Carmilla (1871–1872)

Carmilla (1871–1872)

Primeira novela protagonizada por uma vampira feminina
Neste artigo

Duas décadas antes que o Conde Drácula começasse a frequentar pescoços ingleses, uma bela vampira austríaca já havia interrompido muitas noites de sono na Estíria. Carmilla, a vampira de Karnstein, do irlandês Sheridan Le Fanu, deu à literatura uma de suas primeiras vampiras e ajudou a consolidar elementos hoje indispensáveis ao mito da criatura, como suas presas afiadas, suas sorrateiras visitas noturnas e as incriminadoras marcas duplas deixadas por ela no pescoço das vítimas.

Publicada de modo seriado entre 1871 e 1872, a obra de Le Fanu é um marco da literatura gótica. Narrada no tom lúgubre usual do gênero e repleta de personagens instigantes, a história explora temas como a amizade, a identidade e o sobrenatural de modo ousado, apresentando-nos uma figura feminina fatal e uma estimulante caça ao monstro sem deixar de levantar reflexões sobre os limites da hospitalidade e do fascínio pessoal.

Resumo de ‘Carmilla’ por capítulos

O resumo a seguir contém revelações sobre o enredo da obra.

1. Um susto inicial

A jovem Laura habita um antigo e isolado castelo na Estíria, Áustria, na companhia do pai e de uma equipe de empregados. Sabemos que um episódio a assombrou intensamente na infância: uma bela mulher desconhecida visitou-a em sua cama e, depois de tê-la posto para dormir, atacou-a, desaparecendo em seguida. Embora o pai de Laura não tenha dado importância ao relato da filha e garantido se tratar de um sonho, Laura sempre esteve certa da realidade do evento.

2. Uma convidada

Muitos anos mais tarde, a solitária Laura aguardava a visita do general Spielsdorf ao castelo de seu pai — o militar traria consigo sua sobrinha, Bertha Rheinfeldt, com quem Laura pretendia travar amizade imediatamente — quando uma nova carta do general comunica a morte da pobre Bertha. É pouco depois de receber a notícia que Laura, ao lado do pai e dos criados, presencia um acidente de carruagem nos arredores do castelo.

Enquanto os passageiros se recompõem, o pai de Laura oferece, a seu pedido, cuidados e hospedagem à jovem Carmilla, desacordada pelo trauma. A suposta mãe de Carmilla, também passageira do veículo, aceita prontamente a hospitalidade do homem e, prometendo retornar em três meses, parte às pressas com a mesma comitiva.

3. Comparamos recordações

Ao visitar Carmilla em seu quarto pela primeira vez, Laura reconhece nela a mulher que a assombrou na infância. Com efeito, ambas admitem ter visto uma à outra “em sonho”, doze anos atrás. A infeliz semelhança é logo esquecida por Laura, agora cativada pela beleza e amabilidade de sua hóspede. Misturada à sua atração por Carmilla, no entanto, Laura percebe alguma repulsa. As garotas se despedem carinhosamente e voltam a se encontrar no dia seguinte e com o mesmo deleite.

4. Os hábitos dela — um passeio

Driblando as perguntas curiosas de Laura, Carmilla mantém a discrição sobre si e sua família. Além de seu nome, sabemos somente que ela pertence a uma antiga família nobre cuja casa “fica a oeste”. Carmilla se excede em gestos de carinho para com Laura, abraçando-a, beijando-a e embalando-a frequentemente. Laura recebe tais demonstrações de afeto com um misto de animação e aversão.

Diante do cortejo fúnebre da filha de um guarda florestal, Carmilla demonstra desprezo pela cerimônia e pela religião em geral. Um corcunda visita o castelo oferecendo amuletos contra chupim — criatura semelhante a um lobo que, conforme os boatos que ouvira, vinha atacando o território próximo. O corcunda reconhece dentes pontiagudos em Carmilla. A jovem hóspede recusa a ajuda de um médico no tratamento de “sua doença”. Revela-se que outras mulheres das redondezas adoeceram ou morreram misteriosamente nos últimos dias.

5. Uma semelhança admirável

Laura e o pai reconhecem a impressionante semelhança entre o quadro da condessa Mircalla Karnstein, encontrado no castelo, e a própria Carmilla. O quadro data de 1698. Laura revela ser descendente dos Karnstein por parte de mãe. Carmilla declara não poder se apaixonar por ninguém a não ser Laura.

6. Uma agonia muito estranha

Laura sonha (ou imagina sonhar) com um monstruoso gato preto que invade o seu quarto e a ataca. Ao sentir algo como duas agulhas fincando-se em seu peito, ela acorda e depara com uma figura feminina parada aos pés de sua cama. Indo imediatamente ao quarto de Camila, Laura o encontra trancado pelo lado de dentro.

7. Queda

Nos dias seguintes, Laura, embora durma bem, passa a acordar sentindo-se lânguida e melancólica. Em algumas semanas, ela se torna pálida e seus olhos se dilatam e escurecem, sintomas que ela atribui a uma doença nervosa. Despertando de outro pesadelo, volta a ver Carmilla parada aos pés de sua cama, banhada de sangue do queixo aos pés. Acudindo ao seu grito, os criados a acompanham ao quarto de Carmilla, onde não encontram nenhum sinal da hóspede.

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8. Busca

Apesar de uma busca diligente, o dia amanhece sem que Carmilla tenha reaparecido. Às nove horas da manhã, no entanto, Laura curiosamente volta a encontrá-la no próprio quarto. Carmilla diz ter dormido em sua cama e acordado no sofá do aposento, sem despertar em nenhum momento durante a noite. Inquirida pelo pai de Laura, ela nega ser sonâmbula. O pai de Laura elabora uma explicação perfeitamente natural para o evento, que satisfaz a todos.

9. O médico

O pai de Laura entabula uma conversa sigilosa com o médico que convocou para averiguar o estado de saúde da filha. Laura mostra ao homem a marca que tem no pescoço — o que o leva a confirmar seu misterioso diagnóstico. Ele recomenda que Laura não seja deixada sozinha em nenhum momento. Depois de nova conversa secreta com o médico, o pai de Laura mantém um estranho ar taciturno. Mais tarde, durante um passeio em família, ele encontra e recebe o general Spielsdorf como passageiro em sua carruagem.

10. De luto

O angustiado e raivoso Spielsdorf confessa ao pai de Laura estar em uma missão de honra contra forças sobrenaturais: nas suas palavras, ele quer “servir à vingança dos Céus contra os demônios“ que mataram sua sobrinha Bertha. O pai de Laura lhe pede para esclarecer a história, até então nebulosa para todos. O general o faz enquanto a carruagem segue para as ruínas do território dos Karnstein.

11. A história

Segundo Spielsdorf, uma mulher de aparência aristocrática e sua jovem dama de companhia travaram contato com ele e sua sobrinha durante um baile de máscaras no castelo do Conde Carlsfeld. A mulher misteriosamente sabia seu nome e tratava-o com alguma intimidade, enquanto sua dama e filha, chamada por ela de Millarca, parecia especialmente interessada em Bertha.

12. Um pedido

Sob o pretexto de que precisava partir em viagem urgentemente e de que sua filha não teria condições de acompanhá-la, a mulher desconhecida pedira a Spielsdorf que acolhesse Millarca em seu castelo. Cativado pela beleza e refinamento da jovem dama, ele aceitara, feliz por garantir à sobrinha uma companhia tão adorável.

13. O lenhador

Dentro de alguns dias, o comportamento errático e lúgubre de Millarca passara a preocupar o general; ao mesmo tempo, a saúde de Bertha decaía horrivelmente. Ela relatava sentir, durante o sono, um par de grandes agulhas perfurando sua garganta e, dias mais tarde, também uma sensação de estrangulamento. A inconsciência viera logo em seguida. Ouvindo a história de Spielsdorf, Laura se assombra com a semelhança entre seus sintomas atuais e os que haviam acometido a falecida Bertha e entre os hábitos de Millarca e Carmilla.

A carruagem finalmente chega às ruínas dos Karnstein. Depois de encontrar o que pensa ser o túmulo da condessa Mircalla, o general, para espanto de Laura e do pai, anuncia que a mulher “não está tão morta quanto se imagina” e que ele mesmo pretende decapitá-la. O lenhador local, encontrado pelo grupo, atesta que o vilarejo já foi assombrado por fantasmas e vampiros, mas lamenta que a tumba de Mircalla tenha sido removida do lugar, assim como seu corpo.

14. O encontro

Ainda segundo a história de Spielsdorf, o médico contratado pelo general para examinar Bertha diagnosticara-a como sendo vítima de um vampiro. Disposto a abandonar seus preconceitos, Spielsdorf seguira as recomendações do homem e, à noite, montara vigia à porta do quarto da sobrinha. De madrugada, havia surpreendido Millarca na cama de Bertha. Seus ataques, no entanto, não a atingiram, e a vampira fugiu. Muito debilitada, Bertha morrera ainda antes do amanhecer.

Para surpresa de Laura, tão logo Carmilla entra na capela dos Karnstein, o general toma o machado do lenhador e a golpeia. A jovem o evita, torce seu braço e foge. Segundo Spielsdorf, a garota é ninguém menos que Millarca, a assassina de sua sobrinha. O general manda que Laura se refugie na casa do padre local enquanto ele e outros homens perseguem o monstro.

Ilustração de M. Fitzgerald para “Carmilla”, publicada no segundo volume da revista literária “The Dark Blue” (1871–2)
Ilustração de M. Fitzgerald para Carmilla, publicada no segundo volume da revista literária The Dark Blue (1871–2) — Foto: Reprodução de UVic Libraries Omeka Classic

15. Julgamento e execução

Antes que Laura deixe o grupo, chega à capela o barão Vordenburg. Com a ajuda de Spielsdorf e de um velho mapa, esse estranho homem consegue localizar a lápide perdida da condessa Karnstein.

De volta ao castelo, Laura nota o desaparecimento de Carmilla; na mesma noite, seus terrores inexplicáveis chegam ao fim.

No dia seguinte, na capela de Karnstein, Spielsdorf e o pai de Laura encontram Mircalla jazendo em seu túmulo, bela e corada como se estivesse viva. Na presença de um grupo da Comissão Imperial, uma estaca é cravada no coração da vampira, sua cabeça é decepada, e seu corpo, uma vez reduzido a pó, jogado ao rio.

16. Conclusão

Hospedado no castelo por algumas semanas após a extinção do monstro, o barão Vordenburg revela ao pai de Laura que o responsável pela mudança do túmulo de Mircalla fora um nobre ancestral seu, então apaixonado pela condessa. No fim da vida, arrependido do que fizera, o homem deixara instruções, embora imperfeitas, sobre a localização da lápide.

Na conclusão de seu relato, Laura descreve as características e modus operandi dos vampiros. Ela admite ter levado um bom tempo para esquecer o horror que vivera, e assume vez ou outra lembrar-se de Carmilla e pensar ter ouvido seus passos por perto.

Personagens de ‘Carmilla’

Laura

Protagonista da novela, Laura é inglesa por parte de pai e, pelo ramo materno, descendente dos Karnstein. Com o pai e uma pequena equipe de serviçais, vive em um afastado castelo na Estíria, Áustria. Declaradamente solitária, ela pede ao pai que acolha no castelo a misteriosa Carmilla, jovem por quem passa a nutrir uma grande afeição e alguma repulsa. Torna-se vítima de sua grande amiga, que durante o dia a corteja de modo aberto e obsessivo e, à noite, ataca-a para sugar seu sangue. Mesmo após a execução de Carmilla, Laura não consegue esquecê-la.

Embora tivesse dezenove anos à época dos eventos, ela os narra em cartas para o dr. Hesselius apenas aos vinte e sete1. Como revelado no prólogo da novela, Laura morreu em algum momento entre o fim de sua correspondência com Hesselius e a publicação de sua narrativa, mas não nos é dito com que idade nem por que causa.

Carmilla

Esguia, lânguida e dona de grandes olhos escuros, a jovem Carmilla encanta a todos com sua beleza. Acolhida no castelo do pai de Laura, ela rapidamente busca estreitar laços com sua hospedeira. As declarações e carícias que destina à nova amiga revelam, para a maioria dos críticos, intenções homoeróticas. Carmilla é avessa à religião e a símbolos religiosos em geral. Na segunda metade da novela, descobrimos sua verdadeira identidade: trata-se da condessa Mircalla Karnstein, cujo túmulo se encontra a algumas milhas do castelo. Suas vítimas incluem, além da sobrevivente Laura, Bertha Rheinfeldt e outras mulheres das redondezas.

Carmilla é morta por uma comissão inquisitorial acompanhada pelo pai de Laura, pelo barão Vordenburg e pelo general Spielsdorf. Uma estaca de madeira é cravada em seu coração, e sua cabeça, cortada; o corpo da vampira é incinerado e suas cinzas são despejadas no rio.

Pai de Laura

Embora inglês, serviu ao Império Austríaco; ao aposentar-se, comprou o castelo em que mora. É viúvo e descrito por Laura como “o homem mais gentil da terra”2. A pedido da filha, oferece-se para acolher a recém-acidentada Carmilla em seu castelo. Junta-se ao general Spielsdorf e ao barão Vordenburg na caçada por Carmilla e no ritual de execução da vampira. Seu nome é omitido ao longo de toda a novela.

General Spielsdorf

Amigo do pai de Laura e habitante de um castelo próximo. Acolhe em seu próprio schloss a jovem Millarca, que mais tarde descobre ser a vampira responsável pelo definhamento e morte de sua sobrinha Bertha. É o general quem reconhece que Millarca e Carmilla são a mesma criatura, isto é, a condessa Mircalla Karnstein. Faz companhia ao barão Vordenburg, ao pai de Laura e à Comissão Imperial na execução de Carmilla.

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Barão Vordenburg

Nobre de aparência estranhíssima, chega à capela dos Karnstein coincidentemente quando Laura e seu grupo também percorrem o local. Consultando os papéis que traz consigo, consegue rastrear a verdadeira lápide da condessa Karnstein. Como ele próprio revela, é descendente do homem que ocultou o túmulo de Mircalla3.

“Mãe” de Carmilla

Mulher imponente e de aparência aristocrática, seu nome e verdadeira condição não nos são revelados, embora possamos presumir que também seja uma vampira4. Apresenta-se ao pai de Laura como “mãe de Carmilla” e ao general Spielsdorf como “mãe de Millarca”. Nas duas ocasiões, pede a cada um dos homens que cuide de sua filha enquanto ela mesma parte numa viagem urgentíssima.

Bertha Rheinfeldt

Sobrinha e pupila do General Spielsdorf, querida por ele como sua filha. Embora nunca a tenha conhecido pessoalmente, Laura espera sua visita e antecipa dias felizes em sua companhia. Antes que isso seja possível, no entanto, uma carta do general comunica ao pai de Laura a morte de Bertha.

Madame Perrodon e Mademoiselle De Lafontaine

Natural de Berna, Suíça, Madame Perrodon é a governanta cuidadosa e de boa índole incumbida da criação de Laura desde a morte da mãe da protagonista. Mademoiselle De Lafontaine é a preceptora de Laura5, falante de inglês e alemão.

Trechos marcantes da obra

  • “‘Se você fosse menos bela, penso que eu deveria estar muito amedrontada, mas sendo como é, e você e eu sendo tão jovens, sinto apenas que vim a conhecê-la doze anos atrás e que já tenho direito à sua intimidade. Em todo caso, parece que fomos destinadas, desde a mais tenra infância, a ser amigas. Eu me pergunto se você se sente tão estranhamente atraída por mim como eu por você; eu jamais tive uma amiga — terei encontrado uma agora?’ Ela suspirou, e seus belos olhos negros fitaram-me apaixonadamente.”6
  • “‘Querida, seu coraçãozinho está ferido; não me creia cruel porque obedeço à lei irresistível da minha força e fraqueza; se seu amado coração está ferido, meu selvagem coração sangra com ele. No êxtase da minha enorme humilhação eu vivo em sua confortável vida, e você deve morrer — morrer, docemente morrer — na minha. Não posso evitar. Assim como me aproximo de você, você, por sua vez, se aproximará de outros, e conhecerá o êxtase dessa crueldade, que ainda é amor; então, por enquanto, não busque saber mais sobre mim, mas creia em mim com todo o seu amável espírito.’”7
  • “‘Estamos nas mãos de Deus; nada pode acontecer sem Sua permissão, e tudo acabará bem para aqueles que o amam. Ele é nosso fiel Criador; fez-nos a todos e cuidará de nós.’ § ‘Criador! Natureza!’, disse a jovem em resposta ao meu gentil pai. ‘E essa doença que invade o país é natural. Natureza. Todas as coisas provêm da Natureza — não é? Todas as coisas no céu, na terra e sob a terra agem e vivem como a Natureza ordena? Penso que sim.”
  • “Está próximo o tempo em que você deverá saber de tudo. Você me achará cruel, muito egoísta, mas o amor é sempre egoísta; tanto mais egoísta quanto mais ardente. Você não é capaz de saber quão ciumenta eu sou. Você deve vir comigo, amar-me, até a morte; ou, então, odiar-me e ainda assim vir comigo, e odiando-me na morte e depois. Não há palavra como indiferença em minha natureza apática.’”8
  • “O vampiro é propenso a ficar fascinado com uma absorvente veemência, semelhante à paixão do amor, por certas pessoas. Em busca delas ele exercitará paciência e estratagemas inesgotáveis, já que o acesso a um dado alvo pode ser obstruído de inúmeras maneiras. Ele nunca desistirá até que tenha saciado sua paixão, e drenado toda a vida de sua cobiçada vítima. Mas, nesses casos, ele poupará e prolongará seu prazer assassino com o refinamento de um epicurista, e há de elevá-lo com as aproximações graduais de um astuto cortejo. Nesses casos, ele parece ansiar por algo como simpatia e consentimento. Nos casos comuns, ele vai direto ao seu alvo, domina com violência, e o estrangula e esgota frequentemente em um único banquete.”9
Abertura do primeiro capítulo de “Carmilla”, no terceiro volume da coletânea “In a glass darkly” (1872)
Abertura do primeiro capítulo de Carmilla, no terceiro volume da coletânea In a glass darkly (1872) — Foto: Reprodução de Internet Archive

Temas centrais de ‘Carmilla’

Erotismo e sexualidade feminina

A crítica contemporânea10 tende a indicar o erotismo e a sexualidade feminina como temas dominantes e razoavelmente explícitos em Carmilla.

De fato, a atratividade física desempenha um papel importante na novela de Le Fanu. A beleza da própria Laura é muitas vezes exaltada por seus companheiros de cena, mas é em Carmilla que a celebração das aparências atinge o ápice. Laura, assim como seu pai e o general Spielsdorf, são atraídos em especial pelas feições deslumbrantes da vampira.

Ao contrário do que se pode pensar, contudo, não há nenhuma descrição grosseira ou detalhada do corpo de Carmilla, a não ser, quando muito, de seus cabelos e olhos. O erotismo, então, surge sobretudo de seu comportamento: ela rapidamente torna-se íntima de Laura, abraçando-a, beijando-a, deitando-se ao seu lado com frequência e declarando-se para ela. Para os padrões literários da segunda metade do século XIX, a proximidade física entre as protagonistas é certamente bastante arrojada.

A relação entre Laura e Carmilla é geralmente tida como uma insinuação de lesbianismo. Com efeito, as declarações feitas a Laura por Carmilla são nada menos do que veementes (“você é minha”, ela sentencia), levando a própria Laura a supor que sua hóspede pudesse ser um amante masculino disfarçado. Ao lado disso, as vítimas de Carmilla são, todas elas, mulheres — um indicativo de sua predileção pelo mesmo sexo. Ainda assim, Laura não corresponde perfeitamente às investidas da amiga. Seus sentimentos por Carmilla oscilam entre o fascínio e a repulsa — o que alguns críticos considerarão uma consequência da repressão social então imposta à homoafetividade11.

Embora popular entre teóricos, a identificação de Carmilla como um texto queer (se é que podemos empregar o termo em relação a uma obra novecentista sem incorrer de imediato no ridículo) é problemática. Alguns textos introdutórios à novela12 e artigos on-line e acadêmicos a seu respeito fazem-na parecer o relato de um aberto e inquestionável romance lésbico, um exagero concretizado pela maioria das adaptações da história para o cinema. Embora o tom homoerótico de algumas das interações entre Carmilla e Laura seja inegável, ainda estamos diante de uma história de mistério e horror, cujo principal objetivo é provocar tensão e assombro.

  • A inclinação dos vampiros a vitimar mulheres jovens já havia sido explorada em O vampiro (1819), de John William Polidori13, e The mysterious stranger (1844), de Karl von Wachsmann14. Como é de imaginar, os monstros são, em ambas as narrativas, homens — mas, considerando que Carmilla compartilha de sua natureza monstruosa, não surpreende que ela replique as preferências de seus antecessores quanto a suas vítimas. Além disso, podemos especular que a carga erótica da narrativa teria sido muito mais intensa para o leitor vitoriano se Le Fanu fizesse sua jovem e bela vampira visitar a cama de homens adultos.
  • Carmilla não narra nem faz referência a cenas de sexo explícito ou beijos lascivos entre mulheres (ou casais heterossexuais), nem mesmo na forma de trocadilhos ou jogos de palavras. Como sabemos, Laura nunca corresponde espontaneamente às carícias importunas da amiga. Também temos de considerar que a flutuação de Laura entre o fascínio e a repulsa por Carmilla podem se dever apenas ao aspecto simultaneamente atraente e assustador próprio dos vampiros — vampiros anteriores como o lorde Ruthven, de Polidori, ou o cavaleiro Azzo von Klatka, de Wachsmann, exercem efeitos semelhantes sobre suas vítimas.
  • O décimo sexto e último de Carmilla lança por terra a sugestão de que Carmilla se aproximaria livremente de outras mulheres ou que o faria com a intenção primária de seduzi-las. Segundo a mitologia estabelecida por Le Fanu, os vampiros eventualmente podem ser cativados por suas vítimas, comportando-se, então, como apaixonados. Nesses casos, contudo, seus jogos de charme e aproximação calculada servem somente para prolongar o prazer que experimentam ao drenar a vida alheia. Assim como, obedecendo à sua natureza, Carmilla não controla sua atração por Laura, o objetivo de seu cortejo não é estabelecer um romance com sua hospedeira, mas matá-la.
  • Nas interpretações modernas da novela de Le Fanu, pouca atenção parece ser dada ao vampiro como representação do diabo, uma associação corriqueira para escritores e leitores vitorianos. Como o demônio cristão, o vampiro é astuto e sedutor no exercício de sua malignidade. Se o papel do diabo é levar o homem à doença do pecado e à morte eterna, o papel do vampiro é levá-lo à doença física e à morte terrena (ou à transformação em vampiro, também uma figura da condenação da alma). Sob essa perspectiva, podemos considerar a eventual aversão de Laura por Carmilla como uma resistência inconsciente às artimanhas diabólicas de sua tentadora.
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Alguns teóricos sustentam que a associação entre vampirismo e lesbianismo em Carmilla tenha simbolicamente equiparado a homossexualidade feminina à monstruosidade15. Outra interpretação, decorrente dessa e não tão incomum, alega que o extermínio da vampira por uma comitiva exclusivamente masculina representa o triunfo da repressão patriarcal sobre a sexualidade desviante16. Ambos os pontos de vista soam bastante disparatados e são, apesar disso, pouco confrontados.

  • Em primeiro lugar, Carmilla é essencialmente uma vampira; seu gosto por vítimas do mesmo sexo, um traço acidental. Ela é, no nível mais profundo e antes de qualquer suposta inclinação sexual, um monstro. Seria necessário um salto lógico indefensável para crer que sua personagem permita perceber o lesbianismo como monstruoso quanto está claro que a verdadeira monstruosidade a temer está na sua condição de criatura assassina.
  • Em segundo lugar, sua execução difere muito pouco da de vampiros literários anteriores e posteriores, independentemente do sexo, idade ou orientação afetiva de cada um deles. Décadas antes de Carmilla, Azzo Von Klatka também fora perseguido e morto, e sua execução, desempenhada por uma mulher; décadas depois dela, a comitiva de Abraham Van Helsing, da qual Mina Harker foi parte decisiva, moveu todo o esforço possível para encurralar e executar o Conde Drácula17. Ambos os monstros eram homens e, até onde se sabe, heterossexuais — vampiros caçados por serem vampiros, como suporia qualquer leitor de bom senso18.

Apesar de sua popularidade como um texto progressista e queer, Carmilla não apresenta um relacionamento politicamente correto e consensual entre amorosas, liberais e sexualmente libertas mulheres adultas lésbicas. Carmilla é uma predadora sexual — tão repulsiva quanto qualquer abusador masculino emocionalmente manipulador: ela apalpa e acaricia Laura sem permissão, secretamente a ameaça com violência se ela amar outra pessoa e espontaneamente exige tocá-la e ser tocada.19

Perda da inocência

Um ponto de vista a considerar é que a mordida vampírica de Carmilla simboliza a transição de Laura da inocência para a maturidade, marcando a jornada da narradora de uma solitária e carente jovem protegida para uma mulher confrontada com as complexidades do mundo. A princípio, percebemos, a ingenuidade de Laura torna-a vulnerável às manipulações de Carmilla, uma exploradora perversa. A mordida da vampira pode representar a perda da inocência considerada como “fim da credulidade” ou, ainda, como “despertar da sexualidade”, tema tabu na era vitoriana.

A relação com Carmilla transforma Laura de modo profundo, física e emocionalmente. A mordida e a doença subsequente levam Laura não só a questionar a complexidade de caráter de sua amiga, mas também a sofrer com o mistério da enfermidade, marcas de sua passagem para a vida adulta. A descoberta da verdadeira Carmilla, possibilitada pelo contato de Laura com a experiência de outros adultos expostos ao sofrimento, liberta a protagonista da ingenuidade e confronta-a com as facetas sombrias da vida. Mesmo após a execução da vampira, Laura continua a lutar com a ambiguidade de suas emoções em relação à antiga companheira, reconhecendo a natureza complicada das relações maduras.

Em contraste com a evolução pessoal de Laura, Carmilla permanece presa em uma espécie de adolescência eterna, tirando proveito de sua aparência inocente para manipular seus alvos e lhes causar sofrimento. Sua incapacidade de amadurecer e conectar-se com os outros reforça sua essência monstruosa. A estrutura narrativa da novela, em que uma Laura adulta relata suas experiências, enfatiza o crescimento e a transformação sofridos por ela, contrastados com a estagnação física e moral de Carmilla.

Estendendo nossa visão para além das protagonistas, notamos que Laura não é a única a ser arrancada de seu estado de inocência inicial: também seu pai e o general Spielsdorf são vítimas de Carmilla e sua “mãe”. Aproveitando-se da hospitalidade e cortesia dos dois homens, Carmilla instaura a dúvida, a estranheza e a morte em suas propriedades. Ainda que o pai de Laura desperte a tempo para a causa dos horrores da filha, é tarde demais para o general. De qualquer forma, é somente depois de libertos da ingenuidade e convencidos dos mistérios sobrenaturais que ambos podem eliminar (contando, sabemos, com ajuda de outro homem experiente e desperto) a monstruosidade que acolheram.

Folha de rosto do terceiro volume da coletânea “In a glass darkly” (1872), em que “Carmilla” foi publicada integralmente pela primeira vez
Folha de rosto do terceiro volume da coletânea In a glass darkly (1872), em que Carmilla foi publicada integralmente pela primeira vez — Foto: Reprodução de Internet Archive

‘O outro’

Na opinião de alguns críticos, Carmilla transcende o conto de vampiros para também funcionar como uma metáfora política e cultural. A figura de Carmilla representa uma força invasora e pervasiva, capaz de ameaçar a estabilidade de uma comunidade fechada — ecoando as tensões ainda existentes entre a herança colonial inglesa e a presença anglicana em uma Irlanda predominantemente católica.20

Sob essa ótica, o motivo vampírico em Carmilla simboliza a alteridade e, no limite, a invasão pelo “outro”. Com sua depravação, Carmilla ameaça os “insiders anglicanos virtuosos e justos” representados por Laura e seu pai: subitamente, a respeitável casa inglesa, com suas tradições (como o consumo de chá e o uso do idioma natal pela família), é invadida por um perigo continental. Por outro lado, a relação entre Laura e Carmilla, marcada pela ambiguidade e indistinção (apesar de seu jogo de atração e aversão, ambas estão ligadas pelo “desejo” e pelos genes), indica a dissolução das fronteiras culturais e raciais21.

A narrativa também explora a oscilação dos anglicanos irlandeses (exemplificados no próprio Le Fanu) entre a racionalidade inglesa e a “superstição católica” irlandesa22. Essa hesitação estaria patente no fim da novela — em que, mesmo após um metódico procedimento de execução, a ameaça do vampiro parece não ter sido completamente erradicada23. A indistinção final entre Laura e Carmilla, segundo a qual vítima e algoz se confundem, sugere que a invasão do “outro” é profunda e permanente, desafiando a tentativa de expulsão do primitivo e do horrível24.

Religião e o sobrenatural

Ao explorar as tensões entre ciência, religião e o sobrenatural, Carmilla reflete a ansiedade espiritual da era vitoriana, marcada pelo avanço científico e o progressivo questionamento das crenças religiosas tradicionais. Enquanto algumas obras do período se afastam da supremacia divina, a novela de Le Fanu reafirma a fé em Deus como sustentáculo da luta contra o mal, representado por Carmilla. O livro maneja visões de mundo conflitantes: se, por um lado, a ciência busca explicações racionais, por outro, o sobrenatural desafia as fronteiras do intelecto.

O pai de Laura, homem de ciência e fé, acredita que Deus esteja no comando da criação e, a princípio, se recusa a crer que a doença que vitima as jovens da vizinhança não tenha causas naturais. Sua insistência em explicações racionais, contudo, quase leva à morte de Laura. Em contraste, Carmilla rejeita a religião e a ideia de um Criador, afirmando que tudo procede da natureza. Sua declaração, entendemos, serve especialmente para justificar sua conduta — a qual, natural como a de outros predadores, não deveria causar estranheza. A novela sugere que ambas as perspectivas são perigosas: assim como a negação do sobrenatural impede o reconhecimento de certos males, o pretexto do mal natural pode ser usado para nos convencer a tolerar o abominável.

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‘Carmilla’ e o mito do vampiro

Uma das primeiras narrativas vampíricas em prosa, Carmilla fez contribuições notáveis à formação do mito do vampiro. A novela de Le Fanu estabeleceu muitas das características vampíricas mais tarde tornadas lugares-comuns pelo sucesso de Drácula, de Bram Stoker:

  • A palidez: Assim como seus predecessores na literatura vampírica, como o Lorde Ruthven, o cavaleiro Azzo von Klatka25 e o vampiro Varney26, Carmilla exibe uma palidez marcante. A característica reforça a imagem do vampiro como distante da vitalidade humana — um morto-vivo.
  • Presas afiadas e marcas de mordida no colo ou pescoço: Por meio do vendedor de amuletos contra chupim que visita o schloss, descobrimos que Carmilla é dona dos “mais afiados dentes — longos, finos, pontiagudos”27 que ele já vira. Ao médico de confiança do pai, Laura, por sua vez, relata haver sentido algo como “duas agulhas” penetrando em torno de seu pescoço, à noite28. As presas afiadas e marcas de mordida no pescoço ou colo se tornariam elementos centrais na iconografia do vampiro, especialmente após a publicação de Drácula. As feridas podem representar a invasão do corpo e da alma da vítima, uma marca tanto de possessão como de transformação.
  • Os hábitos noturnos: Carmilla é, como muitos vampiros, uma criatura noturna. Ao lado de seus precursores Ruthven e Varney, no entanto, ela não manifesta nenhuma aversão à luz solar, embora, às manhãs, só desça de seu quarto assim que Laura e a família encerram suas orações. A fragilidade ao sol seria popularizada apenas com Drácula. De todo modo, os hábitos noturnos reforçam a associação do vampiro com o oculto e o proibido.
  • O hábito de repousar em um caixão: Após o romance de Bram Stoker, o caixão se estabeleceu como o local de repouso tradicional do vampiro, símbolo de sua eterna ligação com a morte. Em Carmilla, essa característica é explorada na cena em que o túmulo de Carmilla é descoberto pela Comitiva Imperial e, nele, o corpo da vampira, de olhos abertos e feições coradas, mergulhado em sangue abundante29. A aparência vívida do vampiro em seu túmulo também é vista, anos antes, em The mysterious stranger, de Wachsmann: jazendo em seu caixão, Azzo von Klatka não apresenta “nenhum traço de decadência”, e há até mesmo “um tom rosado em suas bochechas”30.
  • Transmorfismo: A capacidade de se transformar em animais ou outros entes é hoje tida como um atributo clássico do vampiro. Em Carmilla, a personagem-título assume a forma de um gato preto monstruoso e de uma “massa negra palpitante”, ambos flagrados por Laura aos pés de sua cama31.
  • A aversão à fé cristã e seus símbolos: Carmilla mais de uma vez expressa sua aversão ao nome de Deus e a símbolos cristãos em geral. Ela também evita orações, hinos religiosos e cortejos fúnebres32. Curiosamente, a carruagem que transporta Carmilla se acidenta precisamente porque os cavalos que a conduzem desviam de uma antiga cruz de pedra na estrada. A aversão aos valores e símbolos da fé cristã demonstra a natureza profana do vampiro.
  • O ritual de execução do vampiro: A execução de Carmilla segue um ritual criterioso — que envolve a penetração do corpo do vampiro por uma estaca, a decapitação e a cremação, etapas capazes de garantir a destruição completa da criatura. As estacas já haviam sido empregadas em The mysterious stranger, assim como o fogo em Varney, o vampiro. O ritual de execução do Conde Drácula é, a não ser pela cremação, idêntico ao de Carmilla.

Opiniões eruditas sobre a obra

  • Kathleen Costello-Sullivan: “[…] Carmilla permaneceu no radar crítico, atraindo repetidamente atenção e análise. Claro, a própria natureza da história como conto de vampiros por si só gera interesse, respondendo por sua inclusão frequente como um exemplo inicial da forma na ficção britânica, mas Carmilla provou ter muito mais a oferecer do que meramente suas credenciais vampíricas. O potencial da história como metáfora política e/ou cultural, suas ressonâncias psicológicas, suas representações de gênero e sexualidade, e suas inusuais características estéticas e narrativas, para citar apenas algumas áreas de interesse, convidam repetidamente a crítica literária, forçando os acadêmicos a voltar uma e outra vez a essa obra curta e complexa.”33
  • James B. Twitchell: “Ao usar o vampiro mitopoeticamente, as Brontës mostraram quão poderosa uma analogia para a aberrante transferência de energia o vampiro poderia ser, e assim definiram o clima para dois magistrais tratamentos posteriores do vampiro em prosa: Carmilla, de Sheridan Le Fanu, e Drácula, de Bram Stoker. Essas duas obras populares, mas criticamente negligenciadas, tentaram explorar a natureza sexualmente explosiva e ambivalente do mito e não são apenas histórias emocionantes, mas também estudos psicológicos sofisticados. Elas também introduziram o que se tornou um tema dominante na tradição vampírica do século XX — o vampiro como a fantasia masculina adolescente de ‘ame-os-e-destrua-os’.”34
  • M. Grant Kellermeyer: “A própria Carmilla é uma personagem drasticamente mais completa e complexa do que o Conde um-tanto-plano-embora-carismático [Drácula]. Os motivos de Carmilla são vagos; suas intenções, suspeitas, mas conflitantes; e suas origens, trágicas e dotadas de tanto pathos quanto as de Drácula o são de repulsa.”35
  • Marilyn Brock: “A representação de Laura por Le Fanu como um anjo vitoriano não é apenas um ato sentimental de sua parte; ela coloca a corrupção de Laura dentro do contexto da crescente preocupação nacional da Inglaterra com seus interesses imperialistas no mundo, associando temas em Carmilla ao medo da colonização reversa.”36
  • Robert F. Geary: “Tal explicação [sobre o lugar de Carmilla e outras histórias de vampiros na tradição gótica] pode esclarecer não apenas a linhagem da história de vampiros, mas também seu parentesco com outros contos de terror sobrenatural vitorianos e do século XX. Para esse propósito, Carmilla, de Le Fanu, a primeira história de vampiros realmente bem-sucedida, é ideal; ela se destaca como um paradigma da transformação dos incoerentes elementos numinosos do desbotado Gótico na duradoura forma da história de terror sobrenatural moderna.”37
  • Victor Sage: “As outras obras pelas quais ele [Sheridan Le Fanu] é famoso são Uncle Silas, seu clássico assustador de 1864, […] The house by the churchyard (1861), […] e a bela coleção de contos In a glass darkly, que inclui a outra obra singular que fez sua reputação crescer e florescer, a obra-prima do gótico tardio Carmilla, uma novela que construiu lentamente sua reputação, primeiro, por meio de adaptações para o cinema, nas décadas de 1930 e 1960, e depois, por meio da ascensão do gótico como um assunto de estudo acadêmico desde a década de 1960. […] novamente, seu retrato próximo da amizade feminina pelos olhos de Laura, outra inocente, é vital para a criação do vampiro mais crível da literatura, em Carmilla.”38
Ilustração de D. H. Friston para “Carmilla”, publicada no segundo volume da revista literária “The Dark Blue” (1871–2)
Ilustração de D. H. Friston para Carmilla, publicada no segundo volume da revista literária The Dark Blue (1871–2) — Foto: Reprodução de UVic Libraries Omeka Classic

Adaptações e influência cultural

Livros

  • Anne Rice, autora das globalmente populares Crônicas vampirescas, admitiu em entrevista à Southern Illinois University que vampiros como Drácula e Carmilla, apesar de vistos como causadores de horror e repulsa, também são personagens glamourosos e misteriosos.
  • Embora permaneça morta no universo criado pelo autor, Carmilla é mencionada múltiplas vezes em Anno Dracula (1992), de Kim Newman.39
  • Carmilla: The return (1998), romance de estreia de Kyle Marffin, é uma releitura contemporânea da novela vampiresca de Le Fanu.
  • Em The moth diaries: a novel (2002), de Rachel Klein, encontram-se muitos trechos de Carmilla, uma vez que, entre outras obras de literatura gótica, a novela de Le Fanu é lida pela narradora do romance. O livro inspirou o longa-metragem Relação mortal [The moth diaries] (2011), de Mary Harron.
  • Na série japonesa de light novels High School DxD (2008), de Ichiei Ishibumi, a Facção Carmilla, cuja líder é a Rainha Carmilla, é um grupo de vampiros comandado por mulheres. O bando tem como adversária a Facção Tepes, governada por homens.
  • Carmilla: the wolves of Styria (2012), de David Brian, aproveita parte da configuração da novela original para adicionar à obra novos personagens e elementos de horror e tragédia. Carmilla: A dark fugue (2013), também de Brian, concentra-se nas aventuras do General Spielsdorf e tem relação direta com os eventos de Carmilla: the wolves of Styria.
  • Carmilla e outros personagens literários e históricos da Europa oitocentista desempenham papéis centrais em Undead girl murder farce (2015), de Yugo Aosaki, série japonesa de light novels adaptada para mangá e anime.
  • Em European travel for the monstrous gentlewoman (2018), segundo livro da série The extraordinary adventures of the Athena Club, de Theodora Goss, Carmilla e sua parceira Laura Hollis auxiliam as integrantes do Athena Club a encontrar e enfrentar inimigos.
  • An education in malice (2024), de S. T. Gibson, transporta Carmilla para o fictício Saint Perpetua’s College, em Massachusetts, onde ela se tornará a rival acadêmica de Laura Sheridan.

Filmes

Até o momento, não há adaptações cinematográficas estritamente fiéis ao enredo de Carmilla. Os filmes listados abaixo foram baseados na novela de Le Fanu ou fazem referência à obra:

  • O vampiro [Vampyr] (1932), de Carl Dreyer, foi a primeira adaptação cinematográfica da novela. O filme, apenas vagamente baseado no texto de Le Fanu, não agradou ao público.40
  • Rosas de sangue [Et mourir de plaisir] (1960), de Roger Vadim. A edição estadunidense do filme removeu o prólogo e o epílogo originais, bem como a maioria das cenas com insinuações de lesbianismo.
  • O túmulo do horror [La cripta e l’incubo] (1964), de Camillo Mastrocinque, estrelado por Christopher Lee.
  • Atração mortal [The vampire lovers] (1970), de Roy Ward Baker. Acentuando os padrões da companhia britânica Hammer Film Productions, o filme é muito mais sangrento e eroticamente ousado do que seus predecessores. É o primeiro volume da intitulada Trilogia Karnstein, seguido de Luxúria de vampiros (1971) e As filhas de Drácula (1971).
  • A noiva ensanguentada [La novia ensangrentada] (1972), de Vicente Aranda, vencedor do prêmio do Sindicato Nacional do Espetáculo da Espanha (1972).
  • Carmilla (1980), de Janusz Kondratiuk, é uma adaptação razoavelmente fiel da novela de Le Fanu para a TV polonesa.
  • No filme de anime Vampire Hunter D: Bloodlust (2000), de Yoshiaki Kawajiri, o fantasma da vampira Carmilla planeja obter o sangue de uma virgem para o ritual capaz de fazê-la voltar à sua antiga forma física.
  • No filme de animação Batman vs. Drácula (2005), Carmilla Karnstein é a falecida esposa do Conde Drácula que o vampiro tenta trazer de volta à vida.
  • Carmilla é a grande antagonista de Matadores de vampiras lésbicas [Lesbian vampire killers] (2009), comédia de Phil Claydon. Ainda em 2009, o longa-metragem foi eleito pelo público o vencedor da categoria melhor filme no Festival de Cinema de Terror e Fantasia de San Sebastián, Espanha.
  • A intrusa [The unwanted] (2014), de Bret Wood, adapta a novela gótica para o século XXI e a transporta para o interior da Carolina do Sul, nos Estados Unidos.
  • Styria (2014), de Mauricio Chernovetzky e Mark Devendorf, vencedor do Industry Choice Award no festival independente Dances with Films (2014).
  • Carmilla: o filme [The Carmilla movie] (2017), de Spencer Maybee, é derivado do universo da popular websérie Carmilla, de 2014–16.
  • Carmilla (2019), de Emily Harris, situa a história no final do século XVIII. Apenas vagamente baseado na novela homônima, o roteiro reduz drasticamente os elementos de horror e se concentra na relação homoerótica entre as protagonistas. O filme foi indicado a prêmios nos festivais internacionais de cinema de Chicago e Edimburgo.

Seriados e animes

  • Em Yoru o kechirase, 36º episódio do tokusatsu Return of Ultraman (1971–1972), os chamados Dráculas, vampiros alienígenas que atacam mulheres jovens, são naturais do planeta Carmilla.
  • Em State of decay (1980), 4ª série da 18ª temporada do seriado britânico Doctor Who, a vampira Camilla compõe um trio de vilões ao lado dos também vampiros Aukon e Zargo.
  • O episódio Carmilla (1989), de Gabrielle Beaumont, adaptou a novela de Le Fanu para a breve série de televisão americana Nightmare Classics.
  • Nos episódios 5 e 6 da 2ª temporada de True Blood, o hotel Carmilla, em Dallas, Texas, é um ambiente inteiramente adaptado para acomodar vampiros.
  • A popular websérie Carmilla (2014–2016), exibida no YouTube, transforma Laura numa caloura da Silas University cuja colega de quarto, então desaparecida, é substituída por Carmilla. A série venceu prêmios no Banff Television Festival (2016) e no Canadian Screen Awards (2016, 2017 e 2018).
  • No 29º episódio do anime Glass Mask, (2005–2006), a atriz Ayumi Himekawa interpreta Carmilla em uma adaptação da novela para o teatro.
  • A vampira Carmilla Vanstein é uma das personagens principais do anime Kemono Michi: Rise up [Hataage! Kemono Michi], de 2019.
  • No popular anime Castlevania (2017–2021), produção original da Netflix, a cruel vampira Carmilla é a rainha vampira da Estíria e líder do Conselho das Irmãs. Introduzida na segunda temporada, Carmilla é uma das principais antagonistas do seriado.
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Peças

  • Em Illness or modern women (1984), da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura Elfriede Jelinek, Carmilla, uma mulher que faleceu durante o parto, é transformada em vampira pela enfermeira Emily.
  • Carmilla: Vampireskes schauspiel, de Friedhelm Schneidewind e Ulrike Schneidewind. A adaptação alemã, realizada para o Studio-Theatre Saarbruecken, excursionou pela Alemanha e outros países europeus de 1994 a 2000.
  • Carmilla, adaptada por Aly Renee Amidei para o Teatro WildClaw de Chicago e dirigida por Scott Cummins, foi exibida de janeiro a fevereiro de 2011.
  • Carmilla: a play in one act, de David MacDowell Blue, recebeu oito produções entre 2014 e 2020, realizadas por companhias profissionais, universidades e teatros comunitários estadunidenses.
  • Carmilla: a dance with death foi um espetáculo de dança adaptado por Brayden Stallman e Franchesca Parker e dirigido por Stallman para a Next Life Theatre Company, apresentado durante o Philadelphia Fringe Festival, em setembro de 2024.

Ópera

  • Carmilla: a vampire tale (1970), composta por Ben Johnston e com libretto de Wilford Leach, é uma ópera de câmara em 13 cenas. O espetáculo excursionou amplamente até 1977.

Rádio

  • O episódio Carmilla, adaptado por Graham Pomeroy e John Douglas para a segunda temporada da série de drama radiofônico Nightfall, da CBC Radio, foi ao ar em 20 de novembro de 1981.

Música

  • Carmilla’s masque, inteiramente instrumental, é uma das faixas-bônus do álbum Dusk… and her embrace (1996), da banda britânica de black metal Cradle of Filth. Carmilla também é mencionada em um dos versos da canção Queen of winter, throned, do EP V Empire (or Dark faerytales in Phallustein), também de 1996.
  • Carmilla é uma das faixas do álbum Moonlight Waltz (2011), da banda italiana de metal gótico Theatres des Vampires. A canção já havia sido lançada como single em um videoclipe de outubro de 2010.
  • Carmilla… whispers from the grave é uma das canções do álbum De Vampyrica Philosophia (2005), de Alessandro Nunziati (popularmente “Lord Vampyr”), ex-vocalista da banda Theatres des Vampires.
  • A canção-título do álbum Symphonies of the night (2013), da banda teuto-norueguesa de metal sinfônico Leaves’ Eyes, faz menção a Carmilla.

Quadrinhos

  • A série de seis volumes Carmilla, the erotic horror classic of female vampirism! (1991), de Steven Jones e John Ross, publicada pela extinta Aircel Comics, adaptou a novela de Le Fanu para o público adulto.
  • Batizada em homenagem ao autor da novela, a vampira Le Fanu é uma importante antagonista na linha publicada pela Dynamite Entertainment da série de quadrinhos Vampirella. Na obra, Le Fanu é dona do Carmilla Club, boate cujos operadores também são vampiros. A vilã fez sua primeira aparição na história Crown of worms, no volume 4, número 1, de Vampirella, de novembro de 2010.41
  • Carmilla, HQ (2024), da Editora Pandorga, tem texto e ilustrações de Randreo Maximiano.

Videogames

  • Os jogos Simon’s quest (1987), Rondo of blood (1993), Circle of the moon (2001), Dracula X Chronicles (2007), Judgment (2008) e Lords of shadow (2010), da franquia de videogames Castlevania, fazem referência à vampira Carmilla (“Camilla”, em Circle of the moon).
  • Entre os itens coletáveis no videogame Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (2004) está a figurinha de Lady Carmilla Sanguina (1561–1757), vampira creditada por se banhar no sangue de suas vítimas para conservar sua saúde e beleza. Como na série de livros de J. K. Rowling, a carta está contida na embalagem de um Sapo de Chocolate.
  • No RPG eletrônico Fate/Grand Order (2015), a personagem Carmilla é uma versão alternativa de Elizabeth Báthory, também personagem do videogame.
  • Carmilla, a Sombra do Crepúsculo, é uma personagem do jogo on-line multijogador Mobile legends: Bang bang (2016). Na mitologia do videogame, Carmilla, inicialmente humana, foi transformada em um demônio de sangue por seu amante Cecilion.

Quem foi Sheridan Le Fanu?

Joseph Sheridan Le Fanu nasceu em Dublin, Irlanda, em 28 de agosto de 1814. Filho de um clérigo da Igreja da Irlanda, Le Fanu recebeu educação domiciliar privada e, mais tarde, cursou Direito no Trinity College, Dublin. Embora admitido na Ordem dos Advogados, abandonou a profissão para se dedicar ao jornalismo, à edição de revistas e à escrita de ficção.42 Ainda sob pseudônimo, começou a publicar histórias sobrenaturais no fim da década de 1830.

Casado com Susanna Bennet e pai de quatro filhos, Le Fanu sustentou a família com a edição de periódicos e a publicação de romances e contos, não sem enfrentar dificuldades. A morte da esposa (1858), ocorrida em circunstâncias obscuras após um “ataque neurótico”, afetou-o duramente — Le Fanu só voltaria a publicar ficção anos mais tarde, depois de adquirir a Dublin University Magazine. Curiosamente, seu hiato produtivo foi seguido de um período muito prolífico, durante o qual vieram ao mundo suas obras de maior prestígio, como Carmilla, Uncle Silas e The house by the churchyard.

Joseph Sheridan Le Fanu, autor de “Carmilla”, por seu filho Brinsley Le Fanu (óleo sobre tela, 1916)
Joseph Sheridan Le Fanu, autor de Carmilla, por seu filho Brinsley Le Fanu (óleo sobre tela, 1916) — Foto: Reprodução de Wikimedia Commons

Vítima de um ataque cardíaco, Le Fanu morreu em Dublin, em 7 de fevereiro de 1873, aos 58 anos. Sua popularidade, já não muito expressiva comparada à de outros vitorianos, decaiu após sua morte, recuperando-se apenas décadas mais tarde43. Hoje mundialmente apreciado, seu trabalho foi influente para muitos escritores posteriores, como Bram Stoker, E. F. Benson, Robert Louis Stevenson e W. W. Jacobs44.

Marcada pelo mistério, atmosfera lúgubre e personagens psicologicamente instigantes (pelos quais o bibliógrafo americano E. F. Bleiler a considerou a mais importante dos autores de histórias de fantasmas do século XIX45), a obra de Le Fanu cumpriu um papel pioneiro não somente nas histórias de horror sobrenatural, mas também na ficção investigativa. Em homenagem ao escritor, a cidade de Dublin mantém o Le Fanu Park e a Le Fanu Road.

Em suas obras tardias, entre elas Carmilla, Le Fanu frequentemente retrata meninas órfãs, jovens narradoras apáticas e mulheres marcadas pela dor. Para alguns críticos, a recorrência dos temas reflete a culpa que o escritor atribuía a si mesmo pela morte da esposa e sua preocupação com a criação das filhas, agora privadas da figura materna. Além disso, Carmilla tem sido vista, tal como outras histórias de Le Fanu, como “uma alegoria para a Irlanda vitoriana, os abusos da aristocracia, os riscos da modernização e o erro de tentar varrer o passado para debaixo do tapete”46.

Perguntas frequentes sobre ‘Carmilla’

  • Quem escreveu Carmilla, a vampira de Karnstein? A novela Carmilla, a vampira de Karnstein foi escrita pelo irlandês Joseph Thomas Sheridan Le Fanu, geralmente referenciado Sheridan Le Fanu (1814–1873).
  • Em que ano foi publicada a novela Carmilla, a vampira de Karnstein? Carmilla, a vampira de Karnstein foi originalmente publicada de modo seriado na revista literária londrina The Dark Blue, entre 1871 e 1872. Pouco depois, foi adicionada pelo autor à coletânea In a glass darkly, também de 1872.47
  • Quantas páginas tem Carmilla, a vampira de Karnstein? Carmilla, a vampira de Karnstein é uma narrativa breve. Algumas de suas edições brasileiras mais populares têm de 96 a 192 páginas, a maioria delas com textos adicionais. Por sua extensão, é geralmente considerada uma novela.
  • Qual é a melhor tradução brasileira de Carmilla, a vampira de Karnstein? Há muitas traduções brasileiras da novela em circulação. Entre elas, merecem destaque as de Bárbara Menezes (Novo Século), bastante fiel ao texto original, Enéias Tavares (DarkSide Books), Carlos Primati (Wish) e Giovanna Mattoso e Regina Nowaski (Pandorga). Embora seja a mais popular das quatro, a tradução de Mattoso e Nowaski é pouco cuidadosa, e seus erros e imprecisões introduzem alguma confusão no texto.
  • Qual foi a primeira edição brasileira de Carmilla, a vampira de Karnstein? A primeira edição brasileira de Carmilla foi publicada em 1971, com tradução de Pedro Porto Carreiro Ramires, como parte da coleção Trevo Negro, da extinta editora Cedibra (anteriormente Bruguera).48
  • Carmilla foi de fato a primeira vampira da literatura? Apesar de referida como a primeira vampira da literatura, Carmilla foi precedida por algumas colegas de condição. Entre as que conhecemos até então, estão Oneiza, personagem do longo poema narrativo Thalaba the Destroyer (1801), de Robert Southey; Geraldine, do poema Christabel (1816), de Samuel Taylor Coleridge; e Brunhilda, do conto de Ernst Raupach Wake not the dead (1800). Mais detalhes sobre cada uma das obras e sua relação podem ser encontrados neste artigo da professora Sam Hirst, especialista em Literatura gótica e teologia.
  • Carmilla, a vampira de Karnstein inspirou a criação de Drácula por Bram Stoker? Embora o próprio Stoker tenha admitido que seu conhecimento das superstições sobre vampiros se devia a uma “miscelânea de leituras”49, suas anotações não nos dão total certeza de que ele tenha lido Carmilla. Elizabeth Miller, renomada especialista na obra stokeriana, acredita, no entanto, que o autor tenha se familiarizado com histórias anteriores de vampiros como, além de Carmilla, O vampiro (1819), de John Polidori, e Varney, o vampiro (1847), de James Malcolm Rymer e Thomas Peckett Prest; grande parte dos traços físicos e poderes do Conde Drácula está presente nos vampiros de pelo menos uma das três obras50.
  • Carmilla, a vampira de Karnstein é baseada na história de pessoas reais a cujas cartas Le Fanu teve acesso? Não. Este é um boato introduzido por Carmen Maria Machado em sua introdução a Carmilla (2019), da editora americana independente Lanternfish Press. No texto, Machado “revela” que, em 1973, a dra. Jane Leight, da Universidade de Iowa, descobriu no estúdio preservado de Le Fanu a correspondência entre o dr. Peter Fontenot e a defensora dos direitos das mulheres Veronika Hausle. Em suas cartas, Veronika teria relatado a Fontenot seu breve affair com a jovem aristocrata cubano-espanhola Marcia Marén (mais tarde, a Carmilla de Le Fanu). A história é totalmente falsa e aparentemente criada por Machado para replicar o artifício literário que encontramos na introdução da novela original51. De todo modo, a ofensa ao autor (reduzido por Machado a uma espécie barata de plagiador) e a longa peça de desinformação despropositada a que se resume a introdução não merecem nossos aplausos. As notas da editora ao longo da novela também inserem no texto fatos espúrios e interpretações particulares, quase sempre a fim de acentuar seu status queer — demonstrando que os compromissos ideológicos de Machado sobrepujaram qualquer respeito pela obra original.

Conclusão

Marco na literatura de horror, Carmilla, a vampira de Karnstein influenciou significativamente a construção do mito do vampiro. O longo legado da novela de Le Fanu na cultura popular torna-a digna de ser conhecida como muito mais do que uma predecessora de Drácula, como é normalmente lembrada: embora muitas vezes distantes do texto original, suas adaptações atravessaram o teatro, o cinema e os videogames sem perder o vigor, promovendo o sucesso mesmo de produções contemporâneas como a famosa série homônima de 2014, inteiramente transmitida via YouTube.

O fascínio exercido no público por Carmilla reside em sua capacidade de, além de nos transportar para uma inquietante atmosfera gótica, explorar temas intrincados como sexualidade, fé e identidade. Apesar de alguma controvérsia teórica, a relação ambígua entre Laura e Carmilla, permeada por atração e terror, é inegavelmente inusitada e intrigante. Seja como for, quer pelo seu enredo misterioso e personagens peculiares, quer pelo seu erotismo sutil, a narrativa de Le Fanu continua a provocar leitores e críticos, consolidando seu lugar como um pequeno clássico da literatura de língua inglesa.

Referências

  1. Kathleen Costello-Sullivan (ed.), Carmilla by Sheridan Le Fanu: a critical edition. Syracuse University Press, 2013, cap. 1. ↩︎
  2. Ibid. ↩︎
  3. Ibid., cap. 16. ↩︎
  4. Somos levados a supor que todos os personagens que a acompanham também sejam vampiros. A comitiva da carruagem acidentada à entrada do castelo do pai de Laura inclui, sabemos, uma “mulher medonha” e “homens feios, de feições caninas” (cap. 3). No baile de máscaras dado no castelo do conde Carlsfeld, por sua vez, o “cavalheiro de preto” que a acompanha é mortalmente pálido (cap. 11). ↩︎
  5. No original, finishing governess — dama dedicada a “concluir a educação” privada de mulheres adolescentes instruindo-as em competências como etiqueta, arte, música, dança, entre outras. ↩︎
  6. Costello-Sullivan, op. cit., cap. 3. A tradução para o português é minha, como a dos demais trechos citados na seção. ↩︎
  7. Ibid., cap. 4. ↩︎
  8. Ibid., cap. 6. ↩︎
  9. Ibid., cap. 16. ↩︎
  10. É o caso de Carmen Maria Machado (You are mine: obsession, odylic influences, and Le Fanu’s Carmilla [introdução]. In: Machado [ed.], Carmilla – J. Sheridan Le Fanu. 2. ed. Lanternfish Press, 2019), Marilyn Brock (The Vamp and the Good English Mother: female roles in Le Fanu’s Carmilla and Stoker’s Dracula. In: Marilyn Brock [ed.], From Wollstonecraft to Stoker: essays on Gothic and Victorian sensation fiction. McFarland, 2009), Robert F. Geary (Carmilla and the Gothic legacy: Victorian transformations of supernatural horror. In: Leonard G. Heldreth e Mary Pharr [ed.], The blood is the life: vampires in literature. Bowling Green State University Popular Press, 1999) e Elizabeth Signorotti (como visto em Signorotti, Repossessing the body: transgressive desire in Carmilla and Dracula. Criticism, v. 38, n. 4, p. 607–32, 1996). ↩︎
  11. William Veeder, professor emérito da Universidade de Chicago, é talvez um dos principais responsáveis por essa exegese, tornada popular por seu artigo Carmilla: the arts of repression (Texas Studies in Literature and Language, v. 22, n. 2, p. 197–223, 1980). ↩︎
  12. Como as publicações acadêmicas de Nina Auerbach (Our vampires, ourselves. The University of Chicago Press, 1995), Brock (op. cit.) e Signorotti (op. cit.), o artigo on-line da professora Sam Hirst e a introdução de Carmen Maria Machado (op. cit.). ↩︎
  13. O conto de Polidori foi, conforme sabemos até então, o primeiro texto vampírico em prosa. ↩︎
  14. O conto de Wachsmann (originalmente Der Fremde, em alemão), foi dado por mais de um século como de autoria desconhecida. Felizmente, graças à pesquisa de Douglas Anderson e Thomas Honegger, a antologia Vampires: classic tales (2013) pôde creditar pela primeira vez o dificilmente rastreável autor prussiano. Mais sobre Wachsmann e sua obra neste artigo de Women Write About Comics. ↩︎
  15. É o que fazem os artigos de Hirst (op. cit.), e Lindsay Anderson (SGN Book Club: Carmilla, vampires, and the monstrosity of queerness. Seattle Gay News, 24 set. 2021). ↩︎
  16. Ver Hirst, op. cit., e Emilee Calametti, Queering the monstrous feminine: lesbian vampires, folklore, and trauma in Sheridan Le Fanu’s Carmilla. 2021. Dissertação (Mestrado em Inglês) – College of Arts and Sciences, Georgia State University. ↩︎
  17. Veja Karl von Wachsmann, The mysterious stranger (edição independente disponível no Internet Archive), p. 34 e seguintes, e Bram Stoker, Drácula. DarkSide Books, 2018, caps. 24 e seguintes. ↩︎
  18. Com os últimos comentários, não estou tentando negar que o erotismo e a sexualidade feminina desempenhem um papel significativo na novela de Le Fanu. Não posso deixar de constatar, apesar disso, que tenham sido superestimados e interpretados de modo tendencioso por muitos comentaristas do texto. Desgraçadamente, o hábito (generalizado na crítica literária pós-moderna) de examinar obras de outros tempos à luz de pautas contemporâneas — psicológicas, sociopolíticas, sexuais —, pode, ainda que não sempre, levar a exegeses muito questionáveis. A fortuna crítica que se acumulou sobre Carmilla, sobretudo nos últimos quarenta anos, é certamente um dos exemplos mais flagrantes desse infortúnio. ↩︎
  19. M. Grant Kellermeyer, J. Sheridan Le Fanu’s Carmilla: inspirations, interpretations, & a deep literary analysis. Oldstyle Tales, 18 jan. 2024. A tradução é minha. ↩︎
  20. A ideia de Carmilla como uma história sobre a “ansiedade anglo-irlandesa” foi introduzida por Robert Tracy, como visto em Undead, unburied: Anglo‐Ireland and the predatory past (LIT: Literature Interpretation Theory, v. 10, n. 1, 13–33, 1999), mais tarde ecoado pelo professor Jarlath Killeen em An Irish Carmilla? (In: Costello-Sullivan, op. cit., p. 99–109). ↩︎
  21. A indistinguibilidade racial e de classe em Carmilla é extensamente comentada por Renée Fox, Carmilla and the politics of indistinguishability (In: Costello-Sullivan, op. cit., p. 110–21). ↩︎
  22. A tese é de Killeen, em The emergence of Irish Gothic fiction (Edinburgh University Press, 2014, p. 46–7). ↩︎
  23. A interpretação, claramente passível de controvérsia, também é de Killeen (op. cit). ↩︎
  24. Veja Fox, op. cit., e Filipe Chernicharo Trindade, “For the blood is the life”: vampirism and alterity in Le Fanu’s Carmilla. ABEI Journal – The Brazilian Journal of Irish Studies, v. 26, n. 1, 2024. ↩︎
  25. A comparação com Klatka é imperfeita, uma vez que o cavaleiro é descrito como tendo a pele entre o branco e o cinza, ou “de um branco sujo” (ver Wachsmann, op. cit., p. 22). ↩︎
  26. Protagonista da série de penny dreadfuls de James Malcolm Rymer e Thomas Peckett Prest, Varney the Vampire; or, The feast of blood (Project Gutenberg, 2005). ↩︎
  27. Costello-Sullivan, op. cit., cap. 4. ↩︎
  28. Ibid., cap. 9. ↩︎
  29. Ibid., cap. 15. ↩︎
  30. Wachsmann, op. cit., p. 39. ↩︎
  31. Costello-Sullivan, op. cit., caps. 6 e 14. ↩︎
  32. Ibid., cap. 4. ↩︎
  33. Costello-Sullivan, Introduction: Meet Carmilla. In: Costello-Sullivan (ed.), op. cit., xvii. A tradução para o português é minha, como a dos demais trechos citados na seção. ↩︎
  34. James B. Twitchell, The living dead: a study of the vampire in Romantic literature. Duke University Press, 1981, cap. 1. ↩︎
  35. Kellermeyer, Concerning what you are about to read [prefácio]. In: Kellermeyer (ed.), Carmilla, Green tea and other horrors: the best ghost stories and weird fiction of J. Sheridan Le Fanu, annotated and illustrated. Oldstyle Tales Press, 2016. ↩︎
  36. Brock, op. cit., p. 122. ↩︎
  37. Geary, op. cit., cap. 2. ↩︎
  38. Victor Sage, Le Fanu’s Gothic: the rhetoric of darkness. Palgrave Macmillan, 2004, p. 1 e 6. ↩︎
  39. Em um artigo em seu website, Newman compartilha as principais influências de sua série de livros. ↩︎
  40. Porto Editora, Carl Dreyer. Infopédia, [ac.] 12 dez. 2024. ↩︎
  41. A Headhunter’s Horror House Wiki oferece artigos mais detalhados sobre Le Fanu e o Carmilla Club. ↩︎
  42. A mini-biografia de Le Fanu se baseia nos artigos de Melissa Dickson (Joseph Sheridan Le Fanu; Oxford Bibliographies, 11 jan. 2024) e Patrick Maume (Le Fanu, Joseph Thomas Sheridan; Dictionary of Irish Biography, out. 2009). ↩︎
  43. Especialmente quando o britânico M. R. James, famoso autor de histórias sobrenaturais, creditou-o como um de seus mestres. ↩︎
  44. Kellermeyer, 2016. ↩︎
  45. Ibid. ↩︎
  46. Kellermeyer, 2024. ↩︎
  47. Costello-Sullivan, Introduction: Meet Carmilla, xvii. ↩︎
  48. Luise Soares Pereira de Souza, Às voltas com vampiros [prefácio]. In: Luise Soares Pereira de Souza (org.), Carmilla: uma história de vampira em quatro versões. Fale/UFMG, 2016, p. 7. ↩︎
  49. Elizabeth Miller, Dracula: sense and nonsense. Desert Island Books, 2006, cap. 1. ↩︎
  50. Ibid. ↩︎
  51. A história falsa de Machado chegou a intrigar muitos usuários do Reddit. Ver Machado, op. cit. ↩︎
Caricatura do escritor, professor e produtor de conteúdo digital Felipe Pardal

Felipe Pardal é um escritor de ficção, pesquisador, criador de conteúdo digital e tutor particular de Literatura e Escrita Criativa. Autor de Samuca (romance, agora em processo de reescrita), é pós-graduado lato sensu em Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS, Brasil) e bacharel em Direito. Mais sobre o Felipe aqui.

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