namorado. Dissera a ela:
— Viu como o Fabiano anda estranho? Vocês estão tão distantes… Não acha que tem coisa aí?
Não achava, mas tendo ouvido a advertência começou a achar. Sondou Fabiano por três semanas, procurando desgrudar-se dele o mínimo possível, arranjando pretextos para estar com ele a todo momento, imaginando que o que quer que estivesse escondendo dela havia de aparecer enquanto estivesse ao lado dele. Passado o tempo e ainda infértil a investigação, preferiu o término a descobrir muito mais tarde os possíveis chifres.
Terminou com Fabiano sem lhe explicar nada. Dispensou-o com raiva, convencida por si mesma e pelas insinuações de Priscila (a amiga) de que ele a traía, mas sem mencionar para ele essa suspeita. Ele não compreendeu uma vírgula desse término abrupto e aparentemente sem razão. Uma semana depois, voltando da escola para casa, Marcela viu Priscila caminhando ao lado de Fabiano, as mãos dadas. Então, tudo ficou tão claro como podia para ela.
Chorou copiosamente em casa, deitada na cama. Gritou por mais de uma hora, imprecando contra a amiga — “piranha, piranha!” —, para desespero de sua mãe, que implorou para que ficasse quieta. Naquela noite, antes de dormir, resolveu que só havia uma maneira de ver-se em paz outra vez.
Hoje, o revólver do pai no fundo da mochila, sabe que esse gesto vai complicá-la por um longo tempo, mas não pode ser diferente. Chega à sua sala, senta-se, espera a professora. É dia de prova. Estão todos agitadiços e assustados. Quando recebem as provas, no entanto, silenciam de imediato, e se debruçam sobre esse famigerado algoz de papel.
Vendo todos já concentrados, reinando o silêncio na sala, Marcela leva a mão ao fundo da mochila. Grita:
— Ei!
E, ao seu grito, olham para ela. Todos, até mesmo a professora, não podem acreditar no que veem. Antes que comece a verdadeira balbúrdia, a gritaria infernal que superou em muito o volume do disparo, ela grita por Priscila:
— Você aí, ô, piranha!
Suas mãos tremem, ela toda treme. Ainda assim, consciente, naquele último segundo, de tudo o que virá depois, Marcela faz o que tem de fazer.
Vêm os gritos.
Imagem por Hoang Loc



