Plot twist

Plot twist

Termo da cultura popular para designar reviravoltas narrativas
Neste artigo

O psicólogo estava morto desde o princípio; Darth Vader é o pai de Luke Skywalker; e — quem diria? — o mordomo era realmente o assassino do magnata. Se já teve a impressão de que, como nos últimos exemplos, uma narrativa puxou o tapete sob seus pés, você já foi vítima de um plot twist.

Do teatro grego aos roteiros de Hollywood, o famoso recurso narrativo segue sendo um dos mais potentes artifícios para tornar um enredo inesquecível — ou, ao menos, para garantir que nunca mais confiemos nos personagens de um thriller. Neste artigo, exploraremos em que exatamente consistem os plot twists, rastreando suas origens e identificando sua aplicação em uma longa lista de obras artísticas ao longo da história.

O que é um plot twist?

O plot twist (do inglês plot, “enredo”, e twist, “reviravolta”) é um recurso narrativo que introduz uma reviravolta inesperada na trama, responsável por mudar drasticamente o rumo da história e/ou a percepção do público sobre os últimos eventos. Um twist surpreende o leitor (ou espectador) ao contrariar as expectativas que a própria narrativa o havia levado a criar. Nas últimas décadas, a técnica se tornou comum em gêneros como mistério, “drama” e terror.

Origem do termo

Embora o popular termo plot twist seja relativamente recente e mais comum em contextos cinematográficos e televisivos, é possível rastrear a origem do que entendemos por reviravoltas narrativas e traçar sua evolução no universo da cultura.

Origens clássicas: Aristóteles e a tragédia grega

Na sua Poética, o filósofo grego Aristóteles introduziu os conceitos de peripécia e anagnórise — elementos essenciais, segundo ele, para a escrita da tragédia ideal. Ambos os dispositivos são os precursores do que hoje chamaríamos de plot twists.

No universo teatral, a tragédia é uma forma dramática caracterizada pela sobriedade e pela passagem do protagonista “da prosperidade à desgraça”. Seu objetivo é, segundo o próprio Aristóteles, suscitar no espectador o temor e a compaixão, e, por fim, provocar a catarse — uma purificação emocional1.

Anagnórise

Em literatura, a anagnórise (do grego antigo ἀναγνώρισις, “reconhecimento”) é um recurso narrativo que consiste na descoberta ou reconhecimento, por parte de um personagem, de informações cruciais — antes desconhecidas ou ignoradas por ele — sobre sua identidade, família ou circunstância atual. Com frequência, o reconhecimento impacta profundamente o personagem, alterando o modo como ele vê a realidade e, muitas vezes, deflagrando mudanças drásticas no rumo da história.2

Embora não seja exatamente o que entendemos por plot twist, a anagnórise pode levar a ele se revolucionar a direção dos eventos da narrativa.

Exemplos de anagnórise:

  • Em Édipo rei (c. 427 a.C.), de Sófocles, Édipo descobre que matou o pai, Laio, e casou-se com a mãe, Jocasta.
  • Em As bacantes (405 a.C.), de Eurípides, Agave mata seu filho, Penteu, julgando que ele seja uma fera; depois, reconhecerá o erro.
  • Em Grandes esperanças (1861), de Charles Dickens, Pip descobre que seu misterioso benfeitor é não a senhorita Havisham, como pensava, mas o criminoso foragido Magwitch.

“Reconhecimento, como o nome indica, é a passagem da ignorância para o conhecimento, para a amizade ou para o ódio entre aqueles que estão destinados à felicidade ou à infelicidade. O reconhecimento mais belo é aquele que se opera juntamente com peripécia, como acontece no Édipo. Há […] outras formas de reconhecimento: mesmo coisas inanimadas ou acidentais podem ser alvo de reconhecimento e reconhecer é também saber se uma pessoa fez ou não fez certa coisa. Mas o reconhecimento mais próprio do enredo e da ação é aquele de que falamos.”3

Peripécia

Em literatura, a peripécia (do grego antigo περιπέτεια, “mudança” ou “reversão de fortuna”) consiste na alteração súbita da sorte do protagonista — um ponto de virada que influenciará todo o curso da história a partir de então. Assim como a anagnórise, o dispositivo foi reconhecido no teatro da Antiguidade Clássica por Aristóteles, que emprega o termo pela primeira vez na Poética.4

Segundo o filósofo, tanto a peripécia como a anagnórise não deve surgir no enredo como fruto do acaso, mas “da própria estrutura do enredo” — como consequência de eventos anteriores e segundo o “princípio da necessidade e da verossimilhança”5.

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Exemplos de peripécia:

  • Em Édipo rei, um mensageiro acredita que trará alívio a Édipo ao noticiar a morte do rei Políbio. Ao revelar sua própria identidade, no entanto, o homem causa o efeito oposto.
  • Em Titanic (1997), filme de James Cameron, o choque do grande navio com um iceberg interrompe a tranquilidade da viagem e, mais tarde, sela o destino dos tripulantes.
  • Em Tempo é dinheiro (2010), de Lionel Shriver, Shep Knacker beira a falência depois de custear o tratamento do câncer da esposa. Incentivada pelo marido, Glynis comete perjúrio em uma ação judicial e obtém uma indenização financeira ainda maior do que a quantia que Shep despendera, restabelecendo o bem-estar material.

“Peripécia é, como foi dito, a mudança dos acontecimentos para o seu reverso, mas isto, como costumamos dizer, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade. Assim, no Édipo, o mensageiro que chega com a intenção de alegrar Édipo e de o libertar dos seus receios em relação à mãe, depois de revelar quem ele era, produziu o efeito contrário.”6

Em sua tese de doutoramento, o estudioso de narrativas Milan Terlunen argumenta que a peripécia e o plot twist não devem ser confundidos. Na sua opinião, o twist deve constituir uma surpresa tanto para o personagem afetado quanto para a audiência, o que não necessariamente ocorre na peripécia — em que nós, privilegiados por um posto de “ironia dramática”, muitas vezes sabemos mais do que os próprios personagens.7

Plot twist e deus ex machina

O dispositivo narrativo deus ex machina (“deus da máquina”, em tradução direta do latim) consiste em empregar um evento imprevisível, como o surgimento de um personagem ou condição, a fim de resolver rapidamente os problemas de um enredo. É o caso de, ao fim de um romance, “descobrir um testamento perdido” — recurso favorito dos romancistas vitorianos, segundo o professor da Universidade de Londres Chris Baldick.8

O termo deus ex machina tem origem nos teatros grego e romano. Foi assim nomeado pois, em peças gregas antigas — sobretudo as de Eurípides, que recorreu a ele em cerca de metade de seus trabalhos conhecidos9 —, os deuses surgidos do céu para resolver a crise de um enredo eram geralmente trazidos ao palco por um guindaste (mēchanē, em grego). O recurso parece datar do século V a.C.10

Na opinião de Milan Terlunen, o deus ex machina, como a anagnórise e a peripécia, não deve ser confundido com o plot twist. Terlunen admite que o dispositivo também representa uma surpresa tanto para nós como para os personagens, mas, como “uma resolução não preparada”, não altera a compreensão dos eventos anteriores do enredo — atributo necessário, segundo o autor, dos twists. Acompanhando a longeva pesquisadora independente Marie-Laure Ryan11, Terlunen considera o deus ex machina um “truque barato de enredo”:12

“Ryan, de fato, classifica tais truques como ‘plot twists esteticamente deficientes’, e considero que a principal distinção reside em se a surpresa foi preparada: um deus ex machina realmente surge do nada; um plot twist revela uma situação que sempre existiu.”13

Exemplos de deus ex machina:

  • Em Filoctetes (409 a.C.), de Sófocles, Héracles garante o cumprimento do destino heróico de Filoctetes descendo dos céus e ordenando ao herói que vá a Tróia, prometendo-lhe a cura para sua ferida e a glória na batalha.
  • Em Orestes (408 a.C.), de Eurípides, o deus Apolo interrompe uma cadeia de vingança ao levar Helena consigo para o céu e determinar que, indo a Atenas, Orestes se entregue ao julgamento das deusas, do qual lhe garante que sairá vitorioso.
  • Em O poço e o pêndulo (1842), de Edgar Allan Poe, o exército francês subitamente livra o protagonista de ser esmagado pelas paredes retráteis do poço em que os inquisidores o prenderam.

As mil e uma noites

O conto As três maçãs, que integra as Mil e uma noites — coletânea cuja fonte mais antiga remete ao século IX14 — é outro antigo exemplo de narrativa com múltiplos plot twists.

Na história, o califa Harun al-Rashid ordena a Ja’far ibn Yahya, seu vizir, que descubra quem assassinou a mulher cujo corpo esquartejado foi encontrado dentro de um baú no rio Tigre. Embora o impotente Yahya não promova “investigações”, o enredo nos leva a uma intrincada série de confissões, mal-entendidos e novas descobertas.

A princípio, o vizir é desnorteado por uma confissão dupla: um jovem e um velho garantem, cada um por si, ser o assassino da mulher. Pouco depois, contudo, o jovem prova ser o marido da vítima e verdadeiro criminoso, revelando ter matado a esposa por acreditar que ela houvesse cometido adultério.

Primeira edição de “O assassinato de Roger Ackroyd” (1926), de Agatha Christie, ao lado de sua dust jacket
Primeira edição de O assassinato de Roger Ackroyd (1926), de Agatha Christie, ao lado de sua dust jacket — Foto: Reprodução de Raptis Rare Books

Segundo o marido, a mulher, então doente, desejava comer uma maçã. Ele, amoroso, percorreu longas distâncias por quinze dias até obter três maçãs exóticas para satisfazê-la. De volta, entretanto, encontrou-a ainda mais debilitada e, agora, incapaz de comer. Dias depois, reconheceu uma das maçãs nas mãos de um escravo — que, inquirido por ele, disse que a ganhara de sua amante. Tomado pelo ciúme, o marido voltou para casa e cometeu o crime.

No cruel plot twist da narrativa, o filho do casal mais tarde revela ao pai que ele mesmo apanhara a maçã e que, infelizmente, um escravo mais tarde a havia surrupiado. Com isso, descobrimos não só a mentira do escravo sobre “o presente de uma amante”, mas, por consequência, a inocência da esposa — cujo assassinato ocorrera por um terrível mal-entendido.

As reviravoltas não param por aí. Ja’far, agora incumbido — sob pena de morte — de descobrir o paradeiro do escravo mentiroso, não crê que seja capaz de fazê-lo. Desenganado por si mesmo, ele se despede das filhas — e é nos bolsos de uma delas que encontra a problemática maçã. A garota lhe diz que a fruta fora trazida à casa por Rayhan, um dos escravos da própria família. O escravo, que confessa tê-la roubado de um menino, é conduzido por Ja’far ao califa. Impressionado com as múltiplas coincidências, o governante gargalha em vez de se enfurecer. Ja’far passa, então, a lhe contar uma história, pedindo-lhe para perdoar seu escravo caso a achasse mais surpreendente que os últimos eventos. Por fim, tudo se resolve de modo inesperado e praticamente absurdo, resvalando da crueldade para a comicidade, como não é incomum nos velhos contos das Mil e uma noites.

Se o teatro grego nos sugere que o plot twist é tão antigo quanto a arte de contar histórias, as reviravoltas de As três maçãs e de outras narrativas de As mil e uma noites atestam que o recurso permaneceu, inclusive no Oriente Médio, vivo e pulsante ao longo dos séculos — desde muito antes que os romances policiais e thrillers psicológicos o refinassem.

O cinema e o desenvolvimento dos plot twists

Embora o conceito de reviravolta seja antigo, o termo plot twist passou a ser empregado no início do século XX, quando o advento do cinema deu ao recurso popularidade especial15. O marco do expressionismo alemão O gabinete do dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, é também um dos primeiros exemplos de narrativas surpreendentes que conhecemos não por meio de palavras, mas de telas.

O filme narra a história de Francis, jovem que investiga uma série de assassinatos em um pictórico vilarejo alemão. Ao que tudo indica, os crimes estão ligados ao misterioso Dr. Caligari, hipnotizador que exibe em feiras o sonâmbulo Cesare, capaz de prever o futuro. Quando Cesare é acusado de, sob ordens de Caligari, cometer assassinatos enquanto dormia, Francis decide descobrir o que há por trás da sinistra figura do doutor.

Por fim, descobrimos que Francis é, na verdade, um dos pacientes de um hospital psiquiátrico — e que os eventos anteriores podem não ter sido mais do que alucinações. O dr. Caligari, longe de ser um criminoso, é o diretor da instituição. Antecipando temas que se tornariam frequentes no que hoje chamamos “thriller psicológico”, o plot twist final inverte por completo nossa perspectiva — abrindo alas para as produções intrigantes que se estenderiam pelo resto do século, de Psicose (1960) a O sexto sentido (1999).

Exemplos de plot twist

Embora tenham estreado no teatro, os plot twists obviamente não se restringiram ao palco. Como dispositivos narrativos universais, podemos encontrá-los em todo gênero e sob toda forma que uma história pode assumir: romances, contos, filmes, seriados — e inclusive no enredo de videogames populares.

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Plot twists em livros

A lista abaixo contém revelações importantes sobre o enredo das obras.

  1. Novela A marquesa de O. (1808), de Heinrich Von Kleist
    Ao fim da novela, descobre-se que o conde F., oficial russo que salvara a marquesa durante a guerra, foi também quem a engravidou enquanto ela estava inconsciente — subvertendo nossa opinião sobre o personagem.
  2. Novela O duelo (1811), de Heinrich Von Kleist
    Gravemente ferido no duelo16 contra o conde Jakob, Sir Friedrich von Trota é milagrosamente curado, enquanto o conde adoece severamente por conta de uma pequena escoriação. A reviravolta de saúde dos combatentes é tomada como a verdadeira manifestação do juízo divino, e prova a inocência de Lady Littegarde, por quem Trota havia lutado.
  3. Conto William Wilson (1839), de Edgar Allan Poe
    O narrador persegue e, por fim, mata um homem que o assombrara durante toda a vida — apenas para descobrir que seu duplo era, na verdade, a personificação de sua consciência e contenção moral. Ao matá-lo, o narrador “destrói o que há de bom em si mesmo”, morrendo “para o Mundo, para o Céu e para a Esperança”17.
  4. Conto O colar (1884), de Guy de Maupassant
    Após anos de pobreza extrema e trabalho extenuante para restituir a uma amiga o colar de pérolas que perdera em um baile, Madame Loisel descobre que a joia era falsa.
  5. Grandes esperanças (1861), de Charles Dickens
    O benfeitor secreto do protagonista e narrador Pip não é a rica Miss Havisham, como ele sempre acreditou, mas o condenado foragido Abel Magwitch, a quem Pip ajudara quando criança.
  6. O assassinato de Roger Ackroyd (1926), de Agatha Christie
    O dr. James Sheppard, narrador do livro e até então auxiliar do detetive Hercule Poirot na investigação do crime, é o assassino.
  7. Assassinato no Expresso do Oriente (1934), de Agatha Christie
    Em um ato coletivo de vingança, todos os suspeitos de Hercule Poirot participaram do assassinato de Edward Ratchett: cada um lhe deu uma facada, meticulosamente encobrindo o crime para que parecesse obra de um único assassino.
  8. Rebecca (1938), de Daphne du Maurier
    Rebecca, a falecida esposa de Maxim de Winter, não era a figura virtuosa que a nova “sra. de Winter”, narradora do romance, imaginava — mas uma manipuladora cruel cuja morte não fora acidental: Rebecca fora assassinada por Maxim ao revelar que estava grávida de outro homem e que pretendia criar o filho como herdeiro da mansão Manderley, propriedade do marido.
  9. 1984 (1949), de George Orwell
    Contrariando as expectativas de Winston, seu “mentor” O’Brien se revela não um membro da Irmandade — grupo de resistência ao qual o protagonista esperava se unir —, mas do próprio Partido opressor. A revelação leva à captura de Winston e de sua amante Julia pelo Partido, que os torturará física e psicologicamente.
  10. Conto Venha ver o pôr do sol, em Antes do baile verde (1970), de Lygia Fagundes Telles
    Tendo conseguido que a ex-namorada Raquel o acompanhasse a um passeio por um cemitério abandonado, Ricardo subitamente a aprisiona em um mausoléu e tranquilamente abandona o lugar.
  11. As crônicas de Nárnia: A última batalha (1956), de C. S. Lewis
    Pedro, Edmundo, Lúcia, Jill e Eustáquio descobrem, por meio de Aslam, que morreram em um acidente de trem — e que não apenas haviam lutado pela salvação de Nárnia, mas já entrado na “verdadeira Nárnia” — esta, eterna e perfeita. Embora o desfecho das crianças pareça amargo, a morte é o que as conduz ao início da vida plena, numa clara alegoria cristã.
  12. Planeta dos macacos (1963), de Pierre Boule
    O misterioso planeta em que macacos evoluídos dominaram e escravizaram os humanos é, na verdade, a própria Terra no futuro — uma crítica sombria à guerra e à obsessão pelo progresso.
  13. Psicose (1959), de Robert Bloch
    O assassino à solta no Hotel Bates não é a sra. Bates, como tudo nos leva a crer, mas o próprio Norman Bates. O homem, que há anos assassinara a mãe e seu companheiro, desenvolveu uma segunda personalidade — na qual assumia o papel da mãe morta, inclusive vestindo-se como ela.
  14. Clube da luta (1996), de Chuck Palahniuk
    O narrador descobre ser ele mesmo o rebelde Tyler Durden. O Tyler “externo” com quem acreditava ter fundado o Clube da Luta e travado amizade até então não passava de uma projeção de sua mente.
  15. Reparação (2001), de Ian McEwan
    Grande parte da segunda metade do livro — que descreve a reunião feliz de Robbie e Cecilia — é uma ficção escrita pela narradora, Briony Tallis, como forma de expiar a mentira infantil que destruiu a vida da irmã e de seu amado. Na verdade, Robbie morreu em decorrência de um ferimento de guerra, e Cecília, em um bombardeio, jamais tendo reencontrado um ao outro.
Capa americana do filme “Clube da luta” (1999), adaptação do romance de Chuck Palahniuk cujo plot twist se tornou icônico
Capa americana do filme Clube da luta (1999), adaptação do romance de Chuck Palahniuk cujo plot twist se tornou icônico — Foto: Reprodução de IMDb
  1. Sobre meninos e lobos [Mystic River] (2001), de Dennis Lehane
    Jimmy descobre ter matado o homem errado — seu estranho amigo de infância Dave —, julgando que ele houvesse raptado e assassinado sua filha. Os culpados eram, na verdade, dois garotos vizinhos.
  2. Tirza (2006), de Arnon Grunberg
    Num inesperado monólogo, o pai de Tirza, Jörgen Hofmeester, revela que a filha jamais viajou para a Namíbia — ele mesmo a havia assassinado semanas antes. A narrativa, que até então o fazia parecer não mais do que um homem impotente e atormentado, revela seu colapso psicológico e a violência extrema de que era capaz.
  3. O segredo dos seus olhos (2005), de Eduardo Sacheri
    O ex-oficial de justiça Benjamín Chaparro descobre que, na verdade, Ricardo Morales capturou e manteve em cativeiro por décadas o assassino da esposa, preferindo condená-lo a uma vida inteira de silêncio e reclusão a matá-lo.
  4. Ilha do medo [Shutter Island, também Paciente 67] (2003), de Dennis Lehane
    O detetive Edward “Teddy” Daniels é, na verdade, Andrew Laeddis, um dos pacientes da instituição mental da Ilha Shutter. Toda a investigação é uma elaborada simulação terapêutica encenada pelos médicos para fazê-lo confrontar o fato de que assassinara a esposa ao descobrir que ela afogara os filhos.
  5. Garota exemplar (2012), de Gillian Flynn
    Por vingança, ​​Amy Dunne forjou o próprio desaparecimento para incriminar o marido — para o qual, mais tarde, volta por conta própria, obrigando-o a manter-se casado com ela.

Plot twists em filmes

A lista abaixo contém revelações importantes sobre o enredo dos filmes.

  1. Testemunha de acusação [Witness for the prosecution] (1957), de Billy Wilder
    Christine Helm Vole, esposa do acusado Leonard Vole, inicialmente fornece um álibi para o marido e depois se torna uma testemunha de acusação hostil. Por fim, descobrimos que seu novo testemunho era uma manobra para que o júri a desacreditasse — a fim de que o depoimento verdadeiro (segundo o qual ela conhecia a culpa do marido e ajudara a encobri-lo) não fosse levado a sério.
  2. Um corpo que cai [Vertigo] (1958), de Alfred Hitchcock
    A mulher que o detetive Scottie tenta salvar (e pela qual se apaixona) não é a esposa de seu colega Gavin Elster, mas Judy Barton, impostora e amante de Elster que o ajudara a encobrir o assassinato da própria esposa.
  3. Trágica obsessão [Obsession] (1976), de Brian De Palma
    O empresário Michael Courtland descobre que a nova namorada, fisicamente idêntica à sua falecida esposa, é na verdade sua filha, sequestrada anos antes e manipulada por um antigo sócio como parte de um plano de vingança contra ele.
  4. Star Wars, V: o Império contra-ataca [The Empire strikes back] (1980), de Irvin Kershner
    No confronto final com Darth Vader, Luke Skywalker sofre uma derrota física — sua mão é decepada — e emocional: Vader revela ser seu pai. A revelação alterará toda a dinâmica da saga.
  5. Chinatown (1974), de Roman Polanski
    Pressionada pelo detetive Gittes, Evelyn Mulwray revela que sua irmã Katherine é também sua filha — resultado da abuso incestuoso perpetrado contra ela pelo pai, o magnata Noah Cross.
  6. Os bons companheiros [Goodfellas] (1990), de Martin Scorsese
    Temendo por sua vida, o narrador Henry Hill rompe com o código de conduta da máfia e torna-se o delator do próprio grupo, entrando para o programa de proteção à testemunha — abrindo mão do status de gângster em troca de uma existência banal e anônima.
  7. Fargo: uma comédia de erros (1996), de Ethan e Joel Coen
    O plano do endividado vendedor de carros Jerry Lundegaard de sequestrar sua esposa para extorquir o sogro sai rapidamente do controle. Atrapalhados, gananciosos e brutais, os dois criminosos contratados para a empreitada acabam por matar o próprio Jerry, assim como sua esposa e seu sogro. Outra subversão de expectativas está no fato de que é a tranquila e grávida policial Marge Gunderson quem, com calma e inteligência, soluciona o caso.
  8. Vidas em jogo [The game] (1997), de David Fincher
    O fracasso financeiro e as perseguições e traições que o banqueiro Nicholas Van Orton enfrenta são apenas parte de uma simulação — na qual mesmo os piores momentos foram encenados para fazê-lo reavaliar a vida.
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  1. Os suspeitos [The usual suspects] (1995), de Bryan Singer
    O suspeito Verbal Kint é, na verdade, o temido criminoso Keyser Söze — e seu depoimento à polícia foi inteiramente inventado. Por fim, Kint despista os policiais e foge calmamente.
  2. Beleza americana [American beauty] (1999), de Sam Mendes
    Prestes a consumar seu flerte com a adolescente Angela, Lester Burnham recua. Pouco depois, é morto — e seu assassino, ao contrário do que pensamos, é o coronel Frank Fitts, o vizinho aparentemente homofóbico que, poucas cenas antes, tentara beijá-lo e fora rejeitado.
  3. O sexto sentido [The sixth sense] (1999), de M. Night Shyamalan
    O psicólogo Malcolm Crowe está, na verdade, morto — e é um dos fantasmas frequentemente vistos pelo garoto Cole.
  4. Amnésia [Memento] (2000), de Christopher Nolan
    Aberto a interpretações diversas, o desfecho do filme nos permite acreditar, por um lado, que Leonard Shelby pode já ter vingado o assassinato da esposa Catherine e, por outro, que a própria Catherine jamais tenha sido assassinada, mas acidentalmente morta pelo marido.
  5. Os outros [The others] (2001), de Alejandro Amenábar
    Ao final, a atormentada Grace Stewart descobre que, assim como os criados Bertha, Edmund e Lydia, ela e os filhos “sensíveis à luz” também estão mortos — são eles os fantasmas que assombram os novos moradores da mansão.
  6. A vila [The village] (2004), de M. Night Shyamalan
    A cega Ivy descobre que as criaturas misteriosas “que punem quem tenta abandonar a vila” não passam de invenção dos líderes do lugar para manter os moradores afastados da modernidade. Mais surpreendentemente, a história se passa no presente, e não no século XIX, como se fazia crer.
  7. O grande truque [The prestige] (2006), de Christopher Nolan
    Enquanto o mágico Alfred Borden usava um irmão gêmeo secreto para executar seu truque de teletransporte, seu rival Robert Angier recorria a uma máquina de clonagem: a cada apresentação, entretanto, ele sacrificava um de seus clones.
  8. O orfanato [El orfanato] (2007), de Juan Antonio Bayona
    Laura descobre que o filho Simón, até então desaparecido, morrera acidentalmente dentro da casa, e que as crianças que ela julgava serem fantasmas — todas elas vivas — na verdade tentavam levá-la até ele.
  9. Cisne negro [Black swan] (2010), de Darren Aronofsky
    Afinal, a bailarina Nina Sayers percebe que, durante um colapso psicótico, apunhalou não sua “rival” Lily, mas a si mesma. Boa parte das interações entre Nina e Lily também haviam sido alucinadas pela protagonista.
  10. Corra! [Get out] (2017), de Jordan Peele
    O fotógrafo Chris descobre que os pais de sua namorada Rose realizam transplantes de consciência, usando corpos negros como receptáculos para o cérebro de brancos ricos. Antes aparentemente inocente, é Rose quem seduz as vítimas, levando-as à mansão da família.
  11. Entre facas e segredos [Knives out] (2019), de Rian Johnson
    Ransom, neto do escritor Harlan Thrombey, havia manipulado as medicações do avô a fim de incriminar sua enfermeira Marta e herdar sozinho toda a fortuna. Seu plano, no entanto, falha: apesar da confusão de frascos, Marta administrou as medicações corretamente, e Thrombey, na verdade, suicidou-se para protegê-la. Encerrando a história com justiça irônica, é Marta quem herda os bens do magnata.
  12. O homem invisível [The invisible man] (2020), de Leigh Whannell
    Cecilia descobre que o ex-marido, o rico cientista óptico Adrian, realmente fingiu o suicídio e passou a usar um traje invisível para persegui-la. Por fim, ela se vinga matando-o discretamente, escapando com a ajuda do mesmo traje.

Plot twists em seriados

A lista abaixo contém revelações importantes sobre o enredo dos seriados.

  1. Breaking bad (2008–2013), de Vince Gilligan
    Em uma das notáveis reviravoltas da série, o verdadeiro responsável pelo envenenamento do garoto Brock Cantillo não foi Gus Fring, como pensava Jesse, mas o próprio Walter White, que se aproveita da situação para reatar com Pinkman a aliança contra Gus.
  2. Westworld (2016–2022), de Lisa Joy e Jonathan Nolan
    A jornada de William no parque ocorre em duas linhas do tempo distintas — e ele é, na verdade, o Homem de Preto no futuro.
  3. Dark (2017–2020), de Baran bo Odar e Jantje Friese
    Charlotte Doppler é ao mesmo tempo filha e mãe de Elisabeth, num paradoxo temporal que amplia ainda mais a complexidade de sua árvore genealógica.
Cena do episódio “The candidate”, sexta temporada do seriado americano “Lost” (2004–2010), fonte de muitas reviravoltas marcantes
Cena do episódio The candidate, sexta temporada do seriado americano Lost (2004–2010), fonte de muitas reviravoltas marcantes — Foto: Reprodução de IMDb
  1. Mr. Robot (2015–2019), de Sam Esmail
    O misterioso hacker revolucionário Mr. Robot é, na verdade, uma criação mental do próprio Elliot, portador do transtorno dissociativo de identidade.
  2. The OA (2016–2019), de Zal Batmanglij e Brit Marling
    No episódio final da 1ª temporada, uma aparentemente absurda performance de dança consegue interromper um tiroteio real, sugerindo que tudo o que a jovem Prairie Johnson revelara a seus amigos sobre seu desaparecimento pode ser verdade.
  3. The good place (2016–2020), de Michael Schur
    No final da 1ª temporada, descobrimos que Eleanor, Chidi, Jason e Tahani não estão, como pensavam, no Bom lugar, mas no Inferno, presos em uma “simulação de Paraíso” criada por Michael para torturá-los psicologicamente.
  4. Como defender um assassino [How to get away with murder] (2014–2020), de Peter Nowalk
    Os alunos da professora de Direito Annalise Keating matam seu marido Sam ao descobrir seu envolvimento com a também estudante Lila. De volta à casa, Annalise encontra o corpo do marido, mas, em vez de denunciar o delito, auxilia os alunos a encobri-lo, orientando-os sobre como se livrar do corpo e evitar suspeitas.
  5. The undoing (2020), de David E. Kelley
    Embora sua advogada faça o melhor para provar o contrário, o carismático Jonathan é o verdadeiro assassino da amante Elena Alves, mãe de um colega de classe de seu filho.
  6. Lost (2004–2010), de J. J. Abrams, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof
    No final da 3ª temporada, o que parecem flashbacks de Jack são, na verdade, flashforwards: o grupo conseguiu deixar a ilha — o que, todavia, não resolveu nada.
  7. Black mirror (episódio White bear) (2011–2019), de Charlie Brooker
    A protagonista não é vítima de um mundo distópico, mas está presa em um ciclo punitivo diário como parte de sua pena — e escolheu esquecer o crime cometido.
  8. Ruptura [Severance] (2022–), de Dan Erickson
    No fim da 1ª temporada, os Innies conseguem burlar o sistema da Lumon Industries e acessar brevemente o mundo real — quando descobrem verdades devastadoras sobre suas vidas fora da empresa. A revelação muda radicalmente a percepção de poder e consentimento no enredo da série.
  9. Stranger things (2016–), de Matt Duffer e Ross Duffer
    Na 4ª temporada, é revelado que o temido monstro Vecna é, na verdade, Henry Creel (“número 001”), alvo do primeiro experimento do projeto que criou Eleven — e que, anos antes, a própria Eleven o enviara ao Mundo Invertido.

Perguntas frequentes sobre plot twists

  • O que é um plot twist? O plot twist é um dispositivo narratológico que introduz uma reviravolta no enredo, alterando radicalmente o rumo da história ou a percepção do público sobre os eventos anteriores. A técnica, cujos primeiros registros encontramos no teatro grego antigo, é hoje amplamente empregada em contos, romances, filmes, seriados e videogames.
  • Qual é a tradução da expressão plot twist? A expressão inglesa plot twist (de plot, “enredo”, e twist, neste caso “reviravolta”) pode ser literalmente traduzida por “reviravolta no enredo”.
  • Qual é a diferença entre plot twist, anagnórise e peripécia? A peripécia é uma reviravolta no rumo dos eventos de um enredo. A anagnórise (ou descoberta), por sua vez, é uma revelação importante que transforma a compreensão da realidade — e que geralmente, mas não necessariamente, conduz à peripécia. O plot twist pode englobar ambos os dispositivos anteriores, mas, diferente deles — ambos cunhados por Aristóteles e canônicos na teoria literária —, trata-se de um termo moderno e informal, comum na crítica e cultura pop.
  • Quais são os melhores filmes cujo enredo contém plot twists? Ainda que a opinião sobre a qualidade de um filme varie de espectador para espectador, alguns filmes que empregam plot twists e receberam altas notas no IMDb são Clube da luta (1999), Star Wars, V: O Império contra-ataca (1980), Os bons companheiros (1990), À espera de um milagre (1999) e Parasita (2019), todos com avaliação geral superior a oito estrelas, um indicativo de sucesso de crítica e público.
  • Quais são os melhores filmes de suspense cujo enredo contém plot twists? Entre os filmes de suspense que empregam plot twists e receberam altas notas no IMDb, estão Os suspeitos (1995), Testemunha de acusação (1957) e Fargo: uma comédia de erros (1996), todos com avaliação geral superior a oito estrelas.
  • Quais são os melhores filmes de terror cujo enredo contém plot twists? Entre os filmes de terror que empregam plot twists e receberam altas notas no IMDb, estão Psicose (1960), Corra! (2017) e O orfanato (2007), todos com avaliação geral superior a sete estrelas.
  • Quais são os melhores seriados cujo enredo contém plot twists? Entre os seriados que empregam plot twists e receberam altas notas no IMDb, estão Breaking bad (2008–2013), Game of thrones (2008–2013), Sherlock (2010–2017), o anime Death note (2006–2007) e Black mirror (2011–), todos com avaliação geral superior a oito estrelas.

Referências

  1. Aristóteles, Poética. Tradução: Ana Maria Valente. 3. ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, p. 48 e 60–1, 1452a. ↩︎
  2. Chris Baldick, The concise Oxford dictionary of literary terms. 2. ed. Oxford University Press, 2001, p. 12. ↩︎
  3. Aristóteles, op. cit., p. 57–8, 1452a. ↩︎
  4. Ibid., p. 56–57, 1452a. ↩︎
  5. Ibid. ↩︎
  6. Ibid., p. 57, 1452a. ↩︎
  7. Milan Terlunen, All along…! The pre-history of the plot twist in nineteenth-century fiction. 2022. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Graduate School of Arts and Sciences, Universidade Columbia, 2022, p. 2. ↩︎
  8. Baldick, op. cit., p. 63–4. ↩︎
  9. Christine Rose Elizabeth Hamilton, The function of the deus ex machina in Euripidean drama. 2017. Tese (Doutorado em Grego e Latim) – College of Arts and Sciences, Universidade Ohio State, 2017, p. 4. ↩︎
  10. Os Editores da Encyclopædia Britannica, Deus ex machina. Encyclopædia Britannica, atual. 25 mai. 2025. ↩︎
  11. Marie-Laure Ryan, Cheap plot tricks, plot holes, and narrative design. Narrative, n. 17, v. 1, p. 56 e 63 [56–75], 2009. ↩︎
  12. Terlunen, op. cit., p. 3. ↩︎
  13. Ibid. ↩︎
  14. Martin Puchner, O mundo da escrita: como a Literatura transformou a civilização. Tradução: Pedro Maia Soares. Companhia das Letras, 2019, cap. 6. ↩︎
  15. Terlunen, op. cit., p. 12. ↩︎
  16. A ordália (ou ordálio ou, ainda, juízo de Deus) foi um tipo de prova judicial segundo o qual a culpa ou inocência do acusado era provada pelo “juízo divino”, manifestado pela incolumidade ou resistência do réu a torturas, combates ou outras provas físicas. Sir Friedrich von Trota e o conde Jakob ingressaram em uma ordália por duelo. ↩︎
  17. Edgar Allan Poe, William Wilson. In: ______, Contos de terror, de mistério e de morte. Tradução: Oscar Mendes. 9. ed. Nova Fronteira, 2021. ↩︎
Caricatura do escritor, professor e produtor de conteúdo digital Felipe Pardal

Felipe Pardal é um escritor de ficção, pesquisador, criador de conteúdo digital e tutor particular de Literatura e Escrita Criativa. Autor de Samuca (romance, agora em processo de reescrita), é pós-graduado lato sensu em Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS, Brasil) e bacharel em Direito. Mais sobre o Felipe aqui.

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