Como ler livros (1972)

Como ler livros (1972)

Manual best-seller de leitura de Mortimer Adler e Charles Van Doren
Neste artigo

Ler não é tão fácil quanto parece. Para entender uma frase como esta, por exemplo, você está combinando muitas fontes de conhecimento1, ainda que não se dê conta disso. Curiosamente, apesar da complexidade da tarefa, não costumamos receber muito preparo para além dos níveis mais básicos de leitura. Se é assim, como ter certeza de que lemos bem o bastante?

Este é o objetivo de Como ler livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren: ensinar a leitura que escolas e universidades não ensinam. Lançada em 1940, a obra rapidamente chegou à lista dos mais vendidos nos Estados Unidos e nela se manteve por mais de um ano. Reeditado em 1972, o manual não perdeu popularidade. Hoje, podemos considerá-lo um clássico na sua área e um dos melhores guias para o início de uma vida de estudos.

Outros autores já haviam se dedicado a empreitadas semelhantes. É o caso do medieval Hugo de São Vítor, com seu Didascálicon: sobre a arte de ler, e, há pouco mais de cem anos, do padre A. D. Sertillanges, autor de A vida intelectual. Embora esses e outros volumes abordem a leitura de diferentes perspectivas, antes de Adler e Doren o tema nunca fora tratado de forma tão ampla e metódica2.

No seu best-seller, os dois professores ensinam a ler desde narrativas, peças teatrais e poesia lírica a história, ciências e matemática. Sem exageros, estamos diante de um guia completo de leitura de ficção e não ficção. Vamos conhecê-lo?

O que é a leitura, segundo Mortimer Adler

Para Adler e Doren, a leitura é sempre uma atividade. Isto é, não existe algo como leitura passiva (como se tornou comum dizer em artigos e vídeos on-line), já que não podemos ler parados ou dormindo3. Segundo os autores, há na verdade leituras mais e menos ativas. Quanto mais ativa a leitura e mais exigente o leitor for consigo mesmo e com os livros, melhor.

As quatro perguntas básicas de uma leitura ativa

O melhor modo de ler ativamente é fazer perguntas durante a leitura, às quais nós mesmos devemos tentar responder. Não quaisquer perguntas: devem ser as “perguntas certas na ordem certa”4. Adler e Doren sugerem quatro perguntas básicas:

  • O livro fala sobre o quê? Descubra o tema do livro e a forma como o autor o expõe e organiza ao longo das páginas.
  • O que exatamente está sendo dito, e como? Identifique os termos, conceitos e argumentos que formam o raciocínio do escritor.
  • O livro é verdadeiro, no todo ou em parte? Responder às perguntas anteriores é um requisito para esta. Assim que entender o que leu, você deve formar um juízo de valor sobre o texto: é verdadeiro ou falso?
  • E daí? Examine a importância do que você acaba de aprender. Se o saldo da leitura foi positivo, reflita mais profundamente sobre seus novos conhecimentos.

Os três tipos de anotação

Em Como ler livros, as anotações recebem atenção especial. Segundo os autores, é por meio delas que tornamos o livro parte de nós e nos tornamos parte dele. Para a dupla, anotar é indispensável porque nos mantém despertos, exercita nossa expressão escrita e nos ajuda a memorizar o conteúdo da obra.

O lápis será o símbolo da vivacidade da sua leitura. […] A propriedade completa sobre o livro só se estabelecerá quando ele passar a fazer parte de você, e a melhor maneira de você fazer parte do livro — o que dá no mesmo — é escrevendo nele.5

As anotações que fazemos podem ser de três tipos: estruturais, conceituais e dialéticas. Em geral, o que determina a qual dos tipos cada anotação pertence é o nível de leitura que estamos exercitando.

  1. As anotações estruturais dizem respeito à estrutura do livro, mas não ao seu conteúdo (ou, melhor, não aos detalhes). São úteis para indicar que tipo de livro você está lendo (de que gênero é, por exemplo) e em que ordem o autor dispõe o tema ao longo dos capítulos.
  2. As anotações conceituais, comentários mais longos e analíticos, se concentram nos conceitos do autor (e seus). Como ele define os termos mais importantes da obra? Como você os entende? As explicações do escritor estão corretas? São importantes? As respostas que você der a essas perguntas são o que Adler e Doren chamam de anotações conceituais.
  3. Anotações dialéticas são as que fazemos quando comparamos diferentes obras. São as mais extensas e ricas (já que fazem referência a dois ou mais livros) e, por isso, precisam ser registradas à parte, num caderno ou no seu processador de texto favorito. Acadêmicos e estudiosos autodidatas são os que mais devem recorrer às anotações dialéticas.

Os quatro níveis de leitura

A divisão da leitura em quatro níveis — elementar, inspecional, analítica e sintópica6 — é a espinha dorsal de Como ler livros. Contribuição mais original e marcante de Adler para o guia, o esquema teórico organiza as partes e capítulos da obra. Seus não poucos desdobramentos atingem um nível de minúcia nunca antes visto no gênero dos manuais de leitura.

Para os autores, os níveis são cumulativos. Assim, a leitura elementar (mais básica) nunca é abandonada, mas englobada pela leitura inspecional e seguintes. Isso quer dizer que um leitor sintópico (mais avançado) não deixa de praticar a leitura típica de níveis inferiores, e sim que ele a executa com maestria. A teoria não nos obriga a abandonar uma maneira de ler para adotar outra possivelmente superior. Somos treinados a atingir o nível mais alto de sofisticação na leitura não para usá-lo sempre, mas para acessá-lo se quisermos ou precisarmos.

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A leitura elementar

A leitura elementar, o primeiro nível de leitura, corresponde à alfabetização básica. Podemos nos considerar leitores elementares quando superamos o analfabetismo, em geral nos primeiros anos escolares. Nesta etapa, a preocupação é entender o que as frases dizem no nível mais rudimentar.

Ao ler a frase “A mamãe comeu a maçã”, um leitor elementar cumpre sua missão se souber o que mamãe, maçã e o verbo comer querem dizer quando reunidos numa frase. Nenhuma compreensão além do sentido literal é exigida.

Mesmo dentro da leitura elementar, Adler e Doren enxergam outras quatro subdivisões, chamadas quatro estágios, correspondentes ao currículo da educação infantil então em prática:

  1. O primeiro estágio é a prontidão para a leitura, representado pelo maternal e a pré-escola. Neste estágio, a criança adquire prontidão física, intelectual, linguística e pessoal para receber a alfabetização básica.
  2. O segundo estágio é marcado pela leitura de materiais simples — para os autores, os típicos primeiros dois anos de uma criança média. Este é, por assim dizer, o “primeiro grau” de alfabetização, quando começamos a extrair sentido dos símbolos.
  3. O terceiro estágio envolve um ritmo acelerado de aquisição de vocabulário e um aumento da capacidade de intuir o sentido de palavras novas usando pistas contextuais. Esse estágio, aproximadamente a alfabetização funcional, equivaleria ao quarto ano do ensino fundamental.
  4. No quarto e último estágio, a criança desenvolve e aperfeiçoa as habilidades adquiridas. Agora, já no fim do ensino fundamental, ela passa a assimilar suas experiências literárias. Por isso, é comum considerá-la uma “leitora madura”.

Obviamente, Adler e Doren não enxergam essa “maturidade” como uma linha de chegada para os leitores. Na opinião dos dois, devemos aprimorar nossa habilidade de leitura constantemente, até o fim da vida — nesse caso, avançar para a leitura inspecional seria um bom primeiro passo.

A leitura inspecional

A leitura inspecional é um progresso quando comparada à leitura elementar, mas também está longe de uma análise profunda e minuciosa do livro. Seu objetivo, aliás, é simples: sondar a obra e lê-la por completo o mais rápido possível, para enxergá-la como um todo sem se perder em detalhes. Adler e Doren distinguem dois tipos de leitura inspecional: a sondagem sistemática e a leitura superficial.

A sondagem sistemática

A sondagem sistemática serve como uma espécie de triagem de livros. É por meio dela que você descobrirá se uma obra é mais ou menos exigente ou se é interessante o bastante para ser lida com cuidado mais tarde (tarefa, é claro, não obrigatória). Os autores sugerem seis exercícios para uma boa sondagem:

  1. Examinar a folha de rosto e o prefácio. Neles você obterá boas informações sobre o campo do saber em que o livro se insere, e, quase sempre, sobre sua origem, seu propósito e sua relevância.
  2. Examinar o sumário. Ele revela como o autor organizou os tópicos do assunto. Use-o para ganhar intimidade com a estrutura do livro. Adler e Doren sugerem lê-lo “como se fosse o mapa de uma viagem”7.
  3. Consultar o índice remissivo. Aqui estão os termos mais importantes da obra; vale a pena conhecê-los. Quanto mais referenciado um tópico, mais importância deveremos dar a ele durante a leitura.
  4. Ler a contracapa e a sobrecapa. Nelas, você encontrará uma sinopse da obra e, em geral, informações sobre o autor. Chegando até aqui, você já pode decidir se seguirá para uma leitura profunda ou deixará o livro de lado.
  5. Examinar os capítulos aparentemente mais importantes. Faça isso ainda que saiba pouco sobre o livro. Leia com atenção os resumos possivelmente existentes no início ou no fim dos capítulos.
  6. Folhear o livro. Leia alguns parágrafos e páginas tentando encontrar passagens importantes. Você também ganhará familiaridade com a estrutura e o conteúdo da obra, descobrindo se e onde há fotografias, tabelas, gráficos ou resumos. Além disso, os autores recomendam que leiamos as duas ou três páginas finais ou o epílogo (se o livro tiver um).

Para Adler e Doren, tudo isso deve ser feito rapidamente: a sondagem sistemática não deveria durar mais de uma hora8. Ao final dela, você deve ter um conhecimento considerável do livro e ser capaz de dizer a que “categoria” ele pertence.

A leitura superficial

Contrariando o senso comum, Como ler livros sugere que, finda a sondagem, leiamos o livro por completo (se quisermos), ignorando as partes difíceis. Nada de pesquisa ou longas reflexões. Apenas chegue o quanto antes às passagens que você consegue entender e forme uma visão global da obra.

Para Adler e Doren, a consulta a dicionários, enciclopédias, comentários e outros materiais de apoio antes da hora pode não só ser inútil, mas prejudicial à leitura. Segundo eles, quando nos detemos em pontos difíceis, perdemos de vista os pontos-chave de um livro.

Embrenhando-se nos trechos difíceis, você não conseguirá captar os pontos-chave da obra […]. Você se apegará às árvores sem se ater à floresta. Você não vai ler bem em nenhum nível.9

Isso não quer dizer que a obra incentive algo como a leitura dinâmica, por exemplo. Adler e Doren creem que um leitor qualificado deve saber ler em diferentes velocidades, de acordo com a complexidade de cada texto. Portanto, embora a leitura inspecional (de fato, uma pré-leitura) deva ser rápida, você não pode se preocupar em manter uma velocidade padronizada ao ler para compreender.

Encontramos uma lição semelhante em A arte de ler, de Émile Faguet. Na opinião do crítico literário francês, os livros de sentimento (expressão do autor para se referir às obras de ficção em geral) podem ser lidos menos devagar do que os livros de ideias (não ficção)10. Em outras palavras, não existe algo como um ritmo único ideal para toda leitura.

Como a compreensão profunda não é o objetivo deste nível, porém, tentar acelerar a leitura não é um problema. Para duplicar ou triplicar a velocidade em que lemos, o livro recomenda a varredura com dois dedos: junte dois dedos e, com eles, percorra cada linha de texto “um pouco mais rapidamente do que seus olhos estão acostumados a ler”11. Ao tentar acompanhar a velocidade da sua mão, você treinará seus olhos e mente a ler mais depressa.

Concluída a leitura inspecional, lembre-se de que você pode parar por aí, caso queira. Segundo Como ler livros, boa parte das obras não merece ser lida — algumas merecem apenas uma leitura rápida. Se você acredita que o livro em questão é digno de uma leitura cuidadosa, contudo, prepare-se para exercitar a leitura analítica.

Folha de rosto da primeira edição americana de ‘Como ler livros’ (1940)
Folha de rosto da primeira edição americana de ‘Como ler livros’ (1940) — Foto: Reprodução digitalmente aprimorada de Open Library

A leitura analítica

A leitura analítica e suas regras respondem por grande parte da fama de Como ler livros. Não é para menos: as “onze regras de leitura de Mortimer Adler” ocupam sete capítulos inteiros do guia — algo em torno de cem páginas. Para alguns, podem parecer intimidantes e mesmo impraticáveis em conjunto. Seja como for, o objetivo deste nível de leitura é a compreensão profunda, e o leitor não será poupado para atingi-la.

Descubra sobre o que é o livro

Os autores distribuíram as regras do terceiro nível de leitura ao longo de três estágios — o primeiro deles todo dedicado a identificar e tomar nota de sobre o que exatamente fala o livro. As quatro regras a seguir dizem respeito a essa etapa.

1ª regra: Saiba que tipo de livro você está lendo

Descubra o quanto antes o que você está lendo — no melhor cenário, antes de começar a ler. Em primeiro lugar, a obra é expositiva ou imaginativa?

  • Imaginativos, segundo Adler e Doren, são os livros de ficção, como romances, coletâneas de contos, peças e poemas épicos e líricos.
  • Expositivos são todos os livros que transmitem conhecimento. Eles consistem basicamente em teorias, hipóteses ou especulações que podemos considerar “verdadeiras”.

A partir daí, descubra também que tipo específico de conhecimento o livro transmite. Estamos falando de história, filosofia ou ciências? Cada área do saber tem seus métodos e pode exigir de nós diferentes habilidades de leitura. Prepare-se de acordo com a empreitada que tiver à frente.

Teoria ou prática?

Outra diferenciação importante é a que devemos estabelecer entre livros teóricos e práticos — a depender de qual deles estiver lendo, você também precisará adotar uma postura específica.

  • Obras teóricas investigam os motivos, princípios e características do objeto de estudo; costumam responder a perguntas como “o quê?” ou “por quê?”. Em livros teóricos, o conhecimento é um fim em si mesmo — você não precisa fazer nada assim que os tiver lido. Estudos de psicologia e história são, em geral, teóricos (mas há exceções).
  • Livros práticos, por outro lado, se preocupam com os objetivos e os modos de se fazer alguma coisa. Respondem a perguntas como “para quê?” ou “como?”. Depois de lê-los, você precisa seguir as regras ou princípios descritos na obra (se concordar com eles) e partir para a ação. O próprio Como ler livros, como todo manual ou guia, é um livro prático.

Livros teóricos ensinam o que é assim ou assado. Livros práticos ensinam como fazer algo que você quer ou pensa que deveria fazer.12

2ª regra: Resuma o livro em uma única frase ou parágrafo

Ao terminar uma leitura, você deve ser capaz de sintetizá-la em poucas palavras. Imagine que tenha de responder à pergunta “Sobre o que o livro fala, como um todo?” Adler e Doren recomendam que sua resposta caiba em uma única frase ou, no máximo, um parágrafo curto.

Explicar brevemente o livro para si mesmo ou outras pessoas é uma boa forma de saber se você deu conta do recado. Não deixe que o “sentimento de unidade” (como os autores o chamam) engane você. Traduza seu entendimento em palavras e você descobrirá se captou ou não a totalidade da obra.

3ª regra: Identifique e relacione as partes do livro em um esquema próprio

Enquanto a segunda regra diz respeito à unidade do livro, o objetivo da terceira é que o leitor perceba sua multiplicidade. Depois de resumir o “todo” de uma obra, você deve ser capaz de listar e relacionar cada uma de suas partes. Acima de tudo, repare em como elas se organizam para formar um conjunto coeso.

Os dois estudiosos também se referem à tarefa como delineamento.

[…] podemos cumprir a terceira regra dizendo assim: (1) O autor cumpre esse plano em cinco partes; a primeira parte é sobre isto, a segunda sobre aquilo, a terceira sobre aquilo outro, a quarta sobre outra coisa e a quinta sobre ainda outra coisa diferente; (2) A primeira dessas partes é dividida em três seções; a primeira considera X, a segunda Y e a terceira Z; (3) Na primeira seção da primeira parte, o autor expressa quatro pontos; o primeiro é A, o segundo é B, o terceiro é C e o quarto é D. E assim por diante.13

Embora a tarefa de explicar as partes, suas subpartes e as subpartes de suas subpartes pareça interminável, a dupla nos tranquiliza: na maioria dos casos, não precisaremos seguir perfeitamente a fórmula acima — já estará de bom tamanho se nos aproximarmos dela. Além disso, segundo eles, “nenhum livro merece um delineamento perfeito porque nenhum livro é perfeito”14.

4ª regra: Descubra os problemas que o autor tentou resolver

Livros são elaborados para responder a uma pergunta ou a um conjunto de perguntas. Quando o próprio autor não as revela, é você quem deve identificá-las. O objetivo, com isso, é compreender que problemas o livro tentou resolver. Conhecendo as perguntas que uma pessoa pode se fazer sobre qualquer tema, a tarefa não é das mais difíceis.

A depender do tipo de livro, o escritor pode ter tentando responder a perguntas teóricas ou práticas:

  • “Que tipo de coisa é?” “O que causou sua existência?” “A que propósitos serve?” “Quais são as consequências de sua existência?” “Como se comporta?”15 São exemplos de perguntas teóricas.
  • “Quais fins busca?” “Que passos devem ser tomados para atingir-se determinado objetivo, e em que ordem?” “Sob tais condições, qual a coisa certa a fazer, ou qual a melhor coisa a fazer?” São exemplos de perguntas práticas16.

A quarta regra encerra o primeiro estágio da leitura analítica. Agora, com uma visão clara da estrutura do livro e de seus objetivos, é hora de avançar para águas mais profundas.

Interprete o conteúdo

O segundo estágio da leitura analítica também abrange quatro regras. Nesta etapa, para compreender a mensagem do escritor em seus níveis menos superficiais, o leitor deve se familiarizar com elementos lógicos como os termos, as proposições e os argumentos.

Termos, proposições e argumentos são exclusividade dos livros de não ficção (como de história, filosofia e ciências em geral). Os conselhos aplicáveis a eles não são válidos para obras de ficção.

5ª regra: Chegue a um acordo com o autor

A partir de agora, nossa missão é encontrar as expressões aparentemente mais importantes de um texto: as palavras-chave. Em seguida, devemos descobrir com que significado foram empregadas. Ao descobri-los, poderemos, nas palavras de Adler e Doren, entrar em acordo com o autor.

Em livros de não ficção, marcados pelo rigor formal, cada palavra-chave só pode assumir um significado por vez. Uma palavra ou expressão empregada com um sentido definido é um termo. Graças a eles e aos seus sentidos bem delimitados, temos certeza de estar sempre “falando a mesma língua” que o autor de um livro.

Linha, plano e ângulo são, por exemplo, termos frequentes na obra do matemático Euclides. Do mesmo modo, trabalho, capital e câmbio são termos para Adam Smith, e seleção, gênero e adaptação, alguns dos usados por Darwin17.

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Uma mesma palavra pode representar muitos termos. É o caso de leitura (que, nos primeiros capítulos de Como ler livros, pode significar “qualquer leitura”, “leitura para entretenimento” ou “leitura para esclarecimento”, a depender do contexto.

Por outro lado, um único termo também pode ser expresso por palavras diferentes. Exemplos disso são esclarecimento e compreensão, que podem ser usadas indiferentemente com o sentido de “aumento do entendimento”18.

Embora essas sejam complicações inevitáveis, Adler e Doren fornecem uma série de conselhos que facilitam o reconhecimento das palavras-chave (e, logo, dos seus termos):

  • Alguns escritores dão ênfase explícita a algumas palavras, notando-as entre aspas ou em itálico. Eles também podem definir cuidadosamente os significados com que vão usá-las, o que deve chamar a sua atenção.
  • Fique atento(a) às palavras incômodas — não só às que você desconhece, mas às que foram usadas com sentidos pouco comuns. É provável que elas sejam as mais importantes, embora haja exceções.
  • Leve em conta o vocabulário técnico. Todas as áreas do conhecimento têm terminologias próprias, que não podemos negligenciar — como riqueza, na obra de Adam Smith, e espécie, na de Darwin19. Em boa parte dos casos, expressões típicas de um campo do saber são palavras-chave.
  • Em último caso, recorra ao contexto. Tente descobrir o significado das palavras que você não pôde entender com base no sentido das palavras que você já entendeu.

Mais do que “paciência e prática”, como dizem os autores20, encontrar e entender termos exige que leiamos com o máximo de atenção. Para a dupla de professores, marcar as palavras que não entendemos é, acima de tudo, fundamental para o sucesso da tarefa.

O leitor que não conseguir marcar as palavras que não entende estará fadado ao fracasso.21

6ª regra: Encontre as frases-chave e descubra o que elas propõem

Como ler livros se preocupa em diferenciar frases e proposições. Frases, segundo os autores, são unidades gramaticais (isto é, de linguagem). Proposições, por sua vez, são unidades lógicas (de pensamento ou conhecimento) contidas nas frases mais importantes de um texto: as frases-chave.

Adler e Doren compartilham uma série de conselhos para encontrar frases-chave, o primeiro passo para identificar proposições, mais facilmente:

  • Confira se no livro não há as frases grifadas pelo próprio autor, destacadas em seções à parte ou em fontes maiores.
  • Preste atenção aos trechos que você não entendeu. Releia passagens desafiadoras com atenção e tente identificar as partes que mais ofereceram dificuldade; elas podem ser as mais relevantes.
  • Siga a pista das palavras-chave, marcadas conforme a última regra. Mesmo que haja exceções, frases importantes costumam conter palavras importantes ou estar próximas a elas.

Tendo encontrado as frases-chave, ao analisá-las cuidadosamente você descobrirá proposições, as principais afirmações e negações de um livro. Também elementos lógicos, como os termos, elas nos permitem entender com mais detalhes o que um livro está dizendo.

  • Proposições são declarações de conhecimento ou opinião.
  • Não existem proposições interrogativas nem imperativas. Toda proposição é uma afirmação, como “Ler é aprender”22.
  • Para os autores, uma proposição é a resposta a uma das perguntas “lançadas pelo livro”.

Logo, apesar de frases conterem proposições, não se pode dizer que toda frase seja uma proposição. Isso significa, por exemplo, que uma frase simples pode conter uma proposição (como “Ler é aprender”) ou duas ou mais proposições (o que costuma ser raro). Uma frase complexa, por outro lado, pode conter várias proposições, algo relativamente comum, como no trecho de O príncipe analisado pelos autores:

Um príncipe tem de inspirar temor de tal maneira que, se ele não angariar amor, que evite o ódio; porque ele pode resistir muito bem sendo temido enquanto não for odiado, o que se dará na medida em que se abstenha da propriedade de seus cidadãos e de suas mulheres.23

Segundo Adler e Doren, embora a passagem contenha uma única frase, podemos extrair dela três proposições:

  1. Um príncipe precisa inspirar temor de modo que, não conseguindo ser amado, pelos menos não seja odiado.
  2. Enquanto o príncipe não for odiado, seu governo baseado em medo pode resistir.
  3. Quanto menos se apropriar dos pertences e mulheres dos cidadãos, menos um príncipe será odiado.

O exemplo demonstra a importância de examinar frases, especialmente as mais longas, com toda a concentração possível, visto que podem esconder mais do que imaginamos. A orientação dos professores é que estejamos sempre conscientes dos trechos que nos deixam “perplexos” e que pensemos mais profundamente sobre eles.

  • Ao encontrar uma proposição, tente expressá-la com palavras diferentes das do autor. Desse modo, a proposição “Nada atua, exceto o que é real” poderia se transformar em “O que não existe não pode fazer nada”.
  • Imagine um exemplo para o conteúdo da proposição. Um bom exemplo para “Nada atua, exceto o que é real” seria “uma possível chuva não pode fazer a grama crescer”24.

À medida que o livro avança, algumas proposições podem se unir para formar unidades lógicas ainda mais complexas e importantes: os argumentos.

7ª regra: Encontre os argumentos

Argumentos são formados por uma sequência de proposições. Como estruturas lógicas complexas, eles têm um começo e um fim: neles, algumas proposições assumem o papel de premissas e, outras, o de conclusões.

Infelizmente, argumentos não correspondem exatamente a uma unidade gramatical como, em boa parte dos casos, as palavras correspondem aos termos ou as frases às proposições.

Um argumento pode ser expresso em uma única frase longa e complexa, em muitas frases que formam parte de um parágrafo, em um parágrafo exato ou em muitos parágrafos (que às vezes se estendem por páginas).

Além disso, argumentos nem sempre são expostos na ordem lógica convencional. Usualmente, esperamos que alguém nos apresente um argumento partindo das premissas para chegar à conclusão. Muitos livros o fazem, mas uma parcela razoável deles revela ou recomenda uma conclusão e só depois fornece suas razões.

Em muitos casos, encontrar argumentos requer mais esforço do que identificar palavras e frases-chave. Como alguns escritores podem estendê-los ao longo de muitas páginas, é provável que você tenha de “construí-los” por conta própria, buscando enxergar conexões entre proposições relativamente distantes umas das outras. Como ler livros nos dá conselhos que facilitam a tarefa:

  • Em primeiro lugar, tente encontrar argumentos já destacados pelo autor. Há escritores que preferem resumir suas ideias ao final de capítulos, seções ou partes, bons lugares para encontrar argumentos sem grande esforço.
  • Se a primeira opção não estiver disponível, você realmente terá de “construí-los” por conta própria. Há duas formas de fazê-lo: [1] num papel à parte, escreva as proposições que encontrar até perceber que um argumento foi formado, ou, [2] nas margens das páginas do livro, numere as proposições que você encontrar de modo que os primeiros números indiquem as premissas, e os últimos, as conclusões.

A tarefa ainda pode parecer exigente, mas Adler e Doren afirmam que identificar argumentos é mais intuitivo do que parece. Com dedicação e paciência, é possível transformar o exercício num hábito.

A despeito de algumas experiências negativas, contudo, persistimos em nossa opinião de que a mente humana é tão naturalmente sensível aos argumentos quanto o olho é sensível às cores.25

Mortimer J. Adler, capa da revista Time de 17 de março de 1952

Mortimer J. Adler, capa da revista Time de 17 de março de 1952 — Foto: Reprodução de Time

8ª regra: Descubra as soluções do autor

Se você obedeceu à quarta regra e reconheceu as “perguntas” lançadas pelo livro, este é o momento de dizer se elas foram ou não respondidas. Depois de compreender profundamente o conteúdo da obra ao assimilar seus termos, proposições e argumentos, você está nas condições ideais para dar conta do encargo.

A quais das perguntas identificadas por você o autor respondeu? Ao respondê-las, surgiram outros problemas? O escritor fracassou em alguma resposta? Se sim, ele reconhece o próprio fracasso? Lembre-se de que um bom escritor e um bom leitor precisam saber se um problema foi resolvido ou não.

Chegando até aqui, você terá concluído o segundo estágio da leitura analítica. Finalmente, “poderá ter certeza de que conseguiu entender o livro”26. Mas não o devolva à estante, ainda: agora, você deve julgar o que leu.

Critique o conteúdo

No terceiro e último estágio da leitura analítica, devemos formar um juízo de valor sobre o que lemos. Isso pode soar arrogante ou precipitado para alguns, mas, de acordo com o manual, não é o caso.

Para Adler e Doren, “ler um livro é como conversar”27 — a fim de firmar o diálogo, não podemos deixar que o autor “fale sozinho”. Segundo a dupla, temos não só a oportunidade, mas a obrigação de responder à obra. A nona, décima e décima primeira regra, também chamadas de princípios da etiqueta intelectual28, contêm as indicações necessárias para cumprir a missão da melhor maneira.

9ª regra: Entenda o livro com segurança antes de criticá-lo

Para o senso comum, criticar significa necessariamente reprovar ou censurar algo; Adler e Doren pensam diferente. A seu ver, o leitor, ao julgar um livro, pode tanto discordar dele como concordar com ele. Curiosamente, abster-se de julgar também é considerada uma postura crítica válida.

Segundo o guia Como ler livros, as três posturas críticas diante de um livro são concordar, discordar ou abster-se de julgar.

Apesar disso, nenhuma delas pode ser exercida sem que tenhamos plena compreensão do que lemos. Assim, não manifeste sua opinião sobre uma leitura enquanto não puder dizer, com toda a certeza, que você a entendeu (isto é, que os dois primeiros estágios da leitura analítica foram cumpridos).

Além disso, há muitos autores cujo pensamento ocupa mais de uma obra. Nesses casos, emitir uma opinião justa sobre uma delas exige que tenhamos lido aquelas que guardam relação com o volume lido. Adler e Doren destacam que leitores que julgam a Crítica da razão pura sem ter lido a Crítica da razão prática (ambas de Kant), ou o Manifesto do Partido Comunista sem ter lido O capital (ambas de Marx) não têm condições de “concordar ou discordar de nada”29.

10ª regra: Ao discordar de um livro, evite o bate-boca

Se você discorda do autor, busque não transformar a controvérsia em uma disputa. Lembre-se de que você e ele não são adversários. A leitura só será enriquecedora se pudermos aprender algo verdadeiro com ela. Por outro lado, se a intenção for “vencer um debate”, estaremos fadados a não aprender nada.

Encare os desentendimentos como passíveis de resolução. Sempre há dois caminhos disponíveis para resolver atritos intelectuais: eliminar o desacordo e reduzir a ignorância. Em outras palavras, tenha certeza de que o que você entendeu é exatamente o que o autor quis dizer e que, antes de contradizê-lo, você detém todas as informações relevantes sobre o assunto. As duas posturas exigem paciência, mas garantem que o amor pelo conhecimento esteja sempre acima da paixão pela opinião.

Não leia para contradizer ou refutar; nem para crer ou acreditar piamente; nem para conversar ou debater; mas para pesar e ponderar.30
Francis Bacon

11ª regra: Justifique suas posições

Nem todas as discordâncias são passionais, porém. É legítimo discordar de um autor sobre certo ponto se o problema estiver no livro e não em você. Nessas situações, a décima primeira e última regra da leitura analítica exige que você sempre forneça as razões para criticar os problemas da obra.

Como ler livros lista os quatro comentários críticos que, em geral, podemos fazer sobre um livro do qual discordamos. Para cada um deles, você deve apresentar uma justificativa honesta e razoável:

  • Você está desinformado. Neste cenário, informações importantes sobre o assunto foram omitidas. Especifique o que está faltando, acrescentando os itens ausentes e demonstrando quão relevantes são para o texto.
  • Você está mal-informado. Baseadas em dados incorretos, as afirmações do autor são falsas. Corrija o problema expondo as informações verdadeiras extraídas de uma fonte confiável.
  • Você foi ilógico. O raciocínio do autor contém falácias lógicas, que você deve reconhecer e corrigir. Para Adler e Doren, as falácias podem ser agrupadas em dois grandes gêneros: os non sequitur, em que a conclusão não decorre exatamente das premissas, e as inconsistências, “quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si”31.
  • Sua exposição está incompleta. O autor não respondeu a uma das perguntas que lançou, não fez o melhor uso das informações disponíveis ou ignorou desdobramentos importantes do próprio raciocínio. Como nos últimos três comentários, não se limite a dizer que “o livro está incompleto”: esclareça os trechos inadequados por conta própria ou com a ajuda de outras obras.

Os comentários críticos acima não excluem uns aos outros — um livro pode padecer dos quatro problemas ao mesmo tempo. Indique-os sempre separadamente e somente se a falha afetar a exposição adequada do assunto e as conclusões principais do escritor.

Como proposta em Como ler livros, a leitura analítica pode parecer um ideal inalcançável. Poucos leitores se comprometem com todas as suas regras, e os que o fazem não costumam sustentar o esforço por muito tempo. Conscientes disso, os autores não exigem que sigamos seus conselhos à risca. Apesar disso, segundo eles, o leitor será tanto melhor quanto mais se aproximar do ideal proposto.

Ler analiticamente seguindo as instruções acima pode levar um bom tempo, mas a dupla de estudiosos recomenda que isso não nos incomode. Na sua opinião, ler muito é um propósito muito menos nobre do que ler bem.

O sujeito que leu muito, mas leu mal, deveria ser condenado, e não elogiado. Como dizia Thomas Hobbes, ‘Se eu lesse tantos livros quanto as demais pessoas leem, seria tão estúpido quanto elas’.32

Como usar materiais de apoio

Durante leituras exigentes, recorrer a materiais de apoio é válido e, às vezes, indispensável. Adler e Doren reconhecem a utilidade e relevância desses recursos, mas são muito cautelosos ao recomendá-los. Geralmente, acreditam, é melhor fazer todo o esforço possível por conta própria antes de buscar auxílio externo.

Os estudiosos distribuem os materiais de apoio em quatro categorias, sugerindo como tirar proveito de cada uma delas:

  1. Experiências relevantes. Divididas pelos autores em comuns e especiais, nossas experiências podem nos ajudar a entender melhor um livro. Experiências comuns são aquelas acessíveis a todos (ou amplamente conhecidas), como a vida em família e a educação. As experiências especiais, por sua vez, só podem ser acessadas mediante esforço e são, portanto, exclusivas de certos grupos; é o caso das experiências em laboratório. De acordo com o manual, a experiência comum é muito útil para os livros de ficção e de filosofia, largamente baseados em experiências universais. As experiências especiais, por outro lado, enriquecem a leitura de livros científicos. Ambas são úteis durante a leitura de livros de história, que combinam aspectos ficcionais e científicos. Recorrer a experiências pessoais para criar exemplos concretos dos conceitos de um livro é um bom modo de usá-las33.
  2. Outros livros. Buscar ajuda em outros livros é especialmente importante durante a leitura de obras clássicas. Como muitas delas guardam relação entre si e seguem uma ordem cronológica difícil de ignorar, procure lê-las de modo que as primeiras leituras tornem as seguintes mais fáceis e busque notar de que modo se conectam. Tenha em mente que esses conselhos se aplicam mais a obras de história e filosofia do que de ciências e literatura.
  3. Comentários e resumos. Recorra a comentários e resumos com prudência e raramente. Embora guias e manuais sejam muito úteis em alguns casos, também podem ser enganosos. Ainda que corretos, comentários podem ser incompletos e, se lidos antes do livro-alvo, podem limitar sua compreensão e enviesar sua leitura, fazendo com que você enxergue apenas o indicado pelo comentarista. Leia comentários de terceiros somente após ter lido o livro em vista. O mesmo conselho se aplica aos resumos e sinopses.
  4. Obras de referência. Para usar obras de referência, você deve ter ao menos uma vaga ideia do que quer saber, já que elas não têm por objetivo guiar os leitores. Também são fundamentais noções de como a obra está organizada e, portanto, onde encontrar o que você quer saber. Quanto aos dicionários, os autores não recomendam memorizar palavras avulsas como divertimento nem tratá-los como fontes superiores de conhecimento. Não consulte palavras desconhecidas e termos técnicos durante a primeira leitura de um livro, a menos que sejam determinantes para a compreensão geral da obra. Recorrer a enciclopédias também exige cautela. Ler os verbetes de qualquer uma delas em sequência é, segundo Adler e Doren, inútil. Para eles, é preciso não apenas consultar mais de uma enciclopédia, mas estar consciente das discordâncias entre elas. Siga as instruções de uso de cada coletânea (se houver), e, mais do que memorizar datas, locais e outros dados menores, busque perceber as ligações entre os fatos narrados34.
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Como ler livros práticos

Como você já sabe, obras de não ficção podem não ser apenas teóricas. No caso dos livros práticos, os problemas abordados pelo autor só podem ser solucionados com ação. Em outras palavras, você precisará transportar para o mundo real o que aprendeu nas páginas, seja o livro de regras, seja de princípios.

  • Livros de regras, entre os quais se encontra o próprio Como ler livros é um exemplo, oferecem principalmente obrigações, conselhos e outros tipos de recomendação para a realização de uma tarefa. Segundo Adler e Doren, há poucos livros de regras entre as grandes obras da humanidade.
  • Os livros de princípios, por sua vez, apresentam os preceitos nos quais as regras se fundamentam, sem expressar prescrições diretas. Para os autores, grande parte das maiores obras de política, economia e moral são livros de princípios.

A diferença entre os dois tipos de livros nem sempre é clara. A mesma obra pode conter princípios e regras, apesar de inevitavelmente pender para um dos lados. Além disso, princípios são quase sempre científicos (teóricos), o que pode nos fazer confundir livros de princípios até mesmo com obras teóricas. Nessas ocasiões, somente o progresso na leitura pode nos dizer exatamente o que estamos lendo — tenha paciência.

Independentemente de seu tipo, todo livro prático contém alguma “propaganda”. Para defender seu ponto de vista, o autor pode lançar mão de variados truques retóricos. De acordo com o guia, não há nada de errado nisso, desde que saibamos identificar a presença e os objetivos da propaganda e, assim, possamos “nos defender” dela.

Se você aprovou o conteúdo de um livro prático, prepare-se para pôr a mão na massa e alterar algo em sua vida.

Como ler livros de ficção

Ler histórias é uma arte à parte. Enquanto o objetivo das obras de não ficção é transmitir conhecimento, obras de literatura imaginativa (nome que Adler e Doren dão à ficção) buscam comunicar experiências. Se a não ficção apela sobretudo para o intelecto, a ficção apela em primeiro lugar para a imaginação. Assim, muitas das regras que conhecemos acima não se aplicam à leitura de narrativas.

Confira as regras negativas que Como ler livros apresenta em relação à leitura de histórias — tudo o que não devemos fazer ao ler literatura:

  1. Não resista ao apelo de uma obra literária. Deixe que o livro exerça influência sobre você e o(a) emocione, tornando-se parte da sua vida interior e transformando sua visão de mundo.
  2. Não busque termos, proposições ou argumentos. Termos, proposições e argumentos são elementos lógicos, não poéticos. Diferentemente da não ficção, marcada pela clareza e pelo rigor formal, a ficção é o reino da sugestão e das figuras de linguagem. Agora, boa parte do que o livro diz está nas entrelinhas.
  3. Não julgue histórias usando os critérios de verdade e coerência aplicáveis à não ficção. Segundo Adler e Doren, “a ‘verdade’ de uma boa narrativa é sua verossimilhança, sua probabilidade intrínseca ou plausibilidade”35. A narrativa precisa ser plausível dentro de seu próprio universo, mas não tem a obrigação de retratar a vida em sociedade com exatidão científica.

Além dos comportamentos a evitar, o manual também lista conselhos positivos para a leitura de narrativas. Veja o que, na opinião da obra, um leitor inteligente deve fazer enquanto lê ficção:

  • Classifique os livros por espécie. Embora romances, contos, peças e poemas estejam todos debaixo do “guarda-chuva” da ficção, você deve saber dizer, antes de começar uma leitura, exatamente qual deles vai ler.
  • Sintetize a obra em poucas frases. Para provar que apreendeu o livro como uma unidade, é ideal que você saiba expressar o enredo em um parágrafo curto.
  • Demonstre como o todo é composto pelas partes. Agora, especifique como as peças do quebra-cabeça narrativo se juntam para formar a imagem final. Com as próprias palavras, descreva como os eventos do enredo conduzem uns aos outros e ao desfecho da obra.
  • Tente apreciar o que está lendo. Antes de emitir sua opinião sobre o livro, esforce-se para desfrutar da leitura. Leia ativamente, mergulhando na experiência.
  • Julgue o livro pelo seu gosto. De acordo com seu gosto pessoal, exponha o que foi agradável ou desagradável na leitura e por quê.
  • Julgue o livro pelos méritos artísticos. Avalie o que há de bom ou mau na obra, objetivamente — suas virtudes e vícios artísticos próprios. Não confunda esse julgamento com o de gosto pessoal e, no mais, não se assuste com a tarefa. Com o tempo e a experiência, você desenvolverá a sensibilidade necessária para julgar mesmo as melhores obras.

[…] o bom gosto literário pode ser adquirido por qualquer pessoa que aprenda a ler.36

Charles Van Doren, professor universitário e colaborador de Mortimer Adler

Charles Van Doren, professor universitário e colaborador de Mortimer Adler — Foto: Reprodução de Rolling Stone

Como ler livros de história

Como ler livros sustenta a opinião de que a história se aproxima mais da ficção do que da ciência. Isso não quer dizer que os autores atribuam a historiadores a invenção de fatos. Na verdade, segundo os professores, isso ocorre porque, como a literatura, a história se preocupa com eventos concretos, que ocorrem num dado lugar em certo tempo, enquanto a ciência opera por meio de abstrações das quais se extraem regras e princípios gerais.

Adler e Doren alertam os leitores quanto à incerteza que ronda o que chamamos de fatos históricos. Para os dois, a primeira regra da leitura de livros de história é que, para entender um evento ou período, devemos ler mais de um relato sobre o assunto, consultando diferentes obras e autores. Quando não há fontes suficientes para comparação, é sensato admitir que as chances de chegar à verdade sobre o tema são pequenas.

Um fato histórico, ainda que sintamos certa confiança e solidez na palavra, é uma das coisas mais esquivas do mundo.37

A segunda regra é que, em vez de recorrer à história somente para saber o que houve em dado momento, seria ideal nos concentrarmos em reconhecer nela padrões de comportamento universais e, especialmente, aqueles que durem até hoje. Na opinião dos autores, você deve fazer a um livro de história as mesmas perguntas que faria a qualquer obra expositiva.

Como ler biografias e autobiografias

Biografias e autobiografias também não fogem à mira de Como ler livros. O manual lista as peculiaridades do gênero biográfico e sugere algumas precauções a seu respeito:

  1. As biografias definitivas, obras “finais, eruditas e exaustivas” sobre a vida de personalidades importantes, devem ser lidas como história.
  2. Biografias autorizadas, geralmente viabilizadas por familiares ou amigos do biografado, não são tão confiáveis como as definitivas. Ao lê-las, não se esqueça de que podem ser tendenciosas.
  3. Biografias comuns — nem definitivas, nem autorizadas — também não são confiáveis como as definitivas. Segundo Adler e Doren, no entanto, podem render ótimas leituras, como as biografias de John Donne e George Herbert escritas por seu amigo Izaak Walton.

As autobiografias são particularmente suspeitas, já que a vida de seus autores ainda está incompleta. Além disso, é sempre possível manter segredos e ilusões sobre si mesmo, o que prejudica a credibilidade da obra autobiográfica. Ainda assim, os professores aconselham que, para conhecer detalhadamente uma pessoa, leiamos o máximo de materiais disponíveis sobre ela — o que inclui sua autobiografia, caso exista.

Apesar de suas deficiências, biografias e autobiografias podem nos motivar positivamente, impulsionando mudanças bem-vindas em nosso comportamento e visão de mundo.

Como ler livros de ciências e de matemática

Ao falar sobre ciências e matemática, Como ler livros se refere apenas a dois grupos: aos “grandes clássicos científicos e matemáticos” e às obras de divulgação científica, evitando conselhos sobre o que os autores chamam de “monografias especializadas”. Adler e Doren justificam a limitação: em primeiro lugar, seria impossível orientar a todos em áreas específicas e, em segundo, os dois gêneros escolhidos se dirigem ao mesmo público-alvo de Como ler livros: nós, os leigos38.

Para os professores, a regra de leitura mais importante em relação às ciências e à matemática é: “Exponha o mais claramente possível o problema que o autor tentou resolver”. Na sua opinião, a responsabilidade de um leigo que lê obras científicas não é se tornar um mestre no tema, mas entender a história e a filosofia da ciência.

O guia considera livros científicos aqueles que relatam achados ou conclusões em uma dada área de estudo, sejam eles provenientes de experimentos laboratoriais ou de observações da natureza.

Infelizmente, as obras do gênero costumam oferecer duas dificuldades aos leitores: a primeira é conhecer os dados que serviram de suporte ao raciocínio do cientista; a segunda, o medo da matemática, acompanhado da expectativa de não conseguir lidar com textos da matéria39.

Conforme o manual, a segunda dificuldade não se justifica. Em defesa da disciplina, os autores argumentam que, embora a matemática, como toda linguagem, exija que conheçamos seu vocabulário, gramática e sintaxe específicos, não possui conotações emocionais, o que a torna sempre clara e precisa. Para eles, “a matemática pode ser bela e intelectualmente satisfatória”40.

Os professores recomendam que leiamos livros de matemática do início ao fim e, de preferência, sempre com um lápis à mão — agora, tomar notas nas margens ou em folhas à parte é ainda mais importante. Se a sua intenção, no entanto, for apenas ler publicações científicas que usam a matemática, o conselho é o oposto: pule as páginas muito exigentes em vez de enfrentá-las. Nesse caso, o seu dever não é dominar a matéria, mas somente entender o problema41.

Como ler livros de divulgação científica

Obras de divulgação científica, voltadas ao grande público, quase sempre nos apresentam as aplicações quotidianas de uma ciência. De linguagem geralmente acessível, elas evitam relatos detalhados de experiências e usam pouca matemática, o que nos afasta dos problemas causados pelas publicações científicas originais.

Por mais criteriosos que sejam, contudo, textos do gênero trazem um inconveniente: tornam-nos reféns da habilidade dos divulgadores ou jornalistas científicos que lemos. Se cairmos nas mãos de um escritor que tende a extrapolar conclusões ou omitir dados, por exemplo, será difícil contradizê-lo — a não ser que consultemos cuidadosamente suas fontes. Isso pode dar muito trabalho.

Apesar de mais fácil do que ler livros científicos propriamente ditos, ler divulgação científica não é tão simples quando ler narrativas. Ao lidar com o gênero, faça todo o esforço possível para sustentar uma leitura ativa.

Identifique o assunto. Perceba a relação entre o todo e as partes. Chegue a um acordo e descreva as proposições e os argumentos. Tente primeiro entender, para depois começar a criticar ou avaliar a importância da obra. A esta altura, essas regras são familiares. Mas aqui elas valem com mais força ainda.42

Como ler livros de filosofia

A filosofia, ocupada com as questões infantilmente simples que paramos de fazer ao chegar à idade adulta43, compreende duas grandes categorias. A primeira delas, a filosofia teórica ou especulativa, trata, obviamente, de questões especulativas e teóricas, como as relações entre existência e inexistência, o material e o imaterial e a natureza e os limites do conhecimento. A segunda, chamada filosofia normativa, se debruça sobre questões práticas — como os direitos e deveres, virtudes e vícios, a felicidade e o sentido da vida e a distinção entre bem e mal.

Segundo os autores, a filosofia também está dividida entre questões de primeira e de segunda ordem. Enquanto questões de primeira ordem dizem respeito ao mundo, ao que nele ocorre e aquilo a que devemos aspirar, questões de segunda ordem são as levantadas sobre o conhecimento de primeira ordem e sobre o que pensamos e expressamos quando tentamos responder àquelas questões [de primeira ordem].

O guia lamenta que grande parte das obras de filosofia, hoje pertencente ao último grupo, já não seja escrita para o público leigo. Humildemente, o manual adverte não ser capaz de orientar os leitores sobre livros modernos especializados em questões de segunda ordem. Mas um conselho fica de pé: nós devemos ler livros de primeira ordem, clássicos escritos para as plateias leigas.

Para Adler e Doren, nossa missão mais importante ao ler filosofia é identificar a questão ou questões que o autor tentou solucionar. Outras advertências relevantes sobre o gênero são as seguintes:

  • Ao ler filósofos clássicos, ignore os erros ou omissões sobre assuntos científicos. Volte sua atenção às questões filosóficas, tendo em mente que deslizes em ciências e história são de menor interesse no momento.
  • Esteja alerta quanto à incoerência do filósofo, um problema sério segundo Como ler livros. Caso o autor seja incoerente, identifique se o núcleo da sua mensagem está nas premissas ou nas conclusões, que provavelmente não guardarão relação entre si.
  • Dê o seu melhor para reconhecer os primeiros termos e proposições. Em filosofia, é comum que os autores extraiam seus termos da linguagem quotidiana, mas os empreguem com significados muito especiais. Descubra com que sentido as palavras comuns foram utilizadas ou corra o risco de não entender livros inteiros.
  • Não despreze os princípios do autor. Se houver alguma contradição entre os seus pressupostos e os do filósofo, aceite os que ele oferecer e veja aonde levam. Como dizem Adler e Doren, “fingir que você acredita em algo em que não acredita de verdade é um bom exercício mental”44.
  • Fuja de propagandistas. Um livro respeitável de filosofia teórica “não contém retórica nem propaganda”45.
  • Esteja a par da longa conversa travada entre os filósofos ao longo da história antes de emitir sua opinião sobre uma leitura filosófica.

Segundo a dupla de professores, o trabalho de qualquer leitor diante de um livro filosófico não vai muito além de lê-lo e pensar sobre ele — duas tarefas traiçoeiramente simples.

Assim que tivermos conhecido suficientemente uma obra (e isso inclui as leituras importantes conexas a ela), será o momento de formar uma opinião. Julgar o que lemos, para Adler e Doren, é algo que todos devemos fazer em relação às questões filosóficas46.

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Como ler livros de ciências sociais

Mesmo reconhecendo a dificuldade de conceituá-las, Adler e Doren arriscam uma delimitação das ciências sociais. Os estudiosos acreditam que a antropologia, a economia, a política e a sociologia formam como que o cerne da disciplina, como grande parte das obras de direito, educação, administração pública e parte da produção sobre administração, serviço social e psicologia47.

Ler textos de ciências sociais parece tarefa fácil, já que estamos acostumados ao seu jargão (a termos como alienação, status e Produto Nacional Bruto, por exemplo48) e suas questões estão inseridas em nosso quotidiano. Também por isso, não é incomum que tenhamos opiniões fortes sobre a matéria. Para Adler e Doren, porém, esses são obstáculos ao entendimento, uma vez que toda leitura analítica requer que nos afastemos de ideias prontas para questionar o que há no texto.

Classificar um livro de ciências sociais também pode ser desafiador. Responder à pergunta recomendada “Que tipo de livro é esse?” é especialmente difícil quando a obra em questão mistura ciências, filosofia e história, prática usual do gênero. A aparente confusão de matérias também pode alimentar outro problema: a falta de uma definição precisa dos termos pelo próprio autor.

Desafios à parte, se você for capaz de se desfazer dos preconceitos intelectuais, controlar a ânsia de discordar e precisar o significado dado pelo escritor aos principais termos do livro, ler ciências sociais será muito recompensador. Na dúvida, fique com as regras gerais da leitura analítica.

A leitura sintópica

Embora seu nome assuste os leitores mais impressionáveis, a leitura sintópica não é um bicho de sete cabeças. Para batizá-la, Adler combinou as raízes regras syn (indicativa de simultaneidade, como em “sincronia”) e topos (de “lugar”, ou, no caso, lugar das ideias, “tópico”). Assim, leitura sintópica é a leitura de dois ou mais livros sobre um mesmo assunto — uma “leitura comparativa”, ainda que mais sofisticada, como veremos.

A leitura sintópica também é o último dos quatro níveis de leitura concebidos pela dupla de autores. As leituras inspecional e analítica são consideradas importantes preparações para esta etapa.

Como executar um projeto de leitura sintópica

Antes de mais nada, Adler e Doren esperam que você tenha, ao longo de muitas leituras, criado interesse por um tópico especial, sobre o qual queira se debruçar com mais atenção — o exemplo dado pelos professores é o de um tema vastamente debatido: a ideia de “amor”.

Com o assunto em mente, o próximo “passo preliminar” é a seleção de uma bibliografia. Você pode reuni-la recorrendo diretamente a um orientador, vasculhando bibliotecas ou pescando obras entre as referências de “um bom trabalho acadêmico” sobre a matéria49.

Em seguida, inspecione (siga os passos da leitura inspecional em relação a) todos os livros da lista. Este passo é necessário para triar o material reunido e indicar a você quais dos livros devem ser lidos analiticamente. Isso feito, é hora de iniciar a leitura sintópica propriamente dita, esquematizada em cinco passos:

  1. Encontre os trechos mais importantes. Inspecione por completo os livros que resistiram à primeira filtragem. Agora, a finalidade é localizar as passagens relevantes para o projeto. Leia rapidamente, lembrando-se de que o objetivo é menos compreender o livro como um todo do que esclarecer o seu problema de pesquisa.
  2. Faça os autores entrarem em acordo com você. Como os autores selecionados dificilmente usarão os mesmos termos para se referir às mesmas coisas, sua próxima tarefa é fixar os termos do debate e fazer com que os autores “concordem com eles”. “Esse é provavelmente o passo mais difícil da leitura sintópica”, segundo o próprio Adler50.
  3. Esclareça as questões. Elabore perguntas sobre o tema que possam ser respondidas por cada um dos autores. Em geral, as perguntas, que devem seguir uma ordem favorável à investigação, dizem respeito [1] à existência ou natureza do objeto de estudo (“o quê?”), [2] ao modo como ele se manifesta (“como?”) e [3] às consequências das respostas dadas às duas primeiras questões (“e daí?”). As “respostas” encontradas em cada uma das obras formarão o conjunto de proposições com que você vai trabalhar no próximo passo.
  4. Indique as divergências. Entre as respostas recolhidas na última etapa, identifique aquelas que contrariam ou contradizem umas às outras.
  5. Analise a discussão. Busque a verdade no debate, não exatamente nas séries de respostas isoladas, mas especialmente no “conflito das respostas contrárias”51. A verdade, para os professores, reside na própria discussão agora ordenada por você. Ao final da empreitada, ainda que a tarefa tenha parecido pouco frutuosa, a sua pesquisa poderá lançar as bases para novos trabalhos sobre o tópico.

Lembre-se de que a intenção de um projeto de leitura sintópica não é chegar a “respostas definitivas” sobre o problema investigado. O seu trabalho deve ser dialético, e não dogmático, e, pelo menos idealmente, livre de parcialidade. Mantenha uma postura o mais distanciada e objetiva possível.

Em suma, o leitor sintópico tenta olhar para todos os lados sem ficar de lado algum.52

Como escolher quais livros ler

Na contramão da crença de que toda leitura é válida para o desenvolvimento pessoal, Como ler livros afirma que, se o intuito é aumentar nossa habilidade em leitura, temos de enfrentar livros desafiadores.

Obras científicas ou filosóficas não são as únicas capazes de desafiar nossa capacidade. Para o manual, por exemplo, graças às imprecisões da linguagem artística, obras poéticas como as de Homero são mais difíceis de ler do que os trabalhos de Newton.

Como é de esperar, Adler e Doren também acreditam na existência de livros ruins. Na sua opinião, os maus livros são aqueles cuja unidade não é clara e cujas partes não se relacionam de forma coesa. Quanto mais erros um trabalho comete e menos verdadeiramente se expressa, pior é. Obras como essas não valem o esforço.

A pirâmide de livros de Adler e Doren

Os professores estipulam que mais de 99% das obras escritas na “tradição ocidental” podem ser lidas apenas por distração ou informação. Nesses casos, basta folheá-las.

Menos de um livro em cada cem nos ensina não só a ler, mas a viver. Livros dessa categoria são bastante exigentes e você pode lê-los analiticamente, mas uma única vez — depois de uma primeira leitura cuidadosa, você perceberá que eles já não têm nada a acrescentar.

Os livros da categoria mais elevada (menos de cem, segundo Adler e Doren) são as obras inesgotáveis. Mesmo a melhor das leituras não consegue exaurir seus significados amplos e profundos. Sempre que voltamos às obras desse tipo, elas parecem ter crescido conosco. Busque-as, leia-as e releia-as muitas vezes.

Ler bem, no sentido de ler ativamente, não é, portanto, apenas um bem em si mesmo nem é apenas um meio de progredir no trabalho ou na carreira. É algo que também serve para manter nossa mente viva, sempre crescendo.53

Apêndices

Por fim, Como ler livros inclui dois apêndices:

  1. O Apêndice A, uma extensa lista de leituras recomendadas (mais de 290 obras clássicas distribuídas entre 137 autores), sugere ao leitor desde O processo, de Franz Kafka, à Suma Teológica de São Tomás de Aquino.
  2. O Apêndice B contém breves exercícios a respeito de cada um dos quatro níveis de leitura, cujas respostas estão ao fim da seção. O apêndice também apresenta um ótimo exemplo do delineamento proposto por Adler e Doren: um índice, elaborado pelos professores, de todos os pontos relevantes d’A divina comédia, volume por volume.

Curiosidades sobre ‘Como ler livros’

Como ler livros foi publicado pela primeira vez em 1940, quando Mortimer Adler contava apenas 37 anos. O livro tornou-se um sucesso imediato, ocupando por mais de um ano o topo da lista de mais vendidos nos Estados Unidos. Desde então, a obra foi traduzida para idiomas como o sueco, o francês, o alemão e o italiano54.

Capa da primeira edição americana de ‘Como ler livros’ (1940)

Capa da primeira edição americana de ‘Como ler livros’ (1940) — Foto: Reprodução de Wikipédia

Curiosamente, a segunda edição do livro (aquela a que hoje temos acesso) foi publicada somente em 1972, 32 anos mais tarde. A publicação veio à luz naquela que um ex-secretário do Departamento de Saúde, Educação e Bem Estar já havia apelidado de “Década da Leitura”55. Amplamente revisada, a nova edição veiculou pela primeira vez a ideia dos quatro níveis de leitura e o conceito de leitura sintópica56.

Quem foi Mortimer Adler?

Mortimer Jerome Adler, geralmente referenciado Mortimer J. Adler, nasceu em Nova York, em 28 de dezembro de 1902. Embora tenha ingressado na Universidade de Columbia e cursado disciplinas suficientes para obter seu bacharelado em Filosofia, recusou-se a fazer o teste de natação exigido para a formatura e, por isso, não obteve o diploma. Adler não abandonou a universidade, onde mais tarde doutorou-se em Psicologia57.

Apaixonou-se pela vida intelectual ainda na adolescência, tão logo travou contato com a obra de pensadores como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino e John Stuart Mill. Ao longo de sua carreira, o filósofo advogou pela causa da educação liberal e divulgou com veemência as grandes obras da tradição ocidental.

Capa da primeira edição americana de ‘Como ler livros’ (1940)

Mortimer J. Adler, filósofo e educador estadunidense — Foto: Reprodução

Ao lado de Robert Hutchins, editou a coletânea Great Books of the Western World (em 54 volumes), para a Encyclopædia Britannica. Em 1952, mesmo desligando-se da universidade para fundar e dirigir o Institute for Philosophical Research, não rompeu contato com a editora. Em 1974, tornou-se presidente do seu conselho editorial, coordenando a produção da The New Encyclopædia Britannica58.

Ao todo, Adler escreveu e coescreveu mais de 45 livros, em sua maioria dedicados à filosofia, à literatura, à pedagogia e à teologia. Não obstante sua erudição, nunca se interessou pelo público acadêmico, preferindo empregar em suas obras um tom simples, que tivesse apelo popular59. Como ler livros é apenas um de seus best-sellers.

O filósofo morreu em 28 de junho de 2001, aos 98 anos60.

Quem foi Charles Van Doren?

Charles Lincoln Van Doren nasceu em 12 de fevereiro de 1926, em Manhattan. Membro de uma família literariamente renomada (seu pai, Mark Van Doren, e seu tio, Carl, foram laureados com o prêmio Pulitzer: o primeiro, como poeta; o segundo, como biógrafo), Doren obteve os títulos de mestre em Matemática e de doutor em Literatura inglesa pela Universidade de Columbia, onde também lecionou61.

Entre novembro de 1956 e março de 1957, o professor fez fortuna ao participar do quiz show Twenty One, da emissora NBC62. Suas vitórias no programa transformaram-no numa celebridade nos Estados Unidos, levando-o inclusive a estampar a capa da revista Time. Em 1959, no entanto, Doren admitiu perante o Congresso americano que o espetáculo havia sido manipulado.

Charles Van Doren, capa da revista Time de 11 de fevereiro de 1957

Charles Van Doren, capa da revista Time de 11 de fevereiro de 1957 — Foto: Reprodução de Time

O intelectual teve seu contrato com a NBC rompido, desligou-se de Columbia e, mais tarde, juntou-se à equipe da Encyclopædia Britannica63. Durante os anos em que morou em Chicago, mais próximo da sede do periódico, escreveu e editou uma série de livros, entre os quais a segunda edição de Como ler livros, em parceria com Mortimer Adler64.

As aparições de Doren no Twenty One motivaram o documentário The Quiz Show Scandal (1992), pela WGBH, e o suspense dramático Quiz Show (1994), de Robert Redford, indicado ao Oscar de Melhor Filme. Nenhuma das produções contou com a participação ou supervisão do próprio Doren, embora o professor não fosse, a princípio, antipático aos convites65.

Rompendo cinco décadas de silêncio sobre o incidente, em 2008 Doren escreveu para o New Yorker um longo artigo memorialístico a respeito do escândalo e de sua vida após o estrelato.

O intelectual morreu em 9 de abril de 2019, aos 93 anos66.

O que falta a Como ler livros?

Apesar de uma obra de fôlego, Como ler livros não é a solução para todos os problemas de um estudante. Adler e Doren, por exemplo, não mencionam técnicas de memorização ou organização do material estudado. À época da publicação, os estudos mais sofisticados em ciência cognitiva, que teriam rendido insights valiosos aos professores, também não haviam vindo à tona.

A tomografia computadorizada e a ressonância magnética, técnicas mais empregadas no diagnóstico por neuroimagem estrutural67, surgiram em 1972, ano de lançamento da segunda edição do guia68. Ambas promoveram enormes avanços na neurociência e, portanto, muito contribuíram para o estudo sobre a aprendizagem69. Por razões óbvias, nenhum trabalho acadêmico sobre o tema é mencionado em Como ler livros.

Como ler livros e a leitura dinâmica

A segunda edição do manual também coincidiu com o boom dos cursos de leitura dinâmica nos Estados Unidos70. Trazido a público em 1959 por Evelyn Wood, o novo método fazia aos alunos uma promessa pouco resistível: eles leriam muito mais rápido e, ao mesmo tempo, melhor71. Como vimos, Adler e Doren não deram crédito à promessa, preferindo aconselhar a leitura a velocidades variáveis, a depender da complexidade do texto.

Ainda assim, a obra insistiu em lugares-comuns que só décadas mais tarde seriam desmantelados pela ciência — como a crença nas fixações e retrocessos (regressões, na literatura científica) como empecilhos à boa leitura72.

Fixações são as paradas que nossos olhos fazem enquanto percorrem uma linha de texto. Regressões são os movimentos pelos quais os olhos voltam à palavra ou palavras que acabamos de ler.

Hoje, sabe-se que é por meio das fixações que os leitores obtêm novas informações visuais do texto — e, embora a fixação média dure cerca de 0,25 segundo, esse tempo pode variar muito devido à legibilidade do conteúdo, à dificuldade linguística e ao nível de proficiência do leitor73. Acelerar fixações a qualquer preço pode ser contraproducente: nós avançaríamos mais rápido por qualquer texto, mas seria um exagero chamar o que fizemos de leitura.

Algo semelhante se aplica às regressões. Enquanto algumas delas corrigem erros oculomotores (quando nossos olhos pousam na palavra errada, por exemplo), muitas corrigem falhas na compreensão. Tentar eliminá-las à força, portanto, abriria espaço para uma leitura atrapalhada e repleta de más interpretações74.

Por caridade, imaginamos que Adler e Doren tenham se referido a um tipo vicioso de fixações e regressões — como quando nos demoramos sobre alguma palavra mesmo a tendo reconhecido muito bem, ou quando relemos a frase anterior depois de tê-la entendido perfeitamente. Em todo caso, não custa advertir os leitores mais escrupulosos de que não há problema em demorar para reconhecer a palavra catilinária, ou em, vez ou outra, dar uma olhadinha para trás.

Conclusão

Embora sua abrangência e profundidade às vezes espantem, Como ler livros é, evidentemente, uma obra fundamental para quem quer aprender a ler melhor. Abarcando da ficção à não ficção, o manual apresenta múltiplos exercícios que nos permitem entender o conteúdo de um livro, criticá-lo com honestidade e prudência e, sobretudo, perseguir uma vida intelectual pautada pela verdade.

Se você valoriza os estudos, ainda não há material mais completo do que esse para ajudá-lo na atividade mais importante na busca por conhecimento. Popular há mais de oitenta anos, a obra faz mesmo jus ao subtítulo que recebeu em sua segunda edição75: já é, de fato, o guia clássico para leituras inteligentes.

Referências

  1. Como de ortografia, sintaxe e semântica. Para mais sobre o esforço de leitura, especialmente durante a revisão de textos, ver Jean-Yves Roussey e Annie Piolat, Critical reading effort during text revision (European Journal of Cognitive Psychology, v. 20, n. 4, p. 766–67 [765–92], 2008). ↩︎
  2. José Monir Nasser, Lendo Mortimer Adler como Mortimer Adler nos ensina a ler [2010]. In: Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. 2. ed. É Realizações, 2010, p. 13 [11–7]. ↩︎
  3. Adler e Doren, op. cit., p. 26. No livro, a expressão leitura passiva significa, portanto, leitura menos ativa. ↩︎
  4. Ibid., p. 64. ↩︎
  5. Ibid., p. 66. ↩︎
  6. Ibid., p. 37–40. ↩︎
  7. Ibid., p. 52. ↩︎
  8. Ibid., p. 55. ↩︎
  9. Ibid., p. 57. ↩︎
  10. Émile Faguet, A arte de ler. Kírion, 2021, p. 27. ↩︎
  11. Ibid., p. 59. ↩︎
  12. Ibid., p. 82. ↩︎
  13. Ibid., p. 99. ↩︎
  14. Ibid. ↩︎
  15. Todas as perguntas são de autoria dos próprios Adler e Doren (2010, p. 108). ↩︎
  16. Ibid. ↩︎
  17. Todos os exemplos são de Adler e Doren (2010, p. 118–19 e 124). ↩︎
  18. Ibid. ↩︎
  19. Ibid. ↩︎
  20. Ibid., p. 121. ↩︎
  21. Ibid., p. 120. ↩︎
  22. Ibid., p. 130. ↩︎
  23. Nicolau Maquiavel apud Adler e Doren, 2010, p. 131. ↩︎
  24. A reescrita da proposição e o exemplo também são de Adler e Doren (2010, p. 140). ↩︎
  25. Ibid., p. 136. ↩︎
  26. Ibid., p. 147. ↩︎
  27. Ibid., p. 149. ↩︎
  28. Ibid., p. 174. ↩︎
  29. Ibid., p. 156. ↩︎
  30. Francis Bacon apud Adler e Doren, 2010, p. 151. ↩︎
  31. Adler e Doren, 2010, p. 169. ↩︎
  32. Ibid., p. 176. ↩︎
  33. Todos os exemplos no parágrafo são de Adler e Doren (2010, p. 178–79). ↩︎
  34. Os extensos conselhos originais sobre o uso de materiais de apoio, das experiências relevantes às enciclopédias, podem ser vistos em Adler e Doren (2010, p. 177–95). ↩︎
  35. Ibid., p. 215. ↩︎
  36. Ibid., p. 221. ↩︎
  37. Ibid., p. 245. ↩︎
  38. Ibid., p. 263. ↩︎
  39. Ibid., p. 266–69. ↩︎
  40. Ibid., p. 269. ↩︎
  41. Ibid., p. 274. ↩︎
  42. Ibid., p. 275. ↩︎
  43. Ibid., p. 278. ↩︎
  44. Ibid., p. 296. ↩︎
  45. Ibid. ↩︎
  46. Ibid., p. 297. ↩︎
  47. Ibid., p. 304. ↩︎
  48. Os exemplos são de Adler e Doren (2010, p. 304 e 306). ↩︎
  49. Ibid., p. 314. ↩︎
  50. Ibid., p. 322. ↩︎
  51. Ibid., p. 325. ↩︎
  52. Ibid., p. 327. ↩︎
  53. Ibid., p. 347. ↩︎
  54. Mortimer J. Adler, Prefácio da edição americana de 1972. In: Adler e Doren, 2010, p. 19 [19–22]. ↩︎
  55. Ibid., p. 19. ↩︎
  56. Ibid., p. 22. ↩︎
  57. Columbia University, Mortimer J. Adler. C250 Celebrates: Columbians ahead of their time, 2004. ↩︎
  58. F. N. D’Alessio, Philosopher, reformer Adler dies. Word Gems, 29 jun. 2001. ↩︎
  59. Ibid. ↩︎
  60. Os Editores da Encyclopædia Britannica, Mortimer J. Adler. Encyclopædia Britannica, 24 jun. 2024. ↩︎
  61. Lisa Palladino, In memoriam: Charles L. Van Doren GSAS’59, professor of English emeritus. Columbia College Today, 2019. ↩︎
  62. Charles Van Doren, All the answers. The New Yorker, 28 jul. 2008. ↩︎
  63. Palladino, 2019. ↩︎
  64. Doren, 2008. ↩︎
  65. Ibid. ↩︎
  66. Robert D. McFadden, Charles Van Doren, a quiz show whiz who wasn’t, dies at 93. The New York Times, 10 abr. 2019. ↩︎
  67. William J. Powers e Colin P. Derdeyn, Neuroimaging, overview. In: Michael J. Aminoff e Robert B. Daroff (ed.), Encyclopedia of the Neurological Sciences. 2. ed. Academic Press, 2014, p. 398 [398–99]. ↩︎
  68. Sobre a tomografia computadorizada, ver M. J. Fulham, Neuroimaging. In: Larry R. Squire (ed.), Encyclopedia of Neuroscience. Academic Press, 2009, p. 459 [459–69]. Para mais detalhes sobre a ressonância magnética, consultar John A. Detre, Magnetic resonance imaging. In: Sid Gilman (ed.), Neurobiology of Disease. Academic Press, 2007, p. 794 [793–800]. ↩︎
  69. Mark D’Esposito, Functional neuroimaging of cognition. Seminars in Neurology, v. 20, n. 4, p. 487 [487–98], 2000. ↩︎
  70. Adler, 1972, p. 20. ↩︎
  71. Os Editores da Encyclopædia Britannica, Evelyn Wood. Encyclopædia Britannica, 22 ago. 2024. ↩︎
  72. Adler e Doren, 2010, p. 59. ↩︎
  73. Keith Rayner et al., So much to read, so little time: how do we read, and can speed reading help? Psychological Science in the Public Interest, v. 17, n. 1, p. 8 [4–34], 2016. ↩︎
  74. Ibid., p. 9–10. ↩︎
  75. Referência ao subtítulo da segunda edição americana do guia (1972), pela Simon & Schuster. ↩︎

Caricatura do escritor, professor e produtor de conteúdo digital Felipe Pardal

Felipe Pardal é um escritor de ficção, pesquisador, criador de conteúdo digital e tutor particular de Literatura e Escrita Criativa. Autor de Samuca (romance, agora em processo de reescrita), é pós-graduado lato sensu em Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS, Brasil) e bacharel em Direito. Mais sobre o Felipe aqui.

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