Pé na bunda do chefe

homem indicando tela de computador à mulher

Sentou-se na sua sucateada cadeira de rodinhas já sabendo que o pior viria.

O chefe tinha lhe comunicado, no dia anterior, que hoje não prepararia os mandados (como ele, bom funcionário, gostava de fazer), mas que estaria responsável por atender no balcão. Ele até mesmo tentou iniciar um protesto:

— Mas eu…

— Calma, Albertinho — disse o chefe —, precisamos de você no balcão só por esse dia. E também não é nada de mais. Você tira de letra.

Ele vasculhou a própria mente, enquanto o chefe falava, à procura do momento em que dera abertura para que o chamassem de Albertinho. Albertinho é o cacete, pensou em seguida, veja bem, eu sou um analista judiciário. Alguma seriedade este lugar tem que ter. Quis argumentar com o chefe, mas achou melhor deixar a coisa assumir o curso que quisesse. Estava farto de se indispor; então mastigou o próprio ressentimento e foi para casa imaginando como poderia atender no balcão com um temperamento como o que tinha.

Ainda pensava na tarde anterior quando a primeira mulher surgiu à sua frente, do outro lado da bancada.

— Eu quero saber como é que tá o andamento do meu processo.

Examinou por um instante a expressão da mulher e lhe disse: boa tarde.

— Boa tarde — ela resmungou.

— A senhora tem o número do seu processo?

— Não tenho não senhor, porque primeiramente saber número de processo é função de vocês.

Ele percebeu que seu lábio inferior estava pendendo; lembrou-se, estupidamente, por um segundo, de sua mãe lhe dizendo “fecha essa boca, menino! Você tem problema?”. Pois era essa a sua reação quando via ou ouvia algo absurdo: seu rosto desarmava e logo ele estava de boca aberta, como um tonto. Sentiu como se a frase da mulher o tivesse transportado para outro mundo; na verdade, nem podia acreditar no que acabara de ouvir.

— O-oi? — gaguejou.

— Uai, e não é isso mesmo? Meu processo tá fazendo aniversário com vocês. Venho aqui todo mês e continua parado… Já era pra todo mundo aqui saber o número de cabeça.

Ele se empertigou na cadeira como se isso pudesse lhe devolver a lucidez.

— A senhora pode me falar o seu nome? Consigo achar o processo por ele.

Ela, a princípio, não disse coisa nenhuma. Encarou-o o máximo de tempo que pôde, e os olhos dela eram apertados e insolentes como os de toda mulher encrenqueira de meia-idade. Ele tentou fitá-la sem desviar os olhos, mas não conseguiu. Ela o desconcertava, e isso queria dizer que ele é quem sairia perdendo.

— Maria Augusta — ela disse, depois do que lhe pareceu uma eternidade.

— Maria Augusta de quê?

Ela sorriu desdenhando, dizendo:

— Pergunta pro seu chefe.

Ele passou a mão pelos cabelos e correu os olhos pelo que havia sobre a mesa: o grampeador, a caneta. O teclado do computador. Quis atirar algo na mulher, uma coisa qualquer que pudesse matá-la. Claro: pelo menos isso ele podia fazer. O que ela estava pensando, que ele era de gelo? Eu pareço feito de gelo?, quis perguntar a ela. Pareço inabalável? Porque a senhora parece estar querendo descobrir o meu limite. É isso. Até que ponto um infeliz pode ser sacaneado. Pois sabe o que eu vou fazer?

Desabotoou o pescoço da gola polo enquanto tomava ar; depois, gritou para os fundos da sala:

— Josias!

O nome do chefe. Em nenhuma circunstância gostava de dizê-lo; ainda mais agora, quando o chamava como um filho que implora pela mãe no meio da noite.

— Fala, Albertinho — disse o Josias, vindo até ele.

Olhou bem para o rosto do Josias. O diretor de secretaria, pensou, e um completo idiota. Olha só: meus parabéns. Um homem que me chama de Albertinho repetidamente e sem a menor vergonha na cara.

— Essa senhora não quer me dizer o nome dela — disse isso com toda a seriedade que podia, mas não deixou de soar como um garotinho resmungão. E sentiu-se, portanto, ainda mais ridículo.

O Josias aproximou-se da barreira de vidro para perguntar à mulher:

— O que o Albertinho não pôde fazer pela senhora?

Mas a pergunta, essa pergunta em específico, estava acima da capacidade de um analista de engolir as intransigências de um mau chefe. O Albertinho (com o perdão da palavra) se levantou de repente e, quando deu por si, estava esmurrando o Josias. Socou-o até derrubá-lo, e, quando o chefe caiu, começou a chutá-lo. A senhora Maria Augusta Não-sei-das-quantas o observava, do outro lado do balcão, como se visse um animal. E os estagiários abriram as bocas, mas não se levantaram para tentar salvar o chefe, talvez porque quisessem fazer o mesmo a ele e até então não tivessem podido.

Quando a fúria esfriou, olhou em torno e viu os rostos assustados. Olhou para o Josias, e só aí percebeu como este gritava. Estranho: enquanto o espancava não ouvira grito nenhum. Tá aí, pensou, divertindo-se, a raiva é cega, mas é surda também.

Saiu do prédio sem qualquer peso na consciência, e à noite, antes de contar a situação toda à esposa, procurou se informar sobre os gastos que teria para montar uma empresa. Era isso: tinha de ser um empresário, um visionário. Um homem que só recebe ordens de si mesmo.

Imaginou, porém, a canseira que o processo administrativo lhe daria, e a surra no chefe já não lhe pareceu tão bonita. A exoneração…

Ah, que se foda, pensou.

Empreendedor. É isso o que eu sou.

Porque, com o primeiro soco, o cargo público já era coisa do passado.

Imagem por rawpixel.com via Pexels

Leia também

Junte-se à gente.

Receba trechos de grandes livros e áudios semanais sobre leitura e literatura no seu telefone, via Telegram.
Carteiro

Uma newsletter literária.

Um e-mail por mês para deixar você a par de tudo.
Este site é protegido pelo Google reCAPTCHA; aplicam-se a Política de privacidade e os Termos de serviço do Google. Ao prosseguir, você também concorda com os Termos de uso e Política de privacidade do site.