Estive pensando em um monte de coisas antes de dormir. Engraçado, estou sempre com um tanto de coisas na cabeça, antes de dormir não poderia ser de outro jeito. É comum que eu não consiga pegar no sono por conta disso. Minha cabeça continua trabalhando em assuntos ruins, são sempre assuntos ruins e desagradáveis e sempre penso neles com remorso ou angústia.
Nesse dia em particular dormi mal e pouco. Às 4 da manhã despertei de um sono intermitente. Babo muito quando durmo mal, acordo numa poça de saliva. Fiquei parado, pensando: imite uma pedra que dá certo, e pedi ao sono: venha por favor. Se ele não viesse viriam as coisas ruins, e aí eu teria de pensar nelas até que todo pensamento a respeito delas se esgotasse. Venha por favor, fiquei pedindo.
Às seis me obriguei a levantar. Não ia dar certo, de qualquer forma. Ouvi dois sujeitos rindo na rua. Rindo alto. Fui à janela e vi que um deles tinha uma pedra numa mão e estalava os dedos da outra, chamando o Sedex.
Da janela bradei: Amigo se você encostar a mão nesse cachorro vou ter que te quebrar na porrada seu filho da puta.
Não podia dizer que estivesse irritado antes de olhar pela janela. Agora estava. Insônia não me faz perder a calma há muito tempo. Um sujeito prestes a apedrejar um cachorro faz.
Sedex é o cão de rua de quem cuido, chamei-o de Sedex porque apareceu com um carteiro e nunca mais deixou esta rua. Sedex rosnava pros dois.
O sujeito livrou-se da pedra e respondeu: Esse cachorro é do senhor?
É.
Estava avançando no meu colega aqui.
Que se foda. Pode sair de perto.
O sujeito então endireitou-se e foi saindo de fininho.
Me desculpe, ele disse, em voz baixa, contrafeito, escroto.
O segundo cara já tinha se mandado há algum tempo, eu não havia visto. Um covarde e mais outro. Voltei pra cama. Não me pergunte por quê. Não daria certo. Não deu.
Vinte minutos depois me levantei de novo, a cabeça latejando levemente. Às vezes desperto experimentando um torpor agradável nesta velha cabeça de velho. Aquele não era agradável, era ruim como a minha insônia ou como quem joga pedra em cachorro.
Fui à padaria. Sempre compro cinco pães. Faço isso desde que fui casado. Continuo comprando cinco pães, ainda que não haja mulher alguma do meu lado quando acordo.
Quando estendi o dinheiro à moça do balcão ouvi alguém entrar na padaria, virei pra ver. Era o apedrejador. Vinha cabisbaixo, arrependido. O que alguns minutos de reflexão não fazem.
O senhor queira me desculpar, ele foi dizendo, me estendendo a mão. Hesitei por um tempo e então a apertei. Não fazia mal. Não faz mal, eu disse. Acordei de cabeça quente e não gostei muito do que vi.
Não era a minha intenção fazer nada com o cachorro do senhor.
Tudo bem, meu filho, eu disse. Compreendia o que ele dizia e o que omitia. Não precisava de qualquer explicação.
Você é o que podou a árvore da d. Matilde, não é? O podador. Te conheço, rapaz.
Sou sim, ele balançou a cabeça. Então prosseguiu: O senhor ficou sabendo? O irmão do Mário faleceu. Essa noite.
Impossível.
E não é? Eu ia cortar a árvore dele ontem de tarde, mas ele desmarcou comigo. Deixou pra hoje de manhã. O irmão morreu no meio da noite, fui até a casa do Mário pra ver. Uma tristeza, vir do Rio e morrer aqui bem na casa do irmão.
Concordei. Mas que merda.
Então fui à casa do Mário com o podador e prestei minhas condolências ao irmão do falecido. Os pães esfriando na sacola.
O defunto era um senhor alto de impressionantes olhos azuis. Vinha do Rio visitar Mário, seu irmão, vez ou outra. Morreu recurvado na cama, uma das pernas de fora, agora me pergunte como vão pôr o infeliz num caixão. Sabe como vão fazer? Vão quebrá-lo inteiro. É assim que fazem. É o que dá pra se fazer.
Deixei o podador conversando com Mário, despedi-me dos vizinhos que começavam a superpovoar a casa. Tem menos pesar do que curiosidade nesse comportamento, consegue me entender. O que todas essas pessoas dirão às outras pessoas que encontrarem pela manhã não é: infelizmente o irmão do Mário faleceu, mas sim: fui à casa do Mário porque o irmão dele faleceu. Todas elas, as pessoas, só querem dizer que estiveram lá. Não sei qual é a grande graça. Na verdade, não há graça alguma ou sentido algum nisso. Por isso prefiro cães, se me permite a sinceridade. Cães fazem coisas imbecis porque não pensam. Nós pensamos e fazemos, às vezes pensamos só pra fazê-las. Vide o podador-apedrejador. Consegue me explicar essa atitude? Nem eu.
Voltei pra casa. Comi dois pães com manteiga. Então desci e renovei a água do Sedex e dei-lhe um dos pães. Os outros dois pães talvez eu também lhe dê. Sentei-me na calçada ao lado do cachorro. Acariciei sua cabeça e pensei, mais uma vez, por mais um dia, Deus, não faça questão.
Estou à disposição. Tudo que tenho é um cachorro. A única criatura com algum significado.
Então não faça questão. Eu estarei pronto.
Subi as escadas e liguei a televisão. Sei, o que me dói admitir, é que envelheci rápido demais.
Imagem por Tim Savage via Pexels



