Ao mastigar, ele estalava a língua. Não importava o que estivesse mastigando, logo vinham os sons: tsc, tsc, tsc. E ela não se lembrava de ter reparado nesse detalhe em algum outro momento; foi naquela semana, durante o jantar de segunda-feira, que se deu conta. E, no meio da refeição, aquilo a irritou profundamente.
— Amor, por favor, mastiga de boca fechada.
Ele olhou para a mulher como uma criança que recebe uma bofetada sem razão.
— Mas eu estou mastigando, meu bem. Qual é o problema?
— O problema é esse barulho. Tsc, tsc, tsc. Que coisa horrível essa estalação de língua.
Ele parou de mastigar no mesmo momento e engoliu. Fitou-a com os olhos baixos, tentando compreender aquela crítica. E ela se encheu de pena, porque talvez nem ele mesmo percebesse como comia. Mas não havia outra solução: tinha que dizer a ele; o som era…
— Tudo bem, querida. Sem problema. Eu… vou prestar mais atenção.
Tendo dito isso, ele ergueu o copo de água e bebeu. Da mesma maneira, fazia barulho demais ao sugar a água, e o som da sucção incomodava a esposa ainda mais do que os estalos de língua ao comer. Não bastasse isso, ele também fazia mais barulho do que o esperado ao engolir o que bebia, e arrematava cada gole com um “aaah” extasiado.
Ela massageou as têmporas e olhou para o marido, sentindo em parte raiva e, em parte, pena dele. Os modos do homem à mesa eram como os de um garoto que está aprendendo a comer, ela pensou. E por acaso mudaria? Ele estava ficando velho; ela se espantava com quanto o marido envelhecera naqueles últimos meses, como se a idade tivesse resolvido se abater sobre ele de repente e com muita força. E por acaso um velho muda seu jeito de comer ou beber água?
A mastigação, o jeito de beber, a excentricidade, até mesmo o pum debaixo do cobertor: tudo aquilo começou a parecer, para ela, um conjunto de características com que ela nunca planejou ter que lidar. Isso, é claro, a fazia pensar que o marido também não era o homem com quem planejara ter que lidar. Se parasse para analisar como o casamento começara, fora tudo tão rápido e emotivo… E o planejamento, a atenção para aquelas particularidades, nunca tinha de fato acontecido. E…
Ah, meu Deus, ela pensou, quando ele se levantou da mesa, beijou-a na testa (com a boca toda engordurada!, sua mente apitou) e foi lavar o próprio prato. Se ela já não conseguia ver beleza nos gestos dele, se não conseguia apreciar o que o marido fazia só porque era ele quem o fazia, então…
Deixou a primeira lágrima correr, silenciosa e calmamente, pensando que aquele era o começo do longo e tortuoso caminho para um fim inevitável.


