Vencendo o medo

olhos apreensivos

Aos cinco anos, via o vizinho passear com o cachorro enorme e foi em direção ao animal para lhe fazer carinho. A mãe, indo ao seu lado, imediatamente o puxou para junto de si e disse:

— Tá doido, menino? Se você encosta a mão nesse bicho, ele arranca seu braço fora.

Viu surgir, então, de um lugar que jamais identificou, um velho cínico que lhe perguntou em segredo:

— Você já viu um braço sendo arrancado, meu filho?

Fez que não com a cabeça, e com isso o velho o fez enxergar, com os olhos da sua própria mente inexperiente de criança, um braço de menino sendo levado pela boca do cachorro. Essa imagem, embora ainda vaga e extraordinária para o seu pensamento, deixou-o paralisado de pavor. Depois, começou a chorar compulsivamente agarrando-se às pernas da mãe.

— Não deixa ele arrancar meu braço, mãe! Não deixa!

E a mãe, estarrecida com a reação:

— Também não é pra tanto, abençoado!

Depois desse episódio, foi visitado vez após a outra pelo velho cínico, que, aparentemente, só se mostrava para ele. Aos onze anos, o velho o impediu de revidar um tapa no rosto, desferido por um garoto ainda mais mirrado do que a vítima:

— Olhe bem o tamanho desse rapaz que te deu o tapa. Você acha que consegue se dar bem numa briga com ele? Não, não, não seja ingênuo. A raiva passa, vergonha passa, fique aí quietinho.

Aos quinze, foi impedido de mostrar a quem quer que fosse, inclusive aos próprios pais, as tímidas poesias que escrevia. Quanto a estas, o velho o advertiu muito convicto:

— Não, senhor, estas poesias não. Se mostrar a alguém, vão dar é risada. Guarde pra você, meu filho, ou então jogue fora, o que é até melhor. Pense na humilhação, pense nas gargalhadas. Me escute: deixe isso de ser poeta de lado.

Tanta permissão deu àquele senhor presunçoso que, aos vinte anos, achava-o seu amigo. Podia até mesmo dispensar as suas advertências, tão ciente que estava de como seriam. Livrava-se de possíveis desastres, tragédias, catástrofes, com uma naturalidade incomparável, e seguia distante de todos, avesso a festas e à bebida, às interações sociais, falando apenas o suficiente para evitar uma possível gafe. Nas aulas, nunca respondia às perguntas dos professores, diante da probabilidade do erro terrível. Evitava, inclusive e especialmente, os esportes, sabendo que alguma lesão permanente o esperava atrás daqueles saltos, dribles ou braçadas.

Sua cautela só foi ameaçada quando, aos vinte e três, apanhou uma borracha do chão da sala de estudos para uma das colegas de turma.

— Pega pra mim, meu bem? — ela lhe perguntou, apontando para baixo.

Ficou calado, assentiu com a cabeça, abaixou-se para pegar. Entregou a ela com um esboço de sorriso, um sorriso de boca fechada, desde há muito advertido pelo velho para não mostrar os dentes — certamente uns dentes horrorosos…

Quando os dedos dela tocaram os seus, porém, estremeceu de leve. Olhou a moça nos olhos por um tempo curtíssimo, para que ela não percebesse que olhava, e soltou a borracha na mão delicada.

— Obrigada — ela disse.

Ele assentiu com a cabeça.

Por toda a semana seguinte, ficou pensando: azuis. Os olhos da moça, a moça da borracha, eram espantosamente azuis. Um azul claríssimo, cor de céu limpo em dia quente, que ele jamais vira em olho algum — até por evitar olhar nos olhos de quem quer que fosse. Pensava também naquela meiguice bem-educada: “meu bem”, “obrigada”, e o sorriso muito aberto de simpatia. Ficou, daquela semana em diante, obcecado pala moça da borracha.

Cumprimentava-a com o mesmo sorriso fechado de sempre, mas não tão acanhado, e sim cordial. Sentava-se mais perto dela, na esperança de que mais uma vez a borracha caísse e que fosse ele o felizardo a apanhá-la, para ver outra vez aqueles olhos azuis, azuis. Inconscientemente, acompanhou a moça de perto e de longe, e, quanto mais se julgava próximo dela, mais e mais pensava a seu respeito.

Um dia, chegou à conclusão de que teria que dizer a ela o que sentia, com todas as letras.

Na sua primeira tentativa, depois do fim das aulas, viu surgir o velho. Vinha dizendo:

— Meu filho, você já é um rapaz, sabe bem onde está se metendo. Olhe para a cara dessa moça, e agora olhe para você. Se tentar algum passo arriscado vai acabar passando por ridículo. Isso de declaração é pra gente bonita, confiante, vê lá se você faz o tipo!

Foi convencido pelo velho, mas ainda assim não deixou de pensar na moça e nos olhos. Sonhou com ela naquela mesma noite, e acordou amargando a própria inércia. O que lhe custaria? Dizer umas poucas palavras, esperar uma resposta, não podia ser assim doloroso. Comprometeu-se a pôr os pingos nos is naquele dia, e foi à faculdade firme no seu propósito.

Pela segunda vez, não conseguiu. Ia estendendo a mão para tocar na moça quando ela andava à sua frente, já na saída. Antes que a tocasse, porém, o velho conteve o seu braço:

— Meu filho, quantas vezes vou ter que dizer? Você vai ser motivo de piada para essa faculdade inteira. Não adianta, o que te espera é um desastre. Imagine o quanto a moça vai caçoar da sua cara. Não, deixe esse braço quieto, vá pra casa…

Foi. Com lágrimas de uma raiva absurda contra si mesmo, uma fúria sem tamanho contra o velho, mas foi.

Outra vez sonhou com a moça, e até no sonho ele a perdia. Ela o olhava apaixonada, esperando uma palavra de ternura, e ele não dizia nada. Com o seu silêncio, a moça se apagava e apagava, e apagou-se até desaparecer.

Acordou frustrado e furioso. Comeu, fez as lições, correu à tarde, tudo com um ímpeto desconhecido. Foi à faculdade pulsando de tensão, louco.

Na saída, ergueu de novo o braço para tocá-la. Quando viu surgir o velho, apressado para impedi-lo, “Meu filho, de novo isso?”, gritou para ele:

— O senhor que vá pra puta que o pariu!

E o expulsou a socos e pontapés, sem nenhuma piedade e para sempre, mandando-o voltar para o lugar de onde tivesse vindo. Largou-o no chão, deixou-o para trás estrebuchando de dor. Depois ergueu o braço novamente para a moça, e dessa vez chamou-a pelo nome:

— Maria…

Ela se virou, sem pressa, e sorriu ao vê-lo. O sorriso e os olhos, aqueles olhos do azul mais lindo, eram desde já a sua vitória.

Imagem por samer daboul via Pexels

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