Maluca

maluca

Ele estava observando Lourdes da janela. De novo aquilo.

Ela já não podia mais sair, passear com o cachorro e parar por alguns minutos na praça do bairro que ele apareceria lá para observar.

Lourdes acariciou a cabeça do cachorro, Geraldo. Geraldo porque o ganhara de um Geraldo, e chamara tanto o cão por aquele nome nas primeiras semanas que acabara pegando. Lourdes gostava da companhia de Geraldo. Talvez fosse a única criatura que não a achasse estranha ou que não preferisse encará-la em vez de se aproximar e interagir dignamente.

A forma como todos a encaravam começara a incomodar Lourdes. Há algum tempo, mais profundamente. Uma das figuras com que começara a antipatizar era aquele vizinho.

Alberto.

Alberto era tão apreciador do céu e das estrelas quanto ela era apreciadora de passeios com Geraldo. Lourdes vinha notando a forma como Alberto analisava as estrelas com aquele imenso telescópio ou luneta ou sei lá o quê (não conseguia se lembrar do termo correto) e achara a princípio muito interessante. Até que Alberto passara a interromper a observação do céu para encará-la sentada na pracinha do bairro, fazendo agrado na cabeça do cachorro.

Engraçado.

Mais um para chamá-la de maluca.

Olha aí, nem sai de casa. Só vejo andando com esse diabo de cachorro.

Eles não sabiam que ela sabia, mas ela sabia sim senhor.

Especulações.

Isso era o que eles faziam e era o que ela odiava.

Lourdes tentara, por algum tempo, se convencer de que não se importava. Não havia problema em dizerem que era maluca porque não era maluca coisa nenhuma. O bêbado que descia a rua agora, por exemplo, era mil vezes pior do que ela. Alguém por acaso já a vira mandar o próprio vento tomar em lugares sujos e indizíveis? Falar sozinho sim era coisa de doido. Sair pouco de casa, não.

Tinha como exemplo sua própria mãe. Mulher fervorosa, devotíssima, que Deus a tivesse. Só saía de casa para ir à missa. Ainda assim, criara-a com muito esmero, dando-lhe do bom e do melhor dentro de suas condições.

E era maluca, por acaso?

Não. Apenas caseira. Diferente da filha, inclusive, não tivera cachorro algum para acompanhá-la — nem cachorro, nem gente. O pai de Lourdes morrera quando a garota era ainda muito nova — e por isso a mãe a advertira a ficar longe de bares e garrafas com demônio dentro (embora, naquela idade, Lourdes não pudesse compreender bem essa expressão). Mas Lourdes obedecera, porque afinal fora o demônio em garrafa que matara seu pai, ah sim, Deus, aleluia.

E sua mãe era louca? Por lhe dar uma advertência tão importante?

Impossível.

Lourdes lançou mais um olhar duro a Alberto, que ainda a encarava de seu terraço, atrás do telescópio. Puxou a coleira de Geraldo e levantou-se. Começou a andar no passo de sempre, como se apostasse corrida com o homem mais lento do mundo. Não ficaria sentada naquela pracinha deixando-se encarar por aquele velho.

Caminhou até o portão de casa e abriu-o.

Os gritos começaram assim que o ferrolho do portão girou. Maldito ferrolho rangedor, que Deus o atingisse com uma praga das fortes, como aquelas do Egito.

Quando se aproximou da porta, o volume dos gritos já havia dobrado.

Lourdes girou a chave. Entrou.

Sorriu porque dentro de sua casa ninguém podia encará-la como se fosse louca, porque ela não era louca.

Dona Lourdes!

BLAM. BLAM. BLAM.

Três golpes fortes na porta da despensa. Soaram abafados, mas ela sabia que poderiam danificá-la.

Ah, os infiéis.

Sabe, especificamente aquilo era muito engraçado. Estranho como ninguém dera falta do moleque. Ela concordava que também não daria falta de um pagãozinho atrevido.

BLAM BLAM BLAM.

Dona Lourdes! DONA LOURDES! POR FAVOR!

Ha-ha, ela estava sentindo muita pena. Sorriu com a própria ironia. Então o pagãozinho achara mesmo que podia invadir seu quintal para apanhar aquela merda de bola murcha, depois chamá-la de louca, depois zombar de sua fé enquanto tentava pular o muro?

Ela era velha (velha carola, maluca!, sua mente ainda repetia a voz do pivete), mas não era tão lenta. Nem o infielzinho tão rápido.

Ela o pegara pelo pé e o dominara e o empurrara para dentro da despensa. Trancado. Encarcerado. Só um tempo até ele repensar o que tinha feito.

Como gostava de ouvi-lo gritar.

Bem, ele a chamara de maluca. M-a-l-u-c-a. Inconcebível. Imperdoável. Ela passeava com Geraldo todo dia, dava canjiquinha aos pássaros, ia à missa, rezava terço. Isso era coisa de gente maluca?

Geraldo quase latiu para o armário (ele devia sentir o cheiro do paganismo, Lourdes pensou), mas ela o distraiu chacoalhando o pote de ração.

Geraldo sentou-se para comer aos pés da poltrona, onde Lourdes relaxava. O (Deus o perdoasse) ateuzinho começou a choramingar dentro do armário. Lourdes ligou a TV. Geraldo parecia fazer barulho demais para mastigar a ração. Ótimo.

Estava passando Caldeirão do Huck. Lourdes ficou assistindo, sorridente, pensando em justiça divina e carros reformados.

Maluca, vê só.

Essa gente inventa cada coisa.

Imagem por Kat Smith via Pexels

Leia também

Junte-se à gente.

Receba trechos de grandes livros e áudios semanais sobre leitura e literatura no seu telefone, via Telegram.
Carteiro

Uma newsletter literária.

Um e-mail por mês para deixar você a par de tudo.
Este site é protegido pelo Google reCAPTCHA; aplicam-se a Política de privacidade e os Termos de serviço do Google. Ao prosseguir, você também concorda com os Termos de uso e Política de privacidade do site.