Jogador incorrigível, marido infiel, beberrão, “revolucionário” — mas também defensor ardoroso de seu povo e país, cristão devoto, e, por fim, um dos maiores escritores de todos os tempos: a vida de Fiódor Dostoiévski não foi menos impressionante do que a de seus personagens mais atormentados.
Sua obra, dos romances e contos aos ensaios e novelas, é um mergulho nas contradições, temores, paixões e esperanças da alma humana — as frases que você encontrará a seguir dão prova disso. Este artigo é uma seleção das passagens mais tocantes do autor russo: reflexões sobre o amor, o sofrimento, a beleza e o sentido da vida. Cada citação é, ao mesmo tempo, um convite à introspecção e um banquete literário; um falante de inglês pode chamá-las, com toda justiça, de food for thought.
Frases de Dostoiévski sobre o amor
“[…] agora, às vezes, até penso que o amor consiste no direito que o objeto do amor concede, espontaneamente, ao outro de exercer uma tirania sobre ele.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo1
“O amor é um tesouro tão precioso que com ele podes comprar o mundo inteiro, e ainda redimes não só teus pecados, mas também os dos outros.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov2
“Vê só, meu caro, e eu te digo de modo franco e simples: todo homem decente deve estar sob o tacão de ao menos alguma mulher.”
— Dmitri Karamázov, em Os irmãos Karamázov3
“Procure amar seus próximos de forma ativa e incansável. À medida que progredir no amor irá convencer-se da existência de Deus e da imortalidade de sua alma.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov4
“[…] tenho pensado: ‘O que é o inferno?’ E julgo assim: ‘É o sofrimento de não mais se poder amar’.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov5
Frases de Dostoiévski sobre a felicidade
“Nunca procures recompensa, porque já é grande a tua recompensa nesta Terra: a tua alegria espiritual, que só o justo conquista.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov6
“Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas7
Frases de Dostoiévski sobre a razão, a ciência e a busca da verdade
“[…] a ciência leiga, depois de firmar-se como uma grande força, esmiuçou, particularmente no último século, tudo o que nos foi legado nos livros sagrados e, depois de uma análise cruel, não restou na cabeça dos cientistas deste mundo terminantemente nada de toda a antiga santidade.”
— Padre Paissi, em Os irmãos Karamázov8
“Não entendem porventura que, para se adquirir uma opinião, o trabalho se faz necessário em primeiro lugar: nosso próprio trabalho, nossa própria iniciativa e nossa própria prática? Nunca arranjaremos nada de graça.”
— Stiepan Trofímovitch, em Os demônios9
“Nem podem imaginar que tristeza e raiva se apossam de toda a sua alma, quando uma grande ideia, que você tem sacralizado, cai nas mãos de alguns toscos que a carregam para a rua e oferecem a tais imbecis como eles mesmos, e depois você se depara de repente com ela num mercado de pulgas, irreconhecível, enlameada, virada sob um ângulo absurdo, sem proporção nem harmonia, dada a uns garotinhos abestalhados como brinquedo!”
— Stiepan Trofímovitch, em Os demônios10
“A tolice é curta e ingênua, já a inteligência tergiversa e se esconde. A inteligência é canalha, mas a tolice é franca e honesta.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov11
“[…] eles defendem tudo isso porque para eles ‘o indivíduo é vítima do seu meio’ e nada mais! É a frase preferida! Daí se deduz diretamente que, caso se construa a sociedade de maneira correta, todos os crimes desaparecerão de um só golpe, uma vez que não haverá contra o que protestar e em um instante todos os homens se tornarão justos. Não se leva a natureza em conta, suprime-se a natureza, não se percebe a natureza! Para eles não é a humanidade — que se desenvolveu pela via histórica e viva até o fim — que vai finalmente converter-se numa sociedade normal, mas, ao contrário, é o sistema social que, saindo de alguma cabeça de matemático, vai imediatamente organizar toda a sociedade e num abrir e fechar de olhos a tornará justa e pura antes de qualquer processo vivo, sem qualquer via histórica e viva! É por isso que eles detestam tão instintivamente a história: nela veem “só deformidades e tolices”, e tudo se explica exclusivamente pela tolice! É por isso que detestam o processo vivo da vida: a alma viva é dispensável! A alma viva exige vida, a alma viva não obedece à mecânica, a alma viva é desconfiada, a alma viva é retrógrada!”
— Dmitri Razumíkhin, em Crime e castigo12
“Há muito tempo resolvi não entender. Se eu quiser entender alguma coisa, então trairei imediatamente o fato, e eu resolvi ficar com os fatos…”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov13
“[…] todas essas teorias destinadas a elucidar para a humanidade seus interesses normais e verdadeiros, para que ela, ao se empenhar necessariamente na obtenção de tais interesses, na mesma hora se torne boa e nobre — até agora, na minha opinião não passam de uma lógica vazia!”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo14
“Conheci um ‘combatente pela ideia’, que me contou pessoalmente que, quando foi privado de tabaco na prisão, sentiu-se tão aflito com essa privação que por pouco não traiu ‘sua ideia’, contanto que lhe dessem tabaco. No entanto, ele afirmava: ‘Vou lutar pela humanidade’. Ora, para onde irá um tipo assim e do que ele é capaz?”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov15
“[…] que vontade própria ainda vai restar quando chegarmos à tabela e à aritmética, quando tudo que existir for apenas ‘dois e dois são quatro’?”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo16
“A razão, no fim das contas, é uma coisa boa, isso nem se discute, mas a razão é só a razão e satisfaz apenas a capacidade humana de raciocinar, ao passo que a vontade é a manifestação de toda a vida, ou seja, a vida humana em seu todo, com a razão e também com todas as comichões que existem.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo17
“Agora eu não quero nada, não quero querer nada, eu me dei a palavra de já não querer nada; que procurem, que procurem a verdade sem mim!”
— Hippolit Tieriêntiev, em O idiota18
Frases de Dostoiévski sobre a transcendência, Deus e a religião
“Eu sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida; assim tenho sido até hoje e o serei até o fim dos meus dias… Que tormentos terríveis tem me custado essa sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto maiores são os argumentos contrários.”
— Dostoiévski, em carta à amiga N. D. Fonvízina, fevereiro de 185419
“Quero viver para a imortalidade, e não aceito meio compromisso.”
— Alieksiêi Karamázov, em Os irmãos Karamázov20
“[…] ‘tudo é permitido’ […], pois se Deus definitivamente não existe, então não existe nenhuma virtude, e neste caso ela é totalmente desnecessária.”
— Pavel Smierdiakóv, em Os irmãos Karamázov21
“Outros têm outro assunto, mas nós, os bisonhos, precisamos antes de tudo resolver problemas eternos, eis a nossa preocupação.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov22
“Já a mim, Deus tortura. Não faz senão torturar. Mas e se Ele não existir? E se Rakítin tiver razão, ao dizer que isso é um artifício humano? Então, se Ele não existe, o homem é o chefe da Terra, do universo. Magnífico! Só que, como ele será virtuoso sem Deus? É um problema! Sempre bato nessa tecla. Porque quem ele, o homem, haverá de amar? A quem será grato, em louvor de quem cantará seu hino?”
— Dmitri Karamázov, em Os irmãos Karamázov23


“Existe no mundo justiça e verdade, existe, e eu vou encontrá-las!”
— Catierina Ivánovna, em Crime e castigo24
“Vede entre os leigos, e em todo o mundo que se coloca acima do povo de Deus, se ali não foi deformada a imagem de Deus e a Sua verdade. Eles têm a ciência, e na ciência só aquilo que está sujeito aos sentidos. Já o mundo do espírito, a metade superior do ser humano, foi rejeitada inteiramente, expulsa com certo triunfo, até com ódio.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov25
“Minha vida está terminando, eu sei e sinto isto, mas a cada dia que me resta sinto que minha vida terrestre já contacta com uma vida nova, infinita, desconhecida mas imediatamente futura, cujo pressentimento faz fremir de êxtase minha alma, resplandecer a razão e chorar de alegria o coração…”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov26
“Porque sabeis, queridos, que cada um de nós é, indubitavelmente, culpado por todos e por tudo na Terra, não só pelo pecado de todos no mundo, como cada um é, pessoalmente, culpado por todos e cada um dos homens nesta Terra.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov27
“E os que não acreditam em Deus vão falar de socialismo e de anarquismo, da reconstrução de toda a sociedade humana segundo um novo princípio, e então só o diabo sabe o que sairá daí, sempre as mesmas questões, só que revistas de um outro ângulo.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov28
“Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou, então o criou à sua imagem e semelhança.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov29
“Não sabias, porém, que mal rejeitasse o milagre, o homem imediatamente também renegaria a Deus, porquanto o homem procura não tanto Deus quanto os milagres.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov30
“O paraíso […] está oculto em cada um de nós, agora mesmo está oculto aqui dentro de mim, e se amanhã eu quiser ele começará efetivamente para mim e já pelo resto de minha vida.”
— Mikhail, o “servo sofredor de Deus”, em Os irmãos Karamázov31
Frases de Dostoiévski sobre a condição humana
“Eu acho que a melhor definição do ser humano é esta: criatura bípede e ingrata.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo32
“É bom estar no mundo. Ainda que sejamos ruins, é bom estar no mundo.”
— Agrafena Svetlova (Grúchenka), em Os irmãos Karamázov33
“[…] toda a questão humana, ao que parece, se resume, na verdade, apenas em que o ser humano precisa provar para si mesmo, a todo instante, que ele é um ser humano, e não o pedal de um órgão! Nem que seja ao preço de levar pancadas nas costas, ele tem de provar; nem que seja virando um troglodita, ele tem de provar.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo34
“[…] para se conhecer qualquer pessoa, é preciso ir-se chegando a ela devagar e com cautela, para evitar equívoco e preconceito, coisas bem difíceis de corrigir e reparar depois.”
— Pulkhéria Raskólnikova, em Crime e castigo35
“O senhor se gaba da consciência, mas apenas hesita e mais nada, porque, embora sua mente funcione, o coração está escurecido pela depravação e, sem um coração puro, não haverá consciência plena e correta.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo36
“Em suma, pode-se dizer tudo a respeito da história universal, tudo que puder ocorrer à imaginação mais conturbada. Só não se pode dizer uma coisa: que ela é sensata.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo37
“Não, a vida me é dada uma vez, e ela nunca mais voltará: eu não quero esperar a ‘felicidade geral’. […] eu mesmo quero viver, do contrário o melhor seria não viver.”
— Rodion Raskólnikov, em Crime e castigo38
“Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais. Sem respeitar ninguém, deixa de amar e, sem ter amor, para se ocupar e se distrair entrega-se a paixões e a prazeres grosseiros e acaba na total bestialidade em seus vícios, e tudo isso movido pela contínua mentira para os outros e para si mesmo.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov39
“Claro, não vou ficar batendo a cabeça nesse muro se, de fato, eu não tiver força para derrubá-lo, mas também não vou me conformar com ele, só porque é um muro de pedra e eu não tive forças para derrubá-lo.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo40
“A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano.”
— Dmitri Razumíkhin, em Crime e castigo41
“Eu, vai ver, ainda sou um homem e não um piolho e me precipitei em me condenar… Eu ainda vou lutar.”
— Rodion Raskólnikov, em Crime e castigo42
“[…] não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser terminantemente ‘como todo mundo’.”
“[…] hoje em dia quase todas as pessoas de talento morrem de medo de serem ridículas e por isso são infelizes.”
— Kólia Krassótkin, em Os irmãos Karamázov44
“No amor abstrato pela humanidade você quase sempre ama apenas a si mesmo.”
— Aglaia Epantchiná, em O idiota45
“[…] os absurdos são necessários demais na Terra. É sobre os absurdos que se funda o mundo, e neste talvez não acontecesse absolutamente nada sem eles.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov46
“Não existe nada nesse mundo mais difícil que a franqueza, e não existe nada mais fácil que a lisonja.”
— Arkádi Svidrigáilov, em Crime e castigo47
“[…] não existe nada de mais ofensivo para um homem de nossa época e de nossa tribo do que dizer a ele que ele não é original, é fraco de caráter, não tem grandes talentos e é um homem comum.”
— Gavrila Ívolguin, em O idiota48
“[…] por que não somos todos uns para os outros como irmãos e irmãs? Por que razão mesmo o melhor dos homens tem sempre qualquer coisa a esconder a outro e se cala diante dele?”
— Nástienka, em Noites brancas49
“[…] o que começou com mentira só com mentira deveria terminar; isto é uma lei da natureza.”
— Ievguiêni Pávlovitch, em O idiota50
“Todo santo dia de minha vida batia em meu peito prometendo a mim mesmo corrigir-me, e todo santo dia cometia as mesmas vilanias. Agora compreendo que gente como eu precisa de um golpe, de um golpe do destino, para ser presa como por um laço e sujeitada por uma força externa. Eu nunca, nunca me levantaria por mim mesmo!”
— Dmitri Karamázov, em Os irmãos Karamázov51
“Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov52
“[…] tudo está ao alcance do homem e ele deixa isso tudo escapar só por medo…”
— Rodion Raskólnikov, em Crime e castigo53
“A juventude, ainda que só uma gotinha e ainda que pelo caminho torto, sempre é generosa.”
“De fato, às vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov55
“Você não tem ternura: só verdade, portanto, é injusto.”
— Aglaia Epantchiná, em O idiota56
“Nada de ficar perturbado também com o fato de que somos ridículos, não é verdade? Porque é realmente assim, nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos […]!”
— Príncipe Míchkin, em O idiota57


Frases de Dostoiévski sobre a solidão
“Pareceu-me de repente que eu, um solitário, estava sendo abandonado por todos e que todos se afastavam de mim. Claro, qualquer um teria o direito de perguntar: mas quem são esses todos?”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas58
“Procure não ser igual a todos os outros; mesmo que seja o único a se manter diferente, ainda assim não seja igual.”
— Kólia Krassótkin, em Os irmãos Karamázov59
“Outra circunstância me atormentava, naquela época: exatamente o fato de ninguém se parecer comigo nem eu me parecer com ninguém. ‘Então, eu sou único e eles são todos’ […].”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo60
Frases de Dostoiévski sobre a beleza
“Você lamentará que a beleza de um instante tenha se esgotado tão rápida e facilmente, que ela tenha brilhado de forma tão ilusória inútil na sua frente — lamentará até mesmo não ter tido tempo de amá-la…”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas61
“Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a ‘beleza’ salvará o mundo? Senhores […],o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo!”
— Hippolit Tieriêntiev, em O idiota62
Frases de Dostoiévski sobre o sofrimento
“E, na verdade, agora sou eu que estou fazendo uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade rasteira ou sofrimentos sublimes?”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo63
“O sofrimento e a dor são sempre obrigatórios para uma consciência ampla e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes, a meu ver, devem experimentar uma grande tristeza no mundo […].”
— Rodion Raskólnikov, em Crime e castigo64
“[…] estou convencido de que o ser humano jamais abrirá mão do sofrimento verdadeiro, ou seja, da destruição e do caos. O sofrimento, afinal de contas, é a causa única da consciência.”
— Protagonista anônimo, em Memórias do subsolo65
“Não há por que ter piedade de mim! O que é preciso é me crucificar, me pendurar numa cruz, e não ter piedade! […] eu mesmo te procurarei para ser crucificado, pois não é de alegria que tenho sede mas de tristeza e lágrimas!”
— Semion Marmieládov, em Crime e castigo66
“É melhor ser infeliz, porém estar inteirado [disso], do que feliz e viver… sendo feito de bobo.”
— Hippolit Tieriêntiev, em O idiota67
“[…] quando estamos infelizes, sentimos com maior violência a infelicidade dos outros; o sentimento não se destrói, concentra-se…”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas68
“Assumir o sofrimento e redimir-se, é isso que é preciso.”
— Sônia Marmieládov, em Crime e castigo69
“E os homens, a despeito de toda a sua indiscutível inteligência, tomam toda essa comédia por alguma coisa séria. Nisto reside sua tragédia. E então sofrem, é claro, mas… em compensação, vivem apesar de tudo, vivem na realidade, não na fantasia; por que o sofrimento é que é vida. Sem sofrimento, que prazer poderia haver em viver?”
— “Visitante”, em Os irmãos Karamázov70
Frases de Dostoiévski sobre o sentido da vida
“O senhor não pode ficar sem ocupações, e por isso o trabalho e um objetivo firmemente proposto, acho eu, poderiam ajudá-lo muito.”
— Zóssimov, em Crime e castigo71
“Que importa a vida real? Nós vivemos uma vida tão ociosa, tão parada, tão desprezível, estamos tão descontentes da nossa sorte, tão enfastiados da nossa existência!”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas72
“[…] não é só impossível viver como um canalha, como é impossível morrer como um canalha. Não, senhores, morrer tem de ser honestamente!”
— Dmitri Karamázov, em Os irmãos Karamázov73
“Mesmo acorrentado a um pilar, eu existo, veja ou não veja o sol, mas sei que ele existe. E só saber que eu existo já é toda uma vida.”
— Dmitri Karamázov, em Os irmãos Karamázov74
“E uma pessoa interroga-se: mas então onde estão os teus sonhos? E sacode a cabeça, dizendo: como os anos passam depressa!… E novamente nos interrogamos: mas o que fizeste tu dos teus anos? Onde foste enterrar o teu tempo mais precioso? Viveste verdadeiramente? Sim ou não?”
— Protagonista anônimo, em Noites brancas75
“Eu quero viver para a felicidade de todos os homens, para as descobertas e para anunciar a verdade…”
— Hippolit Tieriêntiev, em O idiota76
“Tenho vontade de viver e vivo, ainda que contrariando a lógica. Vá que eu não acredite na ordem das coisas, mas a mim me são caras as folhinhas pegajosas que desabrocham na primavera, me é caro o céu azul, é caro esse ou aquele homem de quem, não sei se acreditas, às vezes a gente não sabe por que gosta, me é caro um ou outro feito humano no qual a gente talvez tenha até deixado de acreditar há muito tempo e mesmo assim, movido pela lembrança antiga, o respeita de coração.”
— Ivan Karamázov, em Os irmãos Karamázov77
“[…] até na prisão pode-se encontrar uma vida imensa.”
— Príncipe Míchkin, em O idiota78
“A vida te trará muitos infortúnios, mas é com eles que serás feliz, bendirás a vida e farás com que os outros a bendigam — e isso é o mais importante.”
— Stárietz Zossima, em Os irmãos Karamázov79
“[…] podem estar certos de que Colombo foi feliz não no momento em que descobriu a América mas quando a estava descobrindo […]! A questão está na vida, apenas na vida — no seu descobrir-se, contínuo e eterno, e de maneira alguma na sua descoberta!”
— Hippolit Tieriêntiev, em O idiota80
Curiosidades sobre as frases mais populares de Dostoiévski
- A frase “Se Deus não existe, tudo é permitido”, geralmente atribuída a Os irmãos Karamázov, não é dita em nenhuma passagem do romance. O mais próximo que encontramos da declaração é “[…] ‘tudo é permitido’ […], pois se Deus definitivamente não existe, então não existe nenhuma virtude, e neste caso ela é totalmente desnecessária”81. Defendido por Pavel Smierdiakóv, o argumento pode realmente levar à conclusão de que “tudo é permitido caso Deus não exista”, mas não deixa de ser muito mais longo, truncado e sutil do que a versão que vemos circular on-line.
- Em O idiota, o príncipe Míchkin nunca pronuncia a frase “A beleza salvará o mundo”, geralmente atribuída a ele. É o tuberculoso Hippolit Tieriêntiev quem, para provocá-lo, revela que Míchkin fez a declaração em algum momento: “Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a ‘beleza’ salvará o mundo? Senhores […],o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo!”82
- A maioria das frases populares de Dostoiévski não foi dita “em nome próprio” — ou seja, não necessariamente expressa as opiniões ou visão de mundo do escritor. Como você viu ao longo deste artigo, são seus personagens que, psicologicamente “independentes” e variados, compartilham seus comentários sobre o amor, a fé, o sofrimento e o sentido da vida.
- Assim como ocorre com outros escritores famosos por seus aforismos — como, no Brasil, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, por exemplo —, muitas frases popularmente atribuídas a Dostoiévski jamais foram ditas por ele. Desconfie daquelas que não vierem acompanhadas da indicação de uma fonte, como um romance, conto ou carta do escritor.
Quem foi Fiódor Dostoiévski?
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski nasceu em 1821, em Moscou, em uma família de classe média83. Filho de um médico militar e de uma devota dona de casa, teve a infância marcada pelo contato com temas religiosos e sociais que mais tarde influenciariam sua literatura84. Desde jovem demonstrou talento para as letras, embora tenha estudado Engenharia Militar em São Petersburgo antes de se dedicar integralmente à escrita85. Seu primeiro romance, Gente pobre (1846), elogiado pelo então influente crítico Vissarión Bielínski, garantiu seu reconhecimento imediato nos círculos literários russos86.


A vida de Dostoiévski foi turbulenta. Em 1849, preso por integrar o Círculo de Pietrachévski, grupo intelectual acusado de atividades revolucionárias, o escritor passou oito meses no cárcere antes de ser condenado à morte — pena comutada, no último momento, para trabalhos forçados na Sibéria87. A experiência do exílio transformou profundamente sua visão de mundo, levando-o a refletir sobre a moralidade, o sofrimento e a redenção — e, anos mais tarde, servindo de inspiração para o aclamado Escritos da casa morta (1860–1862)88. Uma vez em liberdade, Dostoiévski retomou a carreira literária89; dando à luz algumas de suas obras mais profundas, alcançou grande prestígio na Rússia e no exterior90.
Seus trabalhos mais célebres incluem Crime e castigo (1866), O idiota (1869), Os demônios (1872) e Os irmãos Karamázov (1880), romances que exploram problemas éticos, psicológicos e espirituais de forma penetrante e até então inédita. O autor via no ser humano um campo de tensão entre fé e racionalidade, liberdade e destruição; graças a isso, sua obra influenciou profundamente a psicanálise de Freud e a filosofia de Nietzsche91 (acredite ou não, o próprio Einstein a elogiou com entusiasmo92). O legado de Dostoiévski ultrapassa a Literatura e ainda hoje inspira reflexões de diversas áreas do saber sobre a condição humana.
Leituras recomendadas sobre Fiódor Dostoiévski
- Dostoiévski: um escritor em seu tempo, de Joseph Frank
- Lectures on Dostoevsky, também de Frank
- Dostoevsky reminiscences, de Anna Dostoiévskaia
- Dostoevsky in love: an intimate life, de Alex Christofi
Referências
- Fiódor Dostoiévski, Memórias do subsolo. Tradução: Rubens Figueiredo. Penguin–Companhia das Letras, 2021, pt. 2, cap. 10. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov. Tradução: Paulo Bezerra. 3. ed. Editora 34, 2012, liv. 2, cap. 3. ↩︎
- Ibid., liv. 11, cap. 4. ↩︎
- Ibid., liv. 2, cap. 4. ↩︎
- Ibid., liv. 6, cap. 2. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Dostoiévski, Noites brancas. Tradução: Carlos Loures. Editora América do Sul, 1988, cap. 6. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 4, cap. 1. ↩︎
- ______, Os demônios. Tradução: Oleg Almeida. Martin Claret, 2020, pt. 1, cap. 1, IX. ↩︎
- Ibid., pt. 1, cap. 1, VI. ↩︎
- Dostoiévski, Os irmãos Karamázov, liv. 5, cap. 3. ↩︎
- ______, Crime e castigo. Tradução: Paulo Bezerra. 6. ed. Editora 34, 2009, pt. 3, cap. 5. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 5, cap. 4. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 7. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 6, cap. 2. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 8. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Dostoiévski, O idiota. Tradução: Paulo Bezerra. 5. ed. Editora 34, pt. 2, cap. 10. ↩︎
- ______, [Correspondência]. Destinatário: N. D. Fonvízina. [s. l.], fev. 1854. In: Bezerra, Nas sendas de Crime e castigo [prefácio]. In: Dostoiévski, Crime e castigo. ↩︎
- Dostoiévski, Os irmãos Karamázov, liv. 1, cap. 4. ↩︎
- Ibid., liv. 11, cap. 8. ↩︎
- Ibid., liv. 5, cap. 3. ↩︎
- Ibid., liv. 11, cap. 4. ↩︎
- Dostoiévski, Crime e castigo, pt. 5, cap. 3. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 6, cap. 3. ↩︎
- Ibid., liv. 6, cap. 2. ↩︎
- Ibid., liv. 4, cap. 1. ↩︎
- Ibid., liv. 5, cap. 3. ↩︎
- Ibid., liv. 5, cap. 4. ↩︎
- Ibid., liv. 5, cap. 5. ↩︎
- Ibid., liv. 6, cap. 2. ↩︎
- Dostoiévski, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 8. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 8, cap. 8. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 8. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 1, cap. 3. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 11. ↩︎
- Ibid., pt. 1, cap. 8. ↩︎
- Dostoiévski, Crime e castigo, pt. 3, cap. 6. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 2, cap. 2. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 3. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 3, cap. 1. ↩︎
- Ibid., pt. 5, cap. 4. ↩︎
- Dostoiévski, O idiota, pt. 4, cap. 1. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 10, cap. 6. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 3, cap. 10. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 5, cap. 4. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 6, cap. 4. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 1, cap. 11. ↩︎
- ______, Noites brancas (tradução: Carlos Loures), cap. 4. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 4, cap. 9. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 9, cap. 7. ↩︎
- Ibid., liv. 5, cap. 5. ↩︎
- Dostoiévski, Crime e castigo, pt. 1, cap. 1. ↩︎
- ______, A dócil: narrativa fantástica, cap. 1. In: ______, Duas narrativas fantásticas. Tradução: Vadim Nikitin. 4. ed. Editora 34, 2017. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 5, cap. 4. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 3, cap. 8. ↩︎
- Ibid., pt. 4, cap. 8. ↩︎
- Dostoiévski, Noites brancas. Tradução: Nivaldo dos Santos. 3. ed. Editora 34, 2009, cap. 1. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 10, cap. 6. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 2, cap. 1. ↩︎
- ______, Noites brancas (tradução: Nivaldo dos Santos), cap. 1. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 3, cap. 5. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 2, cap. 10. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 3, cap. 5. ↩︎
- ______, Memórias do subsolo, pt. 1, cap. 9. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 1, cap. 2. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 4, cap. 5. ↩︎
- ______, Noites brancas (tradução: Carlos Loures), cap. 4. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 5, cap. 4. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 11, cap. 9. ↩︎
- ______, Crime e castigo, pt. 3, cap. 3. ↩︎
- ______, Noites brancas (tradução: Carlos Loures), cap. 2. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 9, cap. 7. ↩︎
- Ibid., liv. 11, cap. 4. ↩︎
- Dostoiévski, Noites brancas (tradução: Carlos Loures), cap. 2. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 2, cap. 10. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 5, cap. 3. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 1, cap. 5. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 6, cap. 1. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 3, cap. 5. ↩︎
- ______, Os irmãos Karamázov, liv. 11, cap. 8. ↩︎
- ______, O idiota, pt. 3, cap. 5. ↩︎
- Joseph Frank, Dostoiévski: um escritor em seu tempo. Companhia das Letras, 2018, cap. 2. ↩︎
- Ibid., caps. 2 e 3. ↩︎
- Ibid., cap. 4. ↩︎
- Ibid., caps. 6 e 7. ↩︎
- Ibid., caps. 12, 13 e 14. ↩︎
- Ibid., cap. 16. ↩︎
- Ibid., cap. 19. ↩︎
- Ibid., caps. 23, 27, 31 e 35. ↩︎
- Nietzsche ficou especialmente empolgado com a leitura de Escritos da casa morta (Frank, op. cit., cap. 16). “Dostoiévski”, segundo o filósofo, foi “o único psicólogo […] do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida”. Para o trecho original, veja Friedrich Nietzsche, Genealogia da moral. Tradução: Paulo César de Souza. Companhia das Letras, 2009, “Incursões de um extemporâneo”, 45. ↩︎
- “Dostojévski [sic] me oferece mais do que qualquer cientista, mais do que Gauss!”, disse o físico alemão ao escritor Alexander Moszkowski. Para mais sobre o contexto em que o elogio foi feito, veja Moszkowski, Einstein, the searcher: his work explained from dialogues with Einstein. Tradução para o inglês: Henry L. Brose. Methuen & Co., 1921, cap. 8, III. ↩︎




